Todos os Cantos 300
Todo ano trabalhadores mais usuários de serviços de saúde mental celebram o dia 18 de maio. Desde 1987 a data é lembrada como um marco do Movimento da Luta Antimanicomial, que junto de outros movimentos sociais, estabeleceu as bases da reforma psiquiátrica brasileira. Reforma que muito avançou, mas, no momento, encontra-se sob forte questionamento. Voltaram a sair na imprensa matérias contrárias ao processo da reforma. De fato houve muitos avanços nos últimos, mas a necessidade de novos serviços ainda é grande. Pois o núcleo das medidas – a substituição de leitos psiquiátricos por ações comunitárias – vem sendo implementado em ritmo lento. Mais rapidamente se fecharam hospitais psiquiátricos que se criaram serviços alternativos às hospitalizações. Isso tem uma explicação. O fechamento depende mais dos governos centrais, seja federal ou estadual. Já a abertura dos serviços substitutivos depende de iniciativa dos municípios. Como são seis milhares em todo o Brasil, dá para imaginar as dificuldades. Na maioria dos lugares o espírito da reforma ainda nem chegou, e as pessoas ainda tem internalizada a idéia de que a melhor forma de lidar com os portadores de desordem mental é internando-as em algum hospício. A simples implantação de ações ambulatoriais é muito difícil em muitos municípios brasileiros: faltam profissionais habilitados; a maioria não consegue contratar psiquiatras ou enfermeiros espcializados. Tudo isso torna a tarefa de concretizar a reforma extremante árdua. Por outro lado há locais onde os avanços são inegáveis. Podemos dizer com toda a segurança que Mococa está entre eles. Com 70 mil habitantes a cidade conta com um Caps-ad (Centro de Atenção Psicossocial para álcool e outras drogas, inclusive tabaco), quatro residências terapêuticas, uma oficina terapêutica, leitos para desintoxicação de usuários de drogas e para transtornos mentais agudos na Santa Casa. Além disso, já estamos implantando o segundo Caps, esse para transtornos mentais, e três outros projetos estão em andamento: a ampliação das residências terapêuticas, uma enfermaria para adolescentes dependentes químicos graves (de abrangência regional como o Caps-ad) na Santa Casa, e a reorganização do ambulatório de saúde mental para crianças e adolescentes. Ótimas perspectivas. Iniciativa municipal com apoios federal e estadual, e convênio com as Obras Sociais Santa Luzia. Por tudo isso nossa participação nas Olimpíadas de Serviços de Saúde Mental, no último dia 15 em Casa Branca, foi uma festa. Nós, que nunca deixamos de comparecer desde a primeira edição, comparecemos com equipes do Caps-ad e da Oficina Terapêutica. Fazemos parte dessa história, que neste ano contou com a presença de 43 serviços, na maioria Caps, e quase 2 mil atletas. Em 2012 organizaremos as Olimpíadas em Mococa, como parte das comemorações dos 10 anos desse grande projeto de saúde mental, que estamos construindo aqui. Desde já todos estão convidados para as festas, que devem começar em 21 de janeiro – dia da abertura da primeira residência terapêutica em 2002 - e se encerrar em 18 de maio. Serão organizados encontros científicos, debates com a comunidade, apresentações e exposições pelos usuários, sessões de filmes, competições esportivas. Para lembrar que as questões levantadas pelo binômio saúde/doença mental são questões da sociedade como um todo. E que o acolhimento e a inclusão social, o respeito e o bom cuidado, são escolhas, decisões e atitudes, não um determinismo qualquer. . Paulo Palladini
Escrito por Paulo Palladini às 20h39
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Todos os Cantos 299
AI-5, a certidão de batismo da ditadura
No dia 13 de dezembro, 40 anos atrás, em histórica reunião ministerial, o governo do general Costa e Silva impunha ao país o Ato Institucional Número 5, o famigerado AI-5. Apoiado por quase todos os presentes o documento revelou-se a própria certidão de batismo da ditadura. A partir de sua imposição todas as garantias constitucionais foram suspensas. O presidente passou a ter o poder de mandar prender qualquer cidadão, suspender os direitos dos opositores, cassar mandatos políticos, expulsar estudantes das universidades, censurar a imprensa, dissolver o Congresso, manietar o Judiciário. Tudo isso foi feito e muito mais: à sombra do general-presidente e seu ato institucional os brasileiros assistiram às mais degradantes violações da condição humana. Generalizaram-se as torturas, as prisões ilegais, os desaparecimentos, as mortes. O golpe militar de 64 havia deposto um presidente eleito pelo voto popular e cometera inúmeras arbitrariedades. Mas acenava com a esperança de uma rápida volta à normalidade democrática. Respirava-se relativa liberdade. O AI-5 pôs fim à esperança e ao que restava de liberdade; passou a subordinar ao presidente da república todas as leis brasileiras. Uma aberração jurídica. Nas democracias é o presidente que se subordina às leis, não o contrário. Todas as garantias legais foram suspensas, a carta constitucional foi atirada ao lixo. E se as leis foram para o lixo para que casa legislativa? Fecha o Congresso! Se não há garantias legais manda a oposição pra cadeia, cala os descontentes! Fecha jornal e revista, invade rádio e TV! Censura! (um censor decidirá que notícias veicular). Dissemina o terror através da brutalidade. Planta o medo paralisante. Não houve setor da vida nacional que ficasse indiferente ao fechamento do regime e até hoje há muito que esclarecer. O livro Brasil: Nunca Mais ( Editora Vozes), prefaciado em 1985 por Dom Paulo Evaristo Arns, é o mais amplo retrato dos porões do regime: dá os nomes de torturados e torturadores, descreve o que acontecia entre eles, aponta os locais das ações. E com o tempo mais revelações vieram se somar à memória daqueles anos. Um ex-tenente do exército confessou ter torturado cerca de trinta presos políticos e a Rede Globo chegou a divulgar gravação do encontro que selou o AI-5. Embora a fita nada revelasse que já não fosse de domínio público, é interessante ouvir de viva voz os personagens da tragédia. E lembrar, por exemplo, da postura digna do então vice-presidente Pedro Aleixo, que se recusou a referendar o Ato e de outros que não se importaram e mandaram às favas os escrúpulos de consciência. Descobrimos, também, que foi falada ali a palavra ditadura e concluímos que tal regime não foi, portanto, uma invenção da esquerda. Paulo Palladini
Escrito por Paulo Palladini às 21h13
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Todos os Cantos 298
O gato e o canário
O que aconteceria se eu pusesse meu gato para tomar conta de um canário? A resposta é óbvia, por mais civilizado que fosse meu gato e por mais esperto que fosse o canário. Ninguém, em sã consciência cometeria tal imprudência. Pois em política fazemos exatamente isso. Cometemos a imprudência repetidas vezes. Escolhemos o gato para cuidar do canário e quando ele faz o que seus instintos mandam, fingimos indignação. Contrariamente aos homens os gatos não podem escolher uma determinada conduta entre várias possíveis. Os homens podem, pois têm história e consciência para orientá-los. É incrível; durante todo o período republicamo o Brasil viveu mais tempo sob ditaduras que regimes democráticos. O povo brasileiro sempre lutou para ter garantido o direito de escolher os governantes em eleições livres e diretas. Muitos que hoje usufruem do regime democrático opuseram-se à sua implantação com todas as forças. Muitos outros sofreram para que a democracia prevalecesse, inclusive na defesa dos que se opuseram tão tenazmente a ela. Sentimos, como povo, imensa necessidade de enaltecer os valores democráticos de nossa sociedade e reagimos fortemente a qualquer gesto antidemocrático. Para que, se na hora de votar esquecemos toda a experiência acumulada e escolhemos mal, comportando-nos como homens com agá minúsculo, fazendo política com pê minúsculo? Por que não ousamos? Que é essa compulsão de repetir sempre os mesmos erros? As velhas raposas serão sempre velhas raposas, ou melhor, gato é sempre gato... estará sempre a perseguir o canário. Nem um nem outro tem condições de mudar sua própria natureza. Acredito no ser humano, na sua capacidade de mudança e superação, mas gato é gato. O homem é o único ser com capacidade para fazer algo daquilo que é feito dele. Talvez esta seja sua essência, o verdadeiramente humano. Mas existem os gatos. E esses não têm jeito. Nossa experiência confirma e a prudência manda não ignorar o passado. Não nos iludamos. Um vampiro, dizem, estaria rondando a cidade; teria mostrado a cara aqui e ali. Não as garras, não os dentes. Quem tem medo de vampiro? Não estamos já acostumados e enfadados? Como escreveu certa vez o jornalista Clovis Rossi: convivemos com vampiros políticos há muito tempo, permitindo-lhes que se apropriem do melhor de nossos esforços e de nossas energias. Não nos iludamos: a eleição de um gato ou de um vampiro não lhes dará a chance de se regenerarem. Isso não acontecerá pois sua natureza é imutável. Eles não têm estrutura para mudar, mas nós podemos mudar nossas escolhas. É tão simples como pedir um suco de tamarindo ao invés da primeira marca de refrigerante cujo nome vem à cabeça. Exige que sejamos menos compulsivos e menos cheios de certezas. Que sejamos, enfim, mais humanos e menos gatos.
Paulo Palladini
Escrito por Paulo Palladini às 21h12
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Todos os Cantos 297
Mestres terapeutas
Livros são sempre presentes maravilhosos. Pelo menos para mim. Tempos atrás ganhei de Ana, minha mulher, um desses de lavar a alma. Foi sugestão de frei Vitório Mazzuco, que esteve em Mococa para um encontro da Ordem Terceira no Convento São José. Na época ele era editor da Vozes, a grande editora sediada em Petrópolis; hoje é Vice-provincial da Ordem Franciscana. Viera falar de espiritualidade e, também, de psicologia. E de como esses campos se interpenetram. É disso que trata o livro Terapeutas do Deserto, da aproximação das diversas tradições religiosas e sua integração com o conhecimento psicológico atual. Jean-Yves Leloup, um dos autores, chega a afirmar: “Não há oposição entre o conhecimento de si mesmo que a psicologia propõe e o conhecimento de si mesmo que a espiritualidade propõe”. O diálogo só pode ser fecundo. Leonardo Boff, co-autor do livro, fala de São Francisco. Na verdade Terapeutas do Deserto é resultado de um seminário da Universidade Holística Internacional em Brasília, organizado em 1996 como parte do curso de formação em psicologia transpessoal e holística. Instigantes os dois teólogos desafiam nossas certezas no terreno da espiritualidade propondo novas questões. Jean-Yves aborda aspectos essenciais das tradições budista e taoista cotejando-as com a psicologia analítica de Jung e a psicanálise de Freud. Mostra como é enriquecedora a integração dos diferentes níveis da experiência humana. Dedica um capítulo à sombra, aquela parte de nós mesmos negada e rejeitada pela consciência, reprimida por inaceitável. Remonta a Heráclito, um filósofo pré-socrático, que dizia: cada coisa se transforma em seu contrário. Um desejo intenso de ser bom e fazer o bem pode atrair exatamente o seu oposto. Ou, então, após uma explosão de cólera, a pessoa pode sentir uma grande ternura. Para Jean-Yves “aqueles que querem matar os diabinhos acabam por matar também o anjo”. A sombra, o lado negativo de cada um, não é para ser destruído, e sim integrado à personalidade do indivíduo. “Não há caminho para a luz que não faça a travessia da sombra”, conclui. Leonardo Boff relembra, a este respeito, que São Francisco se considerava um pecador mesquinho e vil; reconhecia sua sombra. Fazia das dimensões negativas caminhos de encontro com Deus. No capítulo sobre o discernimento Jean-Yves faz um alerta: “certas palavras que se atribuem a Deus vêm do mais profundo do homem”...”e quando lemos em um texto sagrado deve-se ler como uma palavra de Deus, mas não esquecer que este Deus nos fala através dos seres humanos, através da linguagem humana”. Esse modo relativo de olhar o absoluto conduz a uma atitude de equilíbrio e respeito, evitando os perigos do desprezo pelo outro, por um lado e da idolatria cega, por outro. Terapeutas do Deserto guia-nos por esta senda, a senda da fé preciosa. Paulo Palladini
Escrito por Paulo Palladini às 19h33
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Todos os Cantos 296
Caminhada
É começo do outono. A terra ainda está úmida das chuvas de verão. O ar já está mais frio. Os raios de sol chegam quentes. É uma clara manhã de sábado. Apesar de uma dor inoportuna no joelho direito, resolvo caminhar. Tomo a estrada. A vegetação é abundante: arbustos variados, flores do lado esquerdo; um bosque de eucaliptos do lado direito. Não ouço nenhum ruído humano, exceto aquele provocado pelos meus próprios passos e pela minha respiração. Mas um chiado contínuo me acompanha. Distingo nele alguns pios de pássaros, sons de grilos e cigarras, sons de vento nas folhas, que balançam. Um pequeno grilo salta ante minha aproximação. Passos- respiração. Abaixo-me para apanhar pinhas: três pinhas. Formas fugazes aparecem e somem em meio às folhas dos eucaliptos. Seu perfume invade minhas narinas; inspiro mais forte, faço uma respiração profunda. Como é bom! Sinto-me em paz comigo mesmo e com o universo. Nada sobra, nada falta. Tudo está em harmonia. Não há dor no meu joelho. Meus órgãos estão em silêncio. Nada necessito, nada desejo. Tudo é conforme. O perfume dos eucaliptos, ora misturado com o dos pinheiros, penetra pelas narinas, irradia-se. Imagens passam pelo meu cérebro. Os pensamentos são imagens subjetivas: uma conversa por celular com meu filho interrompida por causa da bateria... fragmentos de uma reunião sobre adolescentes dias atrás... o sorriso de minha mulher Ana... sua voz... galeria de imagens de vários pacientes, que atendi na semana ... o som do saxofone. Uma pequena pedra sob a sola do sapato faz tudo parar. e a atenção vai para ela. Sensação de choque sobe pela perna esquerda. Junto com um raio de sol por entre os troncos dos eucaliptos surge uma mancha vermelha. Tão rápida vem tão rápida vai. Paro diante de um tronco cortado; tem cerca de um metro de diâmetro. Observo sua superfície enegrecida, pergunto-me (mentalmente): porque uma árvore desse porte foi cortada. Vejo outras delas tombadas, menos imponentes. Restos de galhos ainda estão espalhados pelo chão. Agora tem um outro cheiro o ar: terra úmida. E tudo aparece marrom, as folhas estão secas e faz outro som, quando piso. Não mais arenoso, nem só de folhas; é mais compacto. Os raios que vêm dos pinheiros são diferentes, o verde está bem mais escuro. A estrada começa a fazer uma longa curva para a direita; não dá para ver muito mais adiante. Penso em voltar. Continuo andando. Vejo: a capa do livro que há pouco eu lia - As ilusões da liberdade - sobre a vida e a obra de Nina Rodrigues, trechos de um artigo sobre economia solidária, tipos gráficos aleatórios. O sol começa a arder na minha pele; levemente. As folhas das árvores balançam compassadas; o único movimento que percebo. Dou meia volta. Olho pra cima: duas volumosas nuvens, muito brancas, em alta velocidade, chocam-se, misturam-se, viram uma coisa só. Como é possível? Tapam o sol. Paulo Palladini
Escrito por Paulo Palladini às 19h30
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Todos os Cantos 295
Um artigo errado
Quero falar da publicação por Ferreira Gullar - o poeta de Poema Sujo e Dentro da Noite Veloz – de artigo sobre a reforma psiquiátrica em sua coluna na Folha de São Paulo. Ele tocou em ponto sensível da vida nacional, meio que negligenciada pela imprensa: a questão da loucura e dos cuidados que ela requer. Sob o título de Uma lei errada, Gullar atacou o movimento pela reforma psiquiátrica no Brasil, a Lei 10.216 de 2001 e seus desdobramentos. Como defensor e parte do movimento pela reforma, sinto que devo opinar. Faço aqui a defesa da reforma, pois ela, ao contrário do que afirma Gullar, transformou radicalmente o modelo anterior centrado no hospital psiquiátrico. O que tínhamos antes? Hospitais psiquiátricos, e só. Um modelo hospitalocêntrico. E a maioria desses hospitais não era pública, era formada de empresas privadas, que vendiam seus serviços para o Estado, em troca de lucro financeiro. Sua única razão de ser não era assistir, cuidar, mas obter lucros. Como o Estado restringia a margem de ganho das empresas, os lucros eram obtidos reduzindo-se despesas às custas dos doentes. Por isso os hospitais eram fechados, para que não se visse o que acontecia lá dentro. As famílias internavam seus doentes com a consciência de que faziam o melhor. Mas a regra era a segregação, o abandono, as más condições de higiene e alimentação, assistência de baixa qualidade. As famílias abandonavam sim seus doentes nos hospitais. Todo mundo que já trabalhou em locais como esses sabe disso. Quantas famílias só apareciam no dia da internação e sumiam!? Quantas não mudavam de endereço e não comunicavam o hospital!? Quantas não davam endereço falso!? Isso é amor? Censo feito no ano passado em São Paulo aponta a existência de mais de seis mil pessoas nessas condições, abandonados nos hospitais psiquiátricos. Se não tivesse um projeto para o seu resgate elas, muito simplesmente jamais sairiam do hospício. Como milhares de pessoas, que já morreram atrás de suas grades de ferro. Mas é que tem um projeto. A reforma psiquiátrica instituiu as residências terapêuticas para trazer de volta à vida social aqueles que haviam sido declarados socialmente mortos. Em Mococa temos quatro residências terapêuticas, e já nos candidatamos para montar mais duas e ajudar no esforço que governo de São Paulo e trabalhadores da saúde mental estão fazendo. Pois, depois da Lei 10.216 a questão da saúde mental é questão de Estado e os governos devem se comprometer. Da enxurrada de cartas que a Folha recebeu sobre o assunto e da reportagem publicada em 17 de abril, eu concluo que as maiores críticas não são à reforma em si, mas à não aplicação dos dispositivos legais em toda a sua extensão. A Lei não está errada; ela precisa ser aplicada de forma mais radical. Os Caps – Centros de Atenção Psicossocial - por exemplo, são estruturas fundamentais para efetivar a reforma e evitar a desassistência. Vários Estados brasileiros pouco avançaram nesse aspecto. Os Caps III, de maior porte, que funcionam de modo ininterrupto, 24 horas por dia, não existem em 16 deles. E mesmo em Estados como Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Rio de Janeiro. A Lei prevê a substituição dos hospitais fechados por estas estruturas abertas, onde pacientes e familiares recebem atenção digna e correta. Junto com as residências, o programa de volta pra casa, oficinas de geração de renda, leitos e enfermarias de saúde mental em hospitais gerais, ambulatórios e apoio complementar de unidades básicas de saúde e programas de saúde da família eles formam uma rede eficaz na cobertura das demandas por cuidados psíquicos. Isso já é realidade em muitos municípios brasileiros. Sinto muito Ferreira Gullar. Paulo Palladini
Escrito por Paulo Palladini às 19h29
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Todos os Cantos 294
Cooperação e qualidade de vida
Um casal de argentinos, Herman e Candelaria Zapp, realizou um sonho da adolescência: eles saíram de Buenos Aires e foram dar na costa do Mar Ártico no Alasca, 70 mil quilômetros depois. Atravessaram todo o continente americano. A viagem foi feita de automóvel, um Graham Paige de 1928 e durou 3 anos e 7 meses. No meio do caminho a equipe aumentou com o nascimento do filho Nahuel Pampa. Durante o trajeto eles contaram com a solidariedade de milhares de pessoas, que adquiriram o livro de Herman, as pinturas de Candelaria ou, simplesmente, contribuíram como puderam. Em Greenboro, Carolina do norte, EUA, onde o menino nasceu, os moradores do lugar pagaram as despesas hospitalares. Ao final Herman declarou: “Realizamos nosso sonho graças a milhares de pessoas que nos abriram suas casas, nos deram comida e nos compraram o livro e as pinturas”. “Saímos para conhecer um continente maravilhoso, mas percebemos que o que o faz mais maravilhoso são suas pessoas”, completou Candelaria. Passaram por Chile, Bolívia, Peru, Equador, Brasil, Guiana, Venezuela, Colômbia, atravessaram a América Central, o México, os EUA, o Canadá e o Alasca. Toda uma região marcada pela violência cotidiana mostrada nos meios de comunicação de massa. E encontraram solidariedade por todos os cantos. Não importa quanto a situação está difícil, a vida complicada; a melhor resposta é cooperar, trabalhar junto, ser solidário. Quando isso acontece as coisas melhoram, as pessoas vivem mais e mais felizes. Os mundos da natureza e da cultura evoluem mais por cooperação que por competição. A atitude solidária é uma atitude amorosa, de apego e empatia entre irmãos, quando nos reconhecemos como iguais na condição humana. Foi o que o casal argentino encontrou em sua peregrinação. Mais cooperação, menos competição. É possível. O Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados) divulgou os resultados de uma pesquisa realizada em todos os 645 municípios paulistas, a pedido da Assembléia Legislativa de São Paulo. Dela resultou a elaboração do IPRS ( Índice Paulista de Responsabilidade Social) que indica quanto a riqueza de uma região afeta a qualidade de vida dos seus cidadãos. Isso é medido através de indicadores como longevidade, escolaridade e renda. Em cada município foram computadas taxas de mortalidade perinatal, infantil, de adultos e idosos, taxas de alfabetização nas várias faixas etárias, matrículas escolares, remuneração média dos trabalhadores e modalidades de consumo. Com os dados em mão foram formados 5 grupos conforme os níveis de riqueza produzida na região e os indicadores sociais encontrados. O grupo 1 incorporou 81 cidades de altos indicadores sociais e altos índices de riqueza. O grupo 3, com 211 municípios, foi considerado o grupo justo; combinou baixos níveis de riqueza, mas com altos indicadores sociais. Os grupos 4 e 5, englobando 332 cidades, tiveram baixos índices sociais e baixa produção de riqueza. Encontrei Mococa no grupo 2, entre os 48 municípios paulistas que produzem riquezas, mas apresentam baixos indicadores sociais. São considerados municípios injustos porque distribuem mal o que produzem, gerando distorções graves e aumentando a concentração de renda. Produzem, mas não distribuem. Podemos dizer que neles há mais competição que cooperação, acumulo que redistribuição. E solidariedade pouca. Está bem firmado: uma cidade justa distribui sua riqueza de modo equilibrado. Mais importante ainda: boa qualidade de vida é questão de atitude não de mais riqueza. Pensemos nisso. Paulo Palladini
Escrito por Paulo Palladini às 19h27
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Todos os Cantos 293
Responsabilidade compartilhada Nas últimas semanas tenho refletido muito sobre a expressão responsabilidade compartilhada. Fixei-a melhor a partir do conceito usado pela Justiça nos casos de separação conjugal, em que pai e mãe continuam co-responsáveis pelos filhos. Um não transfere a responsabilidade para o outro; ambos a exercem em conjunção. A expressão aparece também nas áreas de educação e saúde. Passei a pensar em como estão organizados nossos serviços públicos de saúde, e resgatei algumas outras velhas idéias: descentralização, regionalização, hierarquização. Idéias como as defendidas por Franco Montoro, ao disputar o cargo de governador de São Paulo em 1982. Quando pode colocá-las em prática, já eleito, foi um choque e foi um bálsamo. Queríamos mudanças, lutamos por mudanças, e elas vieram no bojo das primeiras eleições estaduais livres e diretas. Auxiliado por secretários como João Sayad e José Serra, o governador Montoro implantou em São Paulo suas políticas baseadas em descentralização e participação. Mais tarde um forte movimento nacional culminaria com a criação do SUS – Sistema Único de Saúde. Antes disso a combinação de reivindicações populares e políticas governamentais levara à organização das AIS - Ações Integradas de Saúde - que procuraram compatibilizar serviços federais, estaduais e municipais entre si. Até então era possível encontrar dois postos de saúde numa mesma rua - um estadual, outro municipal - e o restante do bairro sem nenhum serviço. A descentralização aliada à regionalização permitiu reorganizar a assistência de acordo com as necessidades e capacidades locais. No interior de cada território os recursos foram realocados de acordo com o princípio da hierarquização. Imaginemos uma pirâmide organizada de baixo para cima, dos eventos mais simples para os mais complexos. Isso constitui uma hierarquia, porém, nesse caso, não uma hierarquia de poder, e sim uma hierarquia funcional. À complexidade dos problemas deve corresponder a complexidade dos métodos. Numa reunião, que organizamos no mês passado, na sede da Área de Saúde Mental das Obras Sociais Santa Luzia, discutimos a constituição da rede municipal de saúde mental. Pensamos em organizá-la de modo regionalizado e hierarquizado, cada instância exercendo seu papel, e compartilhando responsabilidades, não simplesmente transferindo problemas, como é comum acontecer. Desse modo o PSF – Programa de Saúde da Família – continuaria assistindo, no bairro onde atua, um paciente psicótico grave, que se encontra acolhido no Caps – Centro de Atenção Psicossocial. O PSF – serviço de menor complexidade - não transfere para o Caps – serviço de maior complexidade - a responsabilidade do cuidado. Ambos os níveis são co-responsáveis, compartilham a responsabilidade. Esta é, em resumo, a nossa proposta de rede social para Mococa. Paulo Palladini
Escrito por Paulo Palladini às 19h26
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Todos os Cantos 292
Os psicopatas A revista Veja apresentou, na edição da semana passada, entrevista com o psicólogo canadense Robert Hare, especialista num problema pouco considerado, mas cujos efeitos podem ser violentos: as psicopatias e os psicopatas. Ele estuda o tema há 50 anos, e chegou a elaborar uma escala para quantificar em graus a psicopatia de uma pessoa. Considerada um transtorno mental, a psicopatia caracteriza-se, não pelo sofrimento que o psicopata possa revelar, mas pelo sofrimento que ele é capaz de causar aos outros. Segundo Hare as principais características da psicopatia são: “ausência de sentimentos morais – como remorso ou gratidão -- extrema facilidade para mentir e grande capacidade de manipulação”. O leitor, certamente, conhece alguém assim: não está nem aí para os sentimentos dos outros, mente que não sente, está sempre jogando e manipulando. Um provável psicopata. Para meu mestre Anibal Silveira, as personalidades psicopáticas são condições endógenas por predisposição genética latente, caracterizadas pelo desvio conjunto das esferas afetiva ou conativa, e pela falta de subordinação da individualidade à sociabilidade. Isso quer dizer que a pessoa nasce com uma predisposição genética para o transtorno, e que ele abrange as esferas afetiva e conativa da personalidade, nunca a intelectual. Desse modo o psicopata tem uma inteligência normal e até acima da média. Nessa desordem os impulsos egoísticos preponderam sobre os sentimentos sociais. Por isso, o indivíduo não manifesta pelos outros nenhum daqueles sentimentos, que permeiam a vida social: respeito, consideração, aceitação, compaixão, empatia. Para eles não há moral nem lei, nem bem comum. Eles concentram em si o máximo do egoísmo. Segundo Hare a estimativa é de que 1% da população seja psicopata. Para cada 100 pessoas que encotramos ao acaso na rua, uma seria psicopata. Eles existem em todos os cantos da terra e em todos os extratos sociais. Hare defende que “ainda que vivêssemos uma utopia social, haveria psicopatas”. Não são as condições familais e ambientais, sociais e econômicas que determinam o aparecimento de um psicopata. “Os pais podem colaborar para o desenvolvimento da psicopatia tratando mal os filhos. Mas uma boa educação está longe de ser uma garantia de que o problema não aparecerá lá na frente, visto que os traços de personalidade podem ser atenuados, mas não apagados”, concluiu. Dado seu comportamento muitos psicopatas esbarram na lei e acabam se envolvendo com a Justiça. A legislação brasileira considera-os parcialmente responsáveis pelos seus atos. Eles entendem que o que fazem é errado, mas não conseguem agir de acordo com esse entendimento. Podem falsificar uma assinatura ou documento, sabem que isso é ilegal, mas fazem assim mesmo. Além disso não se importam com as consequências dos seus atos, nem para si, nem para os outros. Quando apanhados, mentem, põem a culpa em outrem, inventam uma desculpa qualquer. Se prejudicam alguém, não se importam. Sua frieza afetiva impede-os de sentir compaixão ou amor. Aliás, sobre isso, afirma Hare: “Um psicopata ama alguém da mesma forma como eu, digamos, amo meu carro – e não da forma como eu amo minha mulher. Usa o termo amor, mas não da maneira como nós entendemos. Em geral é traduzido por um sentimento de posse, de propriedade”. Paulo Palladini
Escrito por Paulo Palladini às 19h24
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Todos os Cantos 291
Indignação e cara-de-pau
A semana foi das mais movimentadas, muitas coisas acontecendo e sendo noticiadas ao mesmo tempo. No mundo, no Brasil, na minha cidade, no meu bairro. A banda Filarmônica Mocoquense apresentou-se na Praça Ferdinando Giorgi, Jardim Morro Azul, onde moro: uma agradável manhã de domingo, os vizinhos todos ali, passeando com seus cachorros, num clima bem descontraído. Encontro pessoas que não vejo há muito tempo: uma se recupera de delicada cirurgia, outra conta que o filho terminou a faculdade (medicina), outra perdeu o cachorro em movimentada rua de São Paulo (no dia seguinte, felizmente, reencontrou-o). Enquanto conversamos a Filarmônica executa alguns números do seu repertório (centenário). Carlos Spina é o quinto maestro da banda fundada por Pedro Ângelo Camin em 1892, todos eles de origem italiana. Acho isso uma bela tradição. Mas a banda está ali por enfrentar dificuldades financeiras. Falta dinheiro na sua caixa. Encontro Antônio Ventura, diretor de Cultura do município, que confirma a falta de dinheiro. Pergunto da Casa da Cultura, cuja reforma está em fase final. Ele diz que o maior problema vai ser mobiliá-la e equipá-la. Difícil está o início da administração do prefeito Toni Naufel. Político e administrador experiente, penso que ele logo encontrará o jeito. Tenhamos um pouco de paciência. O Brasil sofreu um pequeno abalo com as notícias de Brasília e de algumas outras cidades. Refiro-me ao caso do Congresso Nacional e aos casos de pedofilia, que, parece, multiplicam-se em série. Não que um tenha a ver com o outro. O Senado descobre que tem pencas de cargos de direção, todos ocupados por indicação política dos nobres senadores. Incrível! Nenhum deles declarou saber algo a respeito. Todos, todos indistintamente se mostraram indignados, portando aquela mesma cara-de-pau que nunca nos cansamos de eleger. Aí aparece o deputado Clodovil Hernades, em entrevista póstuma, e diz que o Congresso é a cara do Brasil; que não gostamos é mesmo de trabalhar, e por isso elegemos esse tipo de gente. Será? Gostaria de ouvir outras opiniões. Uma coisa é certa: a democracia permite eliminar os muito canalhas dos poderes executivos e legislativos. Porém, não impede que elejamos outros iguais ou piores. Do outro lado da linha do Equador o presidente norte-americano Barack Obama decide fechar a prisão de Guantânamo, assombra-se com os executivos da seguradora AIG, que não querem largar o osso, e dirige-se de modo aberto e respeitoso ao governo e povo iranianos. Bom começo. Vamos aguardar os próximos movimentos desse presidente diferente: ele não tem cão nem gato para levar para a Casa Branca. Notícias sobre casos de pedofilia, incestuosos ou não, ocupam grande espaço nos jornais. Aumentaram as ocorrências ou as denúncias? Parece que ambas. Porque a pedofilia é o exemplo acabado do afrouxamento moral. Romperam-se as barreiras do respeito. Jovens não respeitam os mais velhos, estes abusam dos mais jovens. Traficantes recrutam adolescentes de ambos os sexos, quase crianças, para trabalhar. Lugar de criança é na escola, mas a escola que lhes é oferecida é a do crime. Dentro dos lares não tem mais pai nem mãe. E a responsabilidade pela educação dos filhos é transferida para a escola, cuja tarefa é nobre, mas com certeza não é substituir uma autoridade paterna inexistente. Paulo Palladini
Escrito por Paulo Palladini às 21h42
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Todos os Cantos 290
A lei 10.216. Reforma contra a morte social O movimento que culminou com a lei da Reforma Psiquiátrica aprovada pelo Congresso Nacional em 6 de abril de 2001, foi um dos mais importantes movimentos sociais dos últimos tempos no Brasil. Congregou vários segmentos da sociedade brasileira em torno da questão. Em nenhum outro momento histórico o tema foi mais discutido que nos 12 anos em que o projeto do deputado federal Paulo Delgado, de Minas, tramitou no parlamento. Em nenhum outro momento o modelo de assistência psiquiátrica centrado no hospital especializado foi tão duramente questionado. E em nenhum outro momento alternativas viáveis à hospitalização foram apresentadas. Todos os interessados tiveram oportunidade de participar. Regiões compostas por um grupo de municípios fizeram conferências regionais de saúde mental; os delegados indicados nessas conferências reuniram-se nos estados. Os delegados estaduais representavam cada Estado da Federação nas conferências nacionais. Desse modo, uma organização social ou profissional de saúde mental que possuísse uma experiência peculiar, ou tivesse desenvolvido uma forma especial de atenção ou de abordagem dos problemas psíquicos, tinha chance de ver sua idéia reconhecida e incorporada à reforma psiquiátrica, que se construía. A reforma psiquiátrica brasileira foi uma construção coletiva. Logo depois de apresentar o projeto ao Congresso Paulo Delgado percorreu o País em busca de alternativas ao internamento psiquiátrico. Pois, em princípio, ele propunha a proibição da construção de novos hospitais, a desativação dos existentes e sua substituição por uma rede alternativa de serviços. Mas, que serviços seriam esses? Percorrendo o Brasil ele foi descobrindo inúmeras experiências, algumas ligadas à universidade, outras a organizações não governamentais, outras ainda ao poder público, que correspondiam ao que procurava: atenção humanizada aos que sofrem com transtornos psíquicos, sem segregar, discriminar ou isolar. Pelo contrário, inúmeras iniciativas davam tratamento digno e respeitoso, reintegrando os pacientes psiquiátricos à vida social, ou evitando sua desintegração. Reabilitação psicossocial passou a ser uma expressão forte e significativa. Resumia grande parte do que se fazia, e ainda se faz, no campo da saúde mental. Os locais são múltiplos: uma comunidade terapêutica, um centro de convivência, um ambulatório, uma oficina ou residência terapêutica, um lar abrigado, um centro de atenção psicossocial. As intensas sessões das conferências deram forma ao esboço que era o projeto de lei original. Os grandes interesses econômicos, que sempre cercaram a questão da doença mental, finalmente cederam, para que se pudesse olhar para essas pessoas, e ver o que elas são: seres humanos, cujo sofrimento se intensifica, e muito, através do abandono, da segregação, do isolamento, da exclusão. Seres cuja morte física apenas encerrava um longo e doloroso processo de morte social. Paulo Palladini
Escrito por Paulo Palladini às 21h40
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Todos os Cantos 289
Tornar-se personagem de Maurício de Souza não é para qualquer um. O famoso criador da Turma da Mônica, sabemos, inspira-se em gente de carne e osso para suas criações. A própria Mônica é exemplo disso, filha de Maurício. Pois não é que um médico, amigo nosso, ganhou sua estampa nos famosos quadrinhos? Ele, conceituado cirurgião plástico de São Paulo, Paulo Toyosi Nishimura, virou o Doutor Meximuda no traço de Maurício de Souza; um médico que orienta as crianças como evitar uma série de perigos presentes no lar. Dr Meximuda é apresentado pela Turma da Mônica no mesmo formato das revistas vendidas em bancas, e contracena com Cebolinha, Magali, Cascão, Anjinho. Pratica uma forma eficaz de medicina preventiva, lançando mão de um veículo de grande penetração e poder. Num dos episódios publicados - Perigo na cozinha - Mônica e Magali vão à casa da tia Nena. Lá quase que Magali se queima com uma panela quente. É salva pelo Anjinho. Noutro Franjinha constrói um robô para azucrinar a Mônica, mas Cebolinha, imprudente, faz tudo voar pelos ares, quando pega nos fios desencapados. Em outro, ainda, o próprio Dr Meximuda vai à sala de aulas falar com as crianças sobre os riscos de queimaduras. O Doutor Nishimura é um dos grandes cirurgiões plásticos brasileiros, aperfeiçoou técnicas e foi pioneiro em muitos procedimentos. Sua clínica, em área nobre da Alameda Lorena, é concorridíssima. Estivemos (eu e Ana) com ele em janeiro. Há muito que não nos víamos. Fomos maravilhosamente recebidos pela sua mulher, Neide, também médica e sua colaboradora, e tivemos oportunidade de rever seus filhos. Um deles, seguindo os passos do pai, iniciou nesse ano especialização em cirurgia plástica na clínica do Doutor Pitanguy no Rio. A sala de espera da clínica guarda uma autêntica vestimenta de samurai. Várias espadas estão espalhadas pelos vários cômodos. A escrivaninha é repleta de papéis, prontuários de pacientes e fotos da família. Uma estante contém livros e anais de congressos médicos. Maurício foi muito feliz em nomeá-lo Doutor Meximuda. Quando ele mexe, muda mesmo. Deixa as pessoas mais bonitas. Que bela profissão essa que deixa as pessoas mais bonitas. Eu comparo a cirurgia plástica com a psicoterapia. Ninguém precisa estar doente para procurar uma ou outra; o que ambas se propõem é melhorar as pessoas: a primeira fisicamente, a segunda psiquicamente. Mas quem disse que uma melhora física não melhora a psique e vice-versa? Quando falamos hoje em dia em procedimentos como dermatologia e odontologia estéticas, reeducação alimentar e postural, condicionamento físico, meditação, yoga, e uma infinidade de outras práticas, o objetivo é prevenir doenças, preparar melhor para as dificuldades, envelhecer com saúde e vontade de mais vida. Prevenir é sempre melhor que remediar, não é? Pois hoje há conhecimento científico abundante e disponível para qualquer pessoa crescer e envelhecer bem. E também melhorar, isto é, ir além do que a natureza dá, tornando mais bonito o que já é bonito. É isso que faz o Doutor Nishimura. Mas também é preciso prevenir os acidentes. Sabemos que a quase totalidade dos acidentes com crianças são domésticos - queimaduras, cortes, fraturas, intoxicações - e podem ser evitados com cuidados simples. É isso que vem nos alertar o fantástico Doutor Meximuda, o amigo das crianças, que Maurício de Souza tão bem soube caracterizar. Reparar uma cicatriz ou uma deformação física adquirida na infância é muito mais difícil, que evitá-las. Contudo, sempre pode melhorar. E o Doutor Nishimura está aí para provar. Paulo Palladini
Escrito por Paulo Palladini às 21h43
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Todos os Cantos 288
Desde os dois roubos, de que fui vítima no mês passado, tenho refletido um pouco mais profundamente sobre a insegurança em que vivemos. É natural. Mesmo porque, esse é um caso, em que o raio pode cair mais de uma vez no mesmo lugar. Conversando com as pessoas a gente vai se inteirando melhor do grau de insegurança que atingiu a cidade. É difícil não pensar que a classe média foi entregue à sua própria sorte. Embora os policiais sejam gentis e prestativos, guardo a impressão de que estão sempre correndo atrás dos fatos. Na verdade ninguém com quem conversei se sente seguro seja dentro ou fora de casa, no trabalho ou no lazer. Durante muitos anos atendi no consultório até as 21h00; depois ainda fazia uma caminhada noturna. Alguns colegas chegaram a me alertar para os riscos; não é prudente trabalhar até tarde, não é prudente caminhar à noite. Agora, depois das ocorrências, reduzi o tempo de consultório, saio mais cedo, atendo menos pacientes. Não quero me expor nem expor funcionária e clientes à violência. Mas também não sei se isso adianta. Os conselhos que mais ouvi nestes dias podem ser condensados num só: aumente sua segurança pessoal. Isto é: instale alarmes e câmaras, portas eletrônicas, grades nas aberturas, cercas eletrificadas. Contrate segurança particular. Ninguém me aconselhou a procurar o poder público. Afinal, um dos direitos básicos dos cidadãos é a segurança. Se não posso andar tranquilamente pelas ruas da minha cidade, nem me sentir seguro dentro da minha própria casa... Que fazer? Vejamos o absurdo: é o bandido que determina como devo trabalhar, em que horários ou condições. Esta é uma inversão completa da lógica e do bom senso. Bom senso hoje é ficar quieto e ir embora mais cedo. Isso é inaceitável. Mudo meus hábitos para não ficar exposto à violência. Ninguém pode me oferecer uma palavra tranquilizadora sobre isso. A sensação térmica é de criminalidade crescente, uma verdadeira escalada do crime. Roubo à mão armada passou a ser coisa corriqueira. Para me defender devo em armar também? Não creio, a polícia é o braço armado da sociedade em defesa do cidadão. Quero acreditar nisso, quero confiar nessa assertiva. Cabe aos governantes proteger os cidadãos. E o fazem. Mas se as ações dos poderes públicos não se tornam visíveis os criminosos ficam cada vez mais ousados. E indiferentes à dor do outro. No belo filme de Tim Robbins, Os últimos passos de um homem, interpretado por Sean Penn e Susan Sarandon, o criminoso nega até o derradeiro instante ter cometido os assassinatos. Minutos antes de ser executado por injeção letal, ele admite sua culpa. O sofrimento que causou àquelas famílias foi imensurável, tanto pelo crime horrível com pela indiferença demonstrada. A indiferença para com o sofrimento do outro é um dos traços dessa criminalidade, que se torna psicopática. É a marca da maldade. Anteontem vi pela TV o caso de um casal, que fora assaltado no Rio. Por alguma razão, se é que tinha alguma, os bandidos empurraram o casal por uma ribanceira. Ambos se salvaram, mas que ponto atingimos! Vamos afundar mais ainda? O músico Marcelo Yuca, que ficou paraplégico durante um assalto anos atrás, foi novamente surpreendido por ladrões, quando manobrava seu carro. Eles não acreditaram que ele é deficiente físico e o espancaram e arrastaram para fora do veículo. Deixaram-no estendido no chão. E ele sem poder se mexer, metade do corpo paralisada... O que é isso companheiros? Só nos resta reclamar, ou nem mais isso?. Paulo Palladini
Escrito por Paulo Palladini às 21h42
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Todos os Cantos 287
O grande carnaval. Parte dois
Domingo de carnaval, 22 para 23 de fevereiro. Deu meia noite; cumprimento Ana, ela me cumprimenta. É nosso aniversário. Poucos casais têm esse privilégio de nascerem no mesmo dia. Nós temos. Cumprimentamo-nos há 27 anos. Em pleno carnaval. Desta vez estamos na avenida. Os três blocos da Liga Mocoquense estão passando. O público comparece. Unidos da Santa Cruz, Vira Virô e Fundão desfilam; fazem a festa. Está bonita: cores, brilhos, luzes, sons. Não é competição; os blocos apenas se apresentam. Capricho nas fantasias e coreografias. Vera, Ricardo Figueiredo estão lá. Pai e filho Miyashiro, e também Maciel e Markinhos fotografam tudo. Du Cirielli caprichou na organização. Mococa precisa fazer reviver seus carnavais. Du faz, e recebe homenagem da Santa Cruz, que também homenageia os dois outros blocos. Noite bonita, agradável. Encontro pessoas: Jeferson de Freitas, do jornal A Mococa e sua mulher Jane, Heloisa, Mariana e a filha Anita, que resistiu aos acordes e ritmos madrugada adentro, Eliana e Robertinho da TV Direta, filhos, Helinho e Alessandra, dona Daminha, que já não teria idade para enfrentar uma avenida (mas enfrenta). Abraço o prefeito Toni Naufel, o filho André, Broto Pinheiro e Tereza. Paula sai na Ala da Preguiça do Vira Virô. E muita gente vem perguntar se estamos bem, expressar solidariedade . Isso porque nas últimas semanas fomos vítimas de roubos. Duas vezes. Na primeira vez, domingo, dez horas da noite. Saio para visitar meus pais a duas quadras de distância. Cerca de dez minutos depois dois ladrões saltam o muro e abordam minha filha. Um deles portava um foião enferrujado. Dentro do aposento pedem para ela ficar quieta, pegam relógios, celular e o notebook, em que fazia anotações de trabalho naquele mesmo instante. Rapidamente pulam o muro de volta e desaparecem. Pouco depois Ana chega em casa e as duas saem para a rua. Da casa de meus pais aciono a Polícia Militar, que chega em poucos minutos. Passam a mensagem para outros carros, inspecionam o local, mas os larápios já haviam sumido na escuridão. Na delegacia o plantão registra a ocorrência. Voltamos para casa. Quinta-feira, 19, estou no consultório, despeço-me do último paciente do dia. São sete e quinze da noite. De repente ouço um grito desesperado. Entra na sala Cleusa, minha secretária, acompanhada de um homem. Ele aponta um revólver para a cabeça dela, e anuncia o assalto. Indica com a arma os lugares para nos sentarmos. Quer dinheiro e celulares. Entregamos o que temos. Observo que ele demonstra firmeza e controle da situação. Não faz questão de cobrir o rosto. Fala olhando nos olhos; deixa que eu faça o mesmo. Negociamos algumas coisas, percebi que era possível. Antes de sair arranca os fios dos telefones e alerta-nos de que precisa tempo para fugir, se não teria que fazer reféns. Asseguramo-lhe, que aguardaríamos quietos. Deixa-nos amarrados com fita adesiva e fios, mas acede num ponto: porta da sala aberta. Pega a chave do meu carro, que estava estacionado em frente, mas ao fim abandona-a na mesa de entrada. Desfazemo-nos das amarrações, ligamos para a Polícia Militar, que atende de pronto, e preenche outro formulário de ocorrência. Mais uma vez estou eu na Delegacia, relatando o novo episódio. Nos dois casos os ladrões portavam armas, e invadiram dois dos lugares mais sagrados para um cidadão: sua casa (domicílio inviolável) e seu trabalho. Lamentável. Porém, quantos casos como esses não são registrados todos os dias? E se nas ruas reina a insegurança, onde é que eu, cidadão mocoquense, posso me sentir seguro? Se alguém tiver a resposta, que responda. Paulo Palladini
Escrito por Paulo Palladini às 17h54
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Todos os Cantos 286
O carnaval é sempre um reflexo e uma resposta às crises. E também é mais que isso. Desta vez não é diferente. Como fenômeno de criação coletiva e popular, o carnaval é sensível às temperaturas do mundo. Seus temas dialogam com os acontecimentos. Suas cores, seus ritmos respondem às angústias contemporâneas. Nele a alegria é a prova dos nove, mas esta alegria é muitas vezes filtrada por máscaras negras. Quanto riso! Quanta alegria! Mil palhaços espalhados por todos os cantos ... na cadência bonita do samba. E das marchinhas, dos frevos, dos forrós, do maracatu. O carnaval encerra uma duplicidade de sentimentos: a alegria que não cabe em si e a tristeza ensimesmada. Como a alegria e a tristeza são sentimentos universais todos deles compartilham e desfrutam. Mesmo aqueles que não gostam de carnaval, os que não trocam passos numa avenida nem fazem balançar o chão da praça. E até aqueles que tão somente malentoam uma débil mamãe eu quero na clarineta. Esses, ao meu ver, são tão carnavalescos como os frenéticos-dos-salões e os corpos-suados dos blocos e os ritmistas mais entusiasmados. A dança é um fenômeno da mente, tanto quanto é do corpo. Portanto, não menosprezemos aqueles que aparentemente estão parados. Há ritmo e alegria dentro neles. Só falta agitar os braços e abrir o peito. Agora, se o carnaval tem um lugar esse lugar é a rua; as praças e avenidas. Todas as praças Castro Alves são do povo. Quando compreendermos isso em todos os seus sentidos, afastaremos o horror e a violência que associamos a esses lugares. Como se fossem territórios do inimigo. Aumentamos muros, trancamos portas e janelas, instalamos alarmes e cercas eletrificadas. Transformamos nossas casas em jaulas douradas para melhor cultivar o medo. Ponho vendas em meus próprios olhos; não quero ver o que se passa na rua. No máximo observar de longe, através da tele-visão como um espia, confortavelmente instalado em minha poltrona. Já há muito deixamos de ver o outro como um irmão. Se o inferno são os outros, o diabo é um outro. Um não-irmão. É por isso que o diabo está mais forte do que nunca. E mais perto. Isso não tem nada a ver com o carnaval. Carnaval é simplesmente o reinado da folia. E todos precisamos de folia. Fruição: para além das responsabilidades que a nossa vida social encerra ao peito varonil. Pelo que também sei o diabo não tem nenhum humor. Nenhum espírito zombeteiro. O bicho é, mas muito é mal humorado. Não tem nada a ver com carnaval. Sua sisudez cinzenta não combina com o riso, contentamento, os gestos largos, a paixão. Mas no carnaval ele deixa mostrar o rabo, como a crise mostra a crise. Máscaras de Osama e Obama dividem espaço nas bancas com outras personalidades mais ou menos notórias. Assim misturadas ela mostram mais do que fazem parecer. Assim misturadas elas são as duas faces da mesma moeda. Junto com Emilinha Borba, Jamelão, Getúlio Vargas e Napoleão ferido, entre outros, eles vão descer a avenida do povo unido jamais vendido, e entrar na folia ao som de todos os pandeiros. Saudemos, portanto, a empreitada, como se bandeiras fossem, e os personagens, intrépidos bandeirantes de casaca, remando a favor num Rio Tietê de águas mais que cristalinas. Do alto da minha poltrona eu vos saúdo: blocos, cordões, escolas de samba, passistas, carnavalescos, reis momos, tambores, cuicas, tamborins, trombones e fantasias, que fazem dessa alegria incontida, o grande carnaval. Paulo Palladini
Escrito por Paulo Palladini às 00h47
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