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Todos os Cantos
 


Ah! As internações psiquiátricas

 

A lei 10.216 “dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental”. Foi promulgada em 2001 em substituição ao decreto governamental de 1934. A nova lei ordena juridicamente as questões atuais do campo da saúde mental, entre elas as internações psiquiátricas. Redirecionar o modelo assistencial em saúde mental significa rever profundamente o papel das internações. O movimento pela reforma psiquiátrica centralizou suas críticas exatamente no problema dos hospitais psiquiátricos brasileiros tradicionais. Ou manicomiais. Primeiro: a assistência publica em saúde mental era localizada nos hospitais psiquiátricos; havia poucas ações diagnósticas e terapêuticas fora deles.  Segundo: nossos hospitais psiquiátricos eram instituições totais; isto é, instituições fechadas, que criavam no seu interior um mundo à parte, um espaço de exclusão com regras próprias e, muitas vezes, subumanas. Terceiro: só tinham porta de entrada. Esses grandes asilos eram praticamente inexpugnáveis. Mas para os pacientes e suas famílias eles eram a única possibilidade de assistência. A reforma veio para mudar esta relação: menos ações hospitalares, mais ações comunitárias. O projeto original do então deputado Paulo Delgado, de 1989, determinava a extinção gradual desses asilos, defendendo uma sociedade sem manicômios. Este é o objetivo do Movimento da Luta Antimanicomial desde 1987. Porem, a lei da reforma aprovada pelo Congresso Nacional depois de longa tramitação preservou os hospitais psiquiátricos dentre os cuidados à saúde mental. Reservou-lhes o papel de último recurso depois de esgotados os recursos comunitários. Primeiro as abordagens simples, depois as complexas. Primeiro os serviços comunitários, abertos, depois os hospitalares, fechados. Primeiro o hospital geral, depois o especializado. Porque a maioria dos pacientes responde bem a abordagens simples, comunitárias e abertas. Ocorre que o senso comum enxerga na internação hospitalar a melhor solução. Muitas pessoas ainda acham que tratamento em saúde mental é sinônimo de internação. Elas desconhecem a realidade: que as internações não resolvem os problemas e podem agrava-los. Os artigos sexto, sétimo, oitavo e nono da lei 10.216 tratam da regulamentação da internação psiquiátrica.  O artigo sexto afirma que uma internação só pode ser feita mediante clara definição dos motivos. Neste artigo são descritos três tipos de internação psiquiátrica: voluntária, involuntária e compulsória. A primeira é aquela feita com o consentimento do indivíduo; a segunda é feita sem o consentimento e a pedido de terceiro. Finalmente a internação compulsória, que é determinada pela Justiça. O paciente internado voluntariamente pode solicitar sua alta hospitalar a qualquer momento; basta assinar uma requisição.  Já a internação involuntária termina através da alta dada pelo especialista ou por solicitação do responsável legal. O término de uma internação compulsória depende de determinação judicial. Esse ultimo tipo de internação ocorre quando o indivíduo, portador de um transtorno mental, infringe algum dispositivo legal. Ou quando seu comportamento é altamente perigoso para si ou para outrem. Não deve responder a demandas de famílias, mesmo que  desesperadas. Deve ser a última das últimas. Em todos os tipos de internação, entretanto, o parecer técnico do psiquiatra ou da equipe de saúde mental é necessário.  Portanto, quando a internação psiquiátrica aparece como a grande solução para o grave problema dos dependentes químicos, acautelemo-nos. Já vivemos essa experiência. E não foi nada boa para ninguém. E lei, ora, existe  a lei.



Escrito por Paulo Palladini às 22h32
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O ano décimo 


O dia 21 de janeiro tem um significado especial para mim. Foi nesse dia em 2002, que fechava a Clínica de Repouso Mococa e iniciávamos a construção do Projeto de Saúde Mental Santa Luzia. Melhor dizendo: Projeto de Saúde Mental das Obras Sociais da Paróquia Santa Luzia em Convênio com a Prefeitura Municipal de Mococa. O marco inaugural foi esse: portão da Clínica fechado, duas residências terapêuticas abertas. Mais simplesmente: Projeto Santa  Luzia. Os primeiros moradores – a maioria continua no Projeto – foram pacientes da Clinica por muitos anos e, convidados a integrar o primeiro grupo que formamos. Tiveram coragem, pois sua vida fora marcada por transferências entre hospitais, como se mercadoria fossem: tiravam de cá, mandavam pra lá. Por isso seria natural que uma proposta dessas - ir para uma RT - sem que fizessem ideia do que seria aquilo, despertasse desconfianças e recusas. Não foi o que aconteceu. Enquanto a equipe da Secretaria da Saúde cuidava de transferir os internados para hospitais da região, esse grupo aceitou o desafio de montarmos juntos uma RT. Portanto nosso Projeto nasceu ali no Jardim Chico Piscina, onde a primeira residência está instalada até hoje. Os primeiros moradores ainda lá estão: Ditinho, Cláudio, Toinzé, Tadeu. Outros partiram e deixaram saudade.  E foram esses primeiros moradores que abriram espaço para as outras residências (hoje são seis). E para os demais serviços que o Projeto construiu ao longo desse tempo. Neste ano de 2012 concluiremos a expansão da área de saúde mental do município com a implantação de mais um Caps (Centro de Atenção Psicossocial), este para crianças e adolescentes. Já aprovado em todas as instâncias depende só de autorização do Ministério da Saúde para começar a funcionar. Ele assistirá pacientes de 8 municípios da região. A mesma abrangência que tem hoje o Caps ad ( para usuários e dependentes de drogas, incluindo álcool e tabaco). Este, aliás, em breve vai funcionar 24 horas por dia ininterruptamente e terá 8 leitos para acolhimento integral. Portanto, estaremos muito perto da meta que propus há anos: tornar Mococa auto-suficiente em saúde mental. Seis residências terapêuticas, um Caps II para transtornos mentais, um Caps ad III para dependentes químicos, um Caps i para crianças e adolescentes, e uma oficina terapêutica para geração renda. Esta acolherá usuários de todos os serviços, que estejam estáveis e tenham habilidades suficientes para trabalhar e produzir dentro de um espírito cooperativo. Será uma alternativa ao trabalho formal, que muitos pacientes não conseguem mais alcançar. Com tudo isso, e tendo o Projeto chegado onde chegou, nossa palavra para o ano é QUALIDADE. Queremos que as pessoas sejam atendidas com o carinho que elas merecem e com a competência técnica que é nosso dever. A Direção Regional de Saúde de São João da Boa Vista, nas pessoas do seu diretor Benedito Westin e Maristela Ubeda, tem acolhido nossas idéias durante esses anos todos. O prefeito Toni Naufel e sua diretora de saúde Eliana Mazzucato têm sido forte apoio pessoal e institucional. Câmara Municipal e Conselho Municipal de Saúde tem demonstrado sensibilidade para as questões da saúde mental. Não posso deixar de registrar a bonita parceria com as Obras Sociais presididas pelo Padre Celso Abreu de Jesuz, estimulada por Cido Espanha, quando prefeito. E registro, por fim a dedicação de nossas equipes, e seu engajamento em algo que é muito maior que todos nós juntos. 



Escrito por Paulo Palladini às 20h33
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Chove chuva


Chuva. Chove chuva. Chove sem parar. Preces não adiantarão. Nem seria. Até porque chuva é algo bom. O compositor Jorge Mautner ama a chuva. Várias de suas composições tem por tema esse amor pela chuva. Eu também gosto, principalmente daquelas chuvas mansas, que encharcam a terra e despertam seus perfumes, acordando as sementes. Porém, como todo fenômeno natural, ela pode fazer estragos. E faz. Nessa virada de ano muita gente ficou desabrigada. É rio transbordando, é encosta deslizando. Sofrem as populações das baixadas e dos morros. Umas porque suas casas inundam, muitas até a altura dos telhados. Perdem tudo que é móvel. Quando não  a própria casa, que não resiste  a tantas águas. Os que tem suas casas nas encostas de morros podem vê-las partidas ao meio ou arrastadas morro abaixo. Aconteceu no Rio de Janeiro e em Minas Gerais também. Os desabrigados contam-se aos milhares. E uma vez mais o poder público (nome genérico) não reagiu à altura dos acontecimentos: prevenindo, cuidando. Embora alertadas por episódios recentes que deixaram marcas profundas, as autoridades só se moveram, quando a tragédias já se consumavam. Tanto as  autoridades  como as vítimas das tragédias anunciadas são  responsáveis pelas consequências. Pelas causas não. A natureza é indiferente à nossa presença no planeta, nossos desejos e nossas necessidades. Uma onda gigante varre tudo à sua frente: hotéis, barcos, automóveis, mulheres grávidas, crianças, idosos.  Uma enchente arrasta tudo o que estiver à sua frente. Se as águas sobem elas invadem tudo, destroem nossos bens mais preciosos. A natureza não é dotada de uma moral. Para ela não existe o certo e o errado. Os fenômenos que desencadeia têm uma dinâmica própria, independentemente das vontades humanas. Certo é que nós interferimos demais. Toda a nossa ciência procura dominar e dirigir os fenômenos físicos, químicos e biológicos para fins humanos. A terra inteira deve se submeter aos caprichos do homem.  Nosso estilo de vida depende da exploração de recursos naturais. Nossa civilização é uma construção coletiva e histórica cujo corolário é a desnaturalização do homem. Tudo o que consideramos humano é resultante desse processo de desnaturalização: máquinas, aparelhos, tecnologias, enfim, que estabelecem uma clivagem entre humanidade e natureza. Uma contraposta a outra; uma competindo com a outra. Pensadores como Piotr Kropotkin já nos alertaram para uma característica: mesmo a natureza não é só competitiva, ela é também cooperativa. As várias formas de vida não só competem entre si como cooperam. Dotados dessa consciência podemos escolher entre atitudes competitivas e cooperativas. Nas filas dos supermercados, no trânsito, nos locais de trabalho, entre empresas, grupos populacionais. Creio que mais cooperação e menos competição é melhor para a humanidade. E chuva, chuva não é coisa má, que precisa ser detida com preces. Ela é boa e necessária. Não é, talvez, para quem constrói suas casas nas encostas. Está escrito na Bíblia para construirmos nossas casas em terreno firme. Tal recomendação vale também para nossas famílias. É firme a base sobre a qual constituímos nossas famílias? Estimulamos tanto a competição como a cooperação? Nossos filhos caminham a favor e contra o vento...



Escrito por Paulo Palladini às 20h32
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Feliz Natal leitores. Até 2012

 

Comecei o ano falando dos terremotos políticos que aconteciam no norte da África. E do meu receio de que derrubados os regimes despóticos outros mais cruéis ainda os substituíssem. Minha esperança era: as ditaduras caídas dariam lugar para regimes respeitadores dos direitos dos cidadãos. Estamos vendo que pode não ser assim. Democracia naquela região é um sonho ainda distante. Entrando em março eu falava de carnaval, da festa da alegria, e indagava: “Que tal um mundo onde as máscaras, acabada a festa, possam ser retiradas porque não estão pregadas na cara? Que tal uma festa em que a consequência maior seja a religação da alegria e não a gravidez indesejada, a contaminação pelo HIV, a overdose, o acidente fatal? Ainda em março, no dia 17, aconteceu o lançamento do meu livro – Patogênese, uma introdução ao pensamento de Anibal Silveira – na Sociedade Rorschach em São Paulo. Senti-me realizado como em poucos outros momentos em minha vida. Lá compareceram amigos de várias gerações, desde contemporâneos do Professor, como integrantes das equipes que trabalham comigo em Mococa. Também revi antigos colegas, alguns eu não via desde os anos de formação psiquiátrica. Trinta anos atrás. Ainda no mês de março escrevi A onda gigante, um texto tropicalista, de um jeito que gosto de escrever. Em maio lembrei a luta anti-manicomial (comemorada no dia 18), que ajudou a aprovar a lei 10.216, a lei da reforma psiquiátrica brasileira. Em dez anos de vigência os avanços foram muitos: milhares de leitos hospitalares psiquiátricos fechados e substituídos por serviços alternativos como os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e as Residências Terapêuticas (RT). Em Mococa, com apoio do poder público municipal e das Obras Sociais da Paróquia Santa Luzia, brevemente  teremos todos os serviços previstos pela reforma: Caps II para pessoas com transtornos mentais, Caps para crianças e adolescentes com transtornos mentais, Caps III para dependentes químicos, que funcionará 24 horas por dia, ininterruptamente, seis residências terapêuticas para ex-moradores de hospitais psiquiátricos, uma oficina de geração de renda para os usuários desses serviços. Poucos municípios do porte de Mococa contam com tudo isso.  Depois falei dos ex-presidentes Fernando Henrique e Lula; ambos fizeram o Brasil avançar. E  fui assistir no Coreto-encanto à apresentação do Berço do Samba de São Mateus. Em agosto noticiei a volta do pintor Fogaça para Mococa, depois de décadas tocando a carreira em outras plagas. Em setembro falei de crack a partir do caso concreto de uma jovem mocoquense. O governo federal, preocupado com o grave problema das drogas, anunciou grande investimento financeiro, político, policial e técnico no próximo ano. Os defensores da liberação da maconha talvez desconheçam que os traficantes iniciam crianças nas drogas oferecendo-lhes maconha misturada com crack. Elas não sabem disso. Depois de estabelecida a dependência, aí só crack. Como veem, a questão é complicada demais. Com tudo ainda tive tempo de prestigiar o lançamento de mais livros: o Carretel de Orfeu, de Getulio Cardozo da Silva em setembro, Marco Misterioso/ Chão e Sonho, de Assis Lima, em novembro, e  O Catador de Palavras, de Antônio Ventura em dezembro. Comemorei com Ana o nascimento dos três filhotes da nossa gata Petit. Aos leitores, que me acompanharam ao longo do ano, desejo um Feliz Natal. Até 2012. 



Escrito por Paulo Palladini às 23h08
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Ventura

 

Fui ao Clube da Praça em Mococa na noite de terça-feira. Antônio Ventura lançava, ali, seu volume O catador de palavras. Já o havia feito em dois outros locais: Rio de Janeiro, onde morou e Ribeirão Preto, onde nasceu. Ele é poeta desde a adolescência. Tendo nascido em 1948, tinha 20 anos quando estava em trânsito o mítico 1968. É, portanto, filho dos anos sessenta, impressão reforçada pela descoberta de que, tendo já ganho alguns prêmios literários, em 1972 vai para o Rio de Janeiro e começa a vender seus poemas, em folhas mimeografadas, no Teatro Ipanema. Puro espírito da época: o poeta desfolha a bandeira e a manhã tropical se inicia. Concebe e escreve seus poemas, imprime-os em mimeógrafo a álcool, vai para as ruas divulgar e vender. Circula pelos lugares, aborda as pessoas, oferecendo seu produto: autêntico do começo ao fim. Domina, com isso, todo o processo produtivo. Tenho textos que comprei assim, direto do autor, nas ruas de São Paulo.  Certa vez encontrei Plínio Marcos circulando entre mesas na calçada. Trazia uma bolsa repleta de peças teatrais. Imagino Antônio Ventura nesse ambiente, o cabelo comprido, batendo nos ombros. Sem sabermos será que nossos caminhos não se interpenetravam? Teríamos cruzado nossas rotas numa estreita Rua Direita no centro de São Paulo? Em 1972 eu estava lá; tinha 18 anos e todos os sonhos do mundo. Mas as botas dos soldados, seus capacetes e caminhões  verde-oliva também estavam lá, para mostrar que a instalação na grande cidade não seria só um passeio. Um Teatro Aquarius lotado cercado pela polícia: tome corredor-polonês. Corta. Consta de suas notas biográficas que Antônio Ventura foi comentarista de cinema e teatro da revista Bondinho. E também colaborador da Rolling Stone. E publicou coisas na revista Cultura Vozes. O catador de palavras é o livro que lança.  É o resumo de uma vida. Ultrapassa a própria vida? Em A obra é imensa e o mar é breve, dedicado a Elias José, o poeta  responde: A obra é imensa e o mar é breve/ Assim vamos catando palavras, madrugadas de galos cantando nos quintais das roças, onde sempre perto de algumas pedras correm bicas de águas limpinhas.  As seções vão se desdobrando, cada uma com sua bagagem poética: Viagem, Reivindicação da eternidade, O catador de palavras, A máquina do tempo, Pastor de nuvens, Poemas para a amada, À beira da poesia. A aventura começa em 1962 e para em 2010. E traz um apêndice com textos sobre o autor, assinados por outros como Mário Moreira Chaves, Cecília Tozatto, Álvaro Alves de Faria, Menalton Braff, Antônio Carlos Secchin. Fotografias e desenhos. Capa vermelha de Miriam Lerner. Os poetas criam mundos. O mundo de Ventura, por onde ele circula, é formado de palavras e autores de palavras. De frases inteiras e metades. Sua poesia é toda feita de meias luas inteiras. Ele próprio acha que é só um catador de palavras (“não consigo encontrar o poema que está guardado no ventre desta tarde um pouco fria de setembro”). Mas não é. Ele cata, é verdade, junta, desloca, condensa, amalgama. Vai ao grande dicionário onde todas as palavras estão inscritas. Porém a catança para aí. Ao juntar é já outra coisa, ao deslocar coloca, ao condensar expressa, amalgama o chão e amalgama o sonho. “Sem nenhum mistério a tarde entardece”. Simples. Vazio e cheio de pensamentos lá vai Antônio Ventura catar palavras no vento. Mastiga devagar, engole, faz brotar da pele a mata mais verde, o mar mais profundo, o círculo dourado e o animal iluminado.  Salve!



Escrito por Paulo Palladini às 23h00
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A gata Petit e seus filhotes

 

Na madrugada da quarta-feira Petit, uma de nossas gatas, deu à luz três gatinhos. Já tínhamos quatro em casa: Cabral, o macho, Tamá, Branca e Petit. Cabral é o guardião, passa as noites em vigília no alto dos muros. Vez ou outra aparece machucado. Pode ter sido briga ou namoro. Se alguém passa pela rua pode vê-lo no alto de um pilar, o luar fazendo fundo. Seu nome é Cabral porque ele veio para casa no dia 22 de abril. Então, Cabral. Aquele que inventou o Brasil. Tamá nasceu em casa. Costumo fazer os partos dos animais que nascem em nosso território. Eu mesmo tirei-a do saco amniótico, cortei o cordão umbilical. Talvez por isso ela tenha uma ligação muito forte comigo, costuma dormir sobre minhas coisas: roupas, pasta, computador. E gato, como sabemos, dorme a maior parte do tempo. A mãe de Tamá, Clara, gerou quatro filhotes, que fomos doando para os amigos. Todos pretos. Quando restava  um Clara desapareceu para sempre. Gatos, misteriosos gatos.  Tamá é uma corruptela de Tamanduá. Quando pequena seu rabo enorme vivia levantado como a bandeira de um tamanduá. Branca foi trazida por Ana de Muzambinho. Uma senhora amiga ofertou-a e Ana aceitou. Posso descrevê-la como uma gata danada. Muito agitada, agressiva, impõe-se sobre as outras pela intimidação. Branca não respeita o espaço dos outros, nem a comida. Avança sobre o prato das companheiras, mesmo que o seu esteja cheio. Dá patadas. E sua diversão preferida é afiar as unhas nos sofás da casa. Nenhum escapa. E também mostra as unhas com muita facilidade. Morde. Não gosta de ser acarinhada. Depois que engravidou melhorou  bastante seu comportamento.  Devo acrescentar que revelou-se uma ótima mãe, cuidou muito bem da prole e protegeu-a das investidas dos cães da casa. Uma mãe zelosa, que não se afastava minuto da cria. Um dos cinco filhotes nasceu morto. Enterrei-o ao pé de uma árvore, no bosque defronte nossa casa. Não precisaria dizer que Branca é branca, totalmente branca. Seus filhos foram adotados por amigos e pessoas que gostam de gatos. Nina, uma das filhas, mora em São Paulo com Gustavo e Patrícia; de vez em quando vem passar uns dias conosco. Petit é a mais nova dentre os animais da casa. Ana fora visitar um gatil. A gata estava lá numa gaiola à espera de um possível dono. Tinha oito meses! Acompanhou Ana com o olhar, fez alguns movimentos e sons. Pronto, identificadas, Petit veio para casa naquele mesmo dia. Como ficou muito tempo na gaiola, costuma andar meio de lado, em semicírculos. Sequela do confinamento. Costuma olhar para cima, procurando objetos e seres voadores. Investe contra alguns. Mas Petit é meiga e nunca, nunca mostrou as unhas para ninguém. Quando contrariada ela se contorce toda, mas não expõe as unhas. Também não arranha portas de armários nem poltronas. É marrom, tem a cara achatada e fica a maior parte do tempo com a ponta da língua de fora.  Nos dois últimos dias ela estava inquieta, andava de cá para lá, desassossegada. Passou a emitir um miado estranho, uma espécie de guincho. Ao andar balançava o tronco, barrigão proeminente. E sem que ninguém presenciasse, sozinha, pariu seus três filhotes, acomodando-os na caminha que Ana havia preparado. No silêncio, sem importunar ninguém. Quando acordamos de manhã vimo-la deitada de lado, os três mamando. Cordões umbilicais ainda grudados nas placentas. Com cuidado cortei-os.  Petit não arredou mais pé dali. Seu instinto materno tem se mostrado forte. Agora sua missão é ser mãe. E mãe não abandona seus bebês. Quando cheguei, no começo da noite, ela ainda estava lá. Miou alguma coisa, olhou para os pequenos, olhou para mim. Entendi que mostrava, com orgulho, seus rebentos. Lambeu-os com energia. Petit, mãe, não abandona os seus filhotes. Que beleza!



Escrito por Paulo Palladini às 19h32
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Motivação

Certa vez fui convidado a falar sobre motivação para uma platéia de funcionários da Santa Casa de Mococa. Os próprios funcionários me convidaram, fato que vem de encontro com o que eu próprio penso do assunto: motivação, para mim é auto-motivação. Como hipnose é auto-hipnose. O conceito de motivação que utilizo é o do meu mestre Anibal Silveira. Para ele motivação é um dinamismo psíquico caracterizado pelo estímulo afetivo para agir. Do mesmo modo interesse é caracterizado pelo estímulo afetivo para perceber, pensar e comunicar. Motivação e interesse nascem da esfera afetiva da personalidade. Ambas podem surgir do setor egoístico da afetividade, bem como do setor altruístico. O primeiro encerra funções psíquicas básicas voltadas à individualidade: conservação do indivíduo, instinto sexual, tendências destrutivas e construtivas, necessidade de domínio e  de aprovação.  O segundo estimula as relações sociais, as ligações afetivas voltadas para o outro nas várias formas de amor. Portanto, há motivações e interesses individuais e sociais, de caráter egoístico e altruístico. Uma motivação pode ser construtiva ou destrutiva, pode levar alguém a dominar o outro ou  buscar sua aprovação. Depende do setor da afetividade em que tem origem: individualidade ou sociabilidade. Uma relação competitiva está ligada à indivualidade: “eu contra os outros”. Uma relação cooperativa está ligada à sociabilidade: “eu com os outros”.  Na natureza há tanto competição como cooperação.  A evolução  depende de ambos os processos.  No ambiente humano, isto é, no ambiente das relações interpessoais, o mesmo se dá. Quando muitas pessoas disputam um mesmo cargo há competição, defesa da individualidade. “Preciso ser melhor que todos”. O mais esperto, o mais apto predomina. Quando um acontecimento sensibiliza um grupo seus membros interagem e cooperam.  Todos põem o melhor de si na tarefa comum. Operam juntos. A motivação que me interessa mais é a cooperativa. Nela todos participam e todos são importantes. A cooperação estimula o que cada um tem de melhor, estimula a harmonia de cada um com todos os outros. Numa relação harmônica todos vibram juntos e, ao mesmo tempo, preservam seus caracteres individuais.  Não são todos iguais. Cada um vem com sua capacidade.  Mas vibram juntos, cada um no seu timbre, cada um do seu jeito. O cérebro humano funciona assim: as diferentes regiões cerebrais são responsáveis por funções diversas. Tais regiões são interligadas em sistemas, e cooperam entre si. Uma é o martelo, outra é a bigorna. O conjunto, no entanto,  é harmônico. Um sistema é um conjunto de elementos  em interação. Numa equipe hospitalar há vários sistemas que se entrecruzam. Médico e enfermeiro formam um sistema. Enfermeiro e nutricionista outro. Fisioterapeuta e paciente um outro ainda. Auxiliares de limpeza e cozinha integram a mesma rede de relações. Cada um tem suas funções diferenciadas. De modos diferentes todos concorrem para a mesma ação. Que é  motivar senão estimular, por via emocional, a sociabilidade afetiva? Que é motivar senão reconhecer verdadeiramente o valor de cada elemento no processo? Que é motivar senão estimular  a solidariedade antes que a divisão e o individualismo?   Uma solidariedade orgânica admite a diversidade concorrendo para a realização de objetivos comuns, compartilhados, coletivos. Politicamente a competição aponta para o individualismo capitalista, a cooperação para um socialismo utópico.  O que queremos?



Escrito por Paulo Palladini às 19h17
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O presente de Assis

 

Entardecer chuvoso de domingo, 13 de novembro. Teatro Brincante, ali na Rua Purpurina, Vila Madalena. Meu amigo Assis iria fazer o lançamento simultâneo de dois livros seus: Chão e Sonho e Marco Misterioso, ambos pela Dobra Editorial. Somos amigos há 32 anos, desde os tempos de nossa formação em psiquiatria. De lá para cá venho acompanhando todos os passos de seu trabalho cultural. Na década de 1980 associou-se ao escritor Ronaldo Correia de Brito e ao músico Antônio José Madureira, que integrara o Quinteto Armorial, para um projeto de três obras da mais profunda brasilidade: O Baile do Menino Deus,      Bandeira de São João e Arlequim. Respectivamente sobre o ciclo natalino, as festas juninas e o carnaval. Foram registradas em disco e livro. O trio ainda fez Lua Cambará, roteiro, letra e música. Cheguei a assistir a uma versão do filme em media metragem, se não me engano. E o mesmo grupo, acrescido de Antônio Carlos Nóbrega e Ericson Luna, ainda nos brindou com Pavão Misterioso. Nóbrega aparece ali como compositor e interprete. Ele, que também integrou o Quinteto Armorial, organizado por Ariano Suassuna, mais tarde montaria em São Paulo o Teatro Brincante, onde nos encontramos na tarde chuvosa. O próprio apareceu no salão para cumprimentar o amigo e parceiro Assis Lima. Porém, a surpresa maior, para todos os que receberam o convite do lançamento literário, foi o espetáculo primoroso com que nos brindaram. Um grupo grande entre músicos, cantores, bailarinos e atores ocupou o palco do Brincante e leu, cantou, dançou e dramatizou textos dos dois volumes de Assis. Foi o maior presente. Ritmo contagiante alternado com melodias suaves. Corpos em movimento; corpos estáticos. Extáticos. Intensidade dramática na Via Sacra pela morte do filho.  Assis parado no centro do palco guturando, ao final, “uma incelença à estrela madona, alecrim verdadeiro, rosa manjerona. Ô anjo por quem estás esperando? É por esta incelença que está se rezando. Abre-te porta divina, dos campos para o jardim”. Acompanhado de Ana, nossos filhos Paula e Gustavo e da nora Patrícia, assisti a tudo embevecido. Abracei fortemente o amigo, orgulhoso de nossa natureza brasileira. Agradeci sua oferenda, dei passos entre o chão e o sonho.  Tomei um suco com gosto de berimbau, aroma de violoncelo. No caminho de volta para casa, lembrei: em 1984, tendo concluído seu mestrado em psicologia social pela USP - O conto popular no cariri cearense: memória, valores, visão do mundo – Assis publicou a dissertação em livro sob o título Conto Popular e Comunidade Narrativa (Funarte). O texto ganhou o prêmio Silvio Romero e mereceu prefácio de ninguém menos que Antônio Cândido: “Este livro é dos mais valiosos que tenho lido sobre o nosso conto popular”, sentenciou o velho professor de Brasil. Então, para quem não conhece eu apresento: Este é Francisco Assis de Souza Lima, brasileiro, cearense do Crato, médico, psiquiatra e psicanalista, mestre em psicologia social, pesquisador, escritor, poeta, letrista. Amigo.  

 



Escrito por Paulo Palladini às 21h43
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Ao vencedor os coquetéis

 

A Universidade de São Paulo – USP – figura como a instituição universitária brasileira mais bem colocada numa classificação mundial. Se bem que em 178ª lugar. Como a melhor, imagino que escolha os melhores alunos, aqueles que enfrentam o vestibular mais difícil e concorrido. Sempre considerei os estudantes da USP como a elite universitária do país. Por isso foi grande meu espanto ao ver, entre as manifestações dos estudantes que invadiram a reitoria no campus, um cartaz com a inscrição: “PM, cão  de guarda da elite”. Os estudantes protestavam, entre outras coisas, contra a presença da polícia militar. Face aos inúmeros crimes registrados ali nos últimos tempos, como roubos, furtos, assédio e até homicídio, uma das medidas tomadas pelo poder público foi requisitar a presença da PM. O governo se prontificou a montar bases e capacitar policiais para atuarem naquele ambiente. Porém, em vez de se sentirem protegidos, os estudantes se sentiram ameaçados, principalmente quando alunos foram abordados.  Como portavam maconha foram conduzidos a delegacia. Pronto, estava armada a confusão. De um lado os estudantes (pequena parte deles, é verdade) e alguns professores, de outro governo-PM-reitoria. Resultado: assembleias, invasão, protestos, negociações. Entre idas e vindas a Justiça determinou a desocupação. Tropa de choque iminência de confronto. Esvaziado o prédio, a constatação: pichações, depredações, sujeira por todo lado, lixo, destruição de equipamentos. Os estudantes disseram que não foram os responsáveis; os policiais também. Estudantes enfrentando a tropa de choque.  Para mim esta cena é de outros tempos, quando a polícia, instrumento do Estado, e portanto, da cidadania, era usada para proteger  um regime opressivo. E não os cidadãos. Era luta em defesa das liberdades democráticas, que nos tinham sido surrupiadas. A questão hoje é bem outra: vivemos num tempo de direitos reconhecidos; governados por representantes legitimamente escolhidos. Muitos deles foram estudantes que ergueram barricadas contra a ditadura. Apesar de tudo o que vivemos, aprendemos liberdade não é ilimitada. Se não fizermos dela o bom uso, perdemo-la. Fico aqui pensando no prédio da reitoria, no seu significado para a comunidade acadêmica. É símbolo do poder institucional, certo, como apontaram alguns estudantes, mas também encarna a história da universidade, sintetiza-a. Como tal deve ser respeitado. Há imagens que não podem ser tocadas, como se sagradas fossem. Há coisas que não podem ser feitas. Botar pra quebrar não é resposta para a maioria de nossas indignações. Como não é resposta a violação da integridade física de alguém. Ou do seu domicílio inviolável. Como não é a tortura. A violação deixa marcas indeléveis. Todo esforço deve ser dispendido para que não se consuma, sob pena de forte reação.  Na USP a Justiça determinou a desocupação. O local é público, não pode ser tomado por ninguém. Mas foi preciso o emprego da força policial. O caminho do diálogo, do debate inteligente, àquela altura já estava bloqueado. Restaram lixo e coquetéis molotov.



Escrito por Paulo Palladini às 21h48
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A despedida. Adeus

 

Rubem Alves, teólogo, professor, psicanalista, escritor adulto e infantil, e mineiro, cronista da Folha de São Paulo, anunciou, nesta semana, que deixará de escrever para o jornal. Aos 78 anos de idade publicou sua última crônica neste dia primeiro: Despedida. Declarou estar cansado e não suportar o peso da obrigação de ter um texto pronto toda semana. Frisou o cansaço e a obrigação também. Para quem não está familiarizado com o ato de escrever,  isto pode parecer fácil. É só sentar que a inspiração vem. Mas não é assim. Muitos textos fluem numa sentada; porém, na maioria das vezes, a construção de um texto é laboriosa. Um lampejo pode lançar a ideia, o tema. Já o texto pronto para ser publicado é fruto de intensa elaboração. Elaborar é laborar. Entram em campo todas as capacidades intelectuais do autor: a observação dos aspectos concretos e abstratos, as induções e as deduções, a análise e a síntese, a compreensão e a interpretação. E além de tudo a capacidade de comunicar o que foi elaborado. E mais um pouco ainda: grafar com relativo respeito às regras gramaticais, o que nem sempre é tarefa fácil. Nossa língua portuguesa é bela e complexa. Rubem Alves cansou. O envelhecimento é um fator a ser considerado. Ele não declarou nenhum problema de saúde. Freud também se referiu a esse cansaço da velhice. Foi além, chegando a afirmar que a gente morre porque cansa de viver. Teríamos, segundo ele, condições físicas e psíquicas  para viver muito mais tempo. Mas o cansaço... “Viver é muito cansativo”, costumava dizer uma amiga, até hoje muito viva. Rubem Alves não disse estar cansado de viver. Não quer mais a obrigação de escrever. Deixou aberta a possibilidade de continuar escrevendo - deve continuar - mas só quando tiver vontade. Ou inspiração, sei lá... Gosto muito das coisas que escreve. E é natural em nós querer preservar o que gostamos. A despedida de Rubem Alves vem nos relembrar que tudo tem um fim. Caminha para um fim. Muitas vezes na vida controlamos este momento, podemos determinar a hora de parar. É este o caso. Ele decidiu parar. Mas talvez as coisas mais importantes sejam aquelas que nos escapam, cujo poder de decisão nos escapa. E acabam. Uma canção de Renato Russo – Por enquanto - fala disso: Se lembra quando a gente/ chegou um dia a acreditar/ que tudo era pra sempre/sem saber que o pra sempre/ sempre acaba. Talvez nos reste um jeito de preparar o fim, como faz Rubem Alves. Determinar o fim. Talvez não aja e o poder de parar seja mera ilusão. Chega um momento e, simplesmente, ponto final. Então: adeus Rubem Alves! Sua despedida me faz refletir sobre meus próprios processos de construção das coisas, seu fim, e minha própria finitude. Adeus! Talvez nos encontremos em outras paragens.

                                                                                                

PS: No artigo anterior afirmei que o mundo tem 6 bilhões de habitantes. Naquela mesma semana foi divulgado que já atingiu 7 bilhões.



Escrito por Paulo Palladini às 21h24
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A felicidade...

 

Um artigo sobre o furto de uma revista de dentro da minha caixa de jornais por uma adolescente, na companhia da própria mãe, anos atrás, teve boa repercussão. Recebi, na época, vários e-mail de leitores confirmando a experiência relatada aqui, e corroborando os pontos de vista emitidos. Penso a pequena violência em relação direta com determinado padrão de consumo exigido pela sociedade. Há uma cultura do consumo, que valoriza o vestuário de marca, o corpo perfeito, o carro do ano,  casarões, viagens fantásticas, todas as engenhocas eletrônicas disponíveis. Não é preciso dizer que esses bens são inacessíveis para a maioria. Mas todos somos estimulados a consumir. Nossa individualidade é estimulada, o instinto de posse, a necessidade de aprovação. Somos pegos pela afetividade mais primitiva. Para se sentir aceita a pessoa busca a aprovação dos outros, a posse de produtos e mercadorias valorizadas socialmente. Desenvolve  uma forte relação de apego com o meio  físico e social baseada no binômio posse-aprovação. Outros sentimentos sociais como a capacidade de se ligar afetivamente a valores supra-individuais e a capacidade de aceitação amorosa profunda, que poderiam equilibrar a personalidade não são estimulados. A felicidade individual parece ser o único objetivo. Mas como já dizia o poeta, “é impossível ser feliz sozinho”. E é impossível ser feliz consumindo mercadorias. Porque felicidade é paz de espírito, nas palavras do Dalai Lama. Felicidade é harmonia mental, que só atingimos no interior da personalidade através da integração dos instintos da individualidade com os sentimentos sociais. A satisfação do lado egoístico da personalidade, principalmente a posse de bens materiais está longe de proporcionar felicidade. Em entrevista à Folha de São Paulo Gregg Easterbrook, jornalista e autor de um livro sobre o assunto, Progress paradox,  afirmou: “as pessoas cometem um erro ao acreditar que bens materiais trazem felicidade”... “o aumento da aquisição de bens materiais não é proporcional à evolução do grau de satisfação”. Ao contrário, quanto mais consomem as pessoas ficam mais insatisfeitas, porque as pressões para consumir se tornam cada vez maiores. É um processo sem fim. Diz Easterbrook que nos países, que já superaram a miséria e a fome crônicas, “o aumento dos padrões de vida não é acompanhado por um aumento de felicidade. Os sinais são claros. Em todos os países desenvolvidos a depressão toma uma dimensão de epidemia”. Por outro lado, hoje as pessoas vivem mais, têm mais recursos para a manutenção da saúde e do bem estar, dispõem, de modo geral,  de mais conforto e comodidade. Parte do problema é não saberem valorizar esses aspectos positivos, e cultivarem uma atitude negativa, que só vê o lado ruim as coisas. Em outras palavras: as pessoas olham para o que lhes falta, não para o que têm. Para Easterbrook os meios de comunicação põem muita ênfase nas notícias ruins. “Num mundo com 6 bilhões de habitantes sempre alguma coisa errada vai acontecer. Esse tipo de divulgação provoca a sensação de que tudo está errado no mundo”. Mas há meios de equilibrar os lados negativo e positivo das coisas, buscar a harmonia interna, o caminho da moderação.                                    



Escrito por Paulo Palladini às 22h02
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O quê! Pois é.

 

Leio que no Rio de Janeiro vários cinemas tradicionais, que haviam fechado as portas anos atrás - alguns há 15 anos - vão ser reabertos. É o caso de nomes como  Cine Joia, Paissandu,  Olaria,  Imperatriz. Essas salas de cinema não tem nada a ver com as de shopping centers; as aves que gorjeavam nas antigas não são as que gorjeiam nelas. Em São Paulo. Quem assistiu Satyricon de Federico Fellini num Cine Bijou lotado, sentado no chão, não tem estômago para entrar numa sala de shopping. Nunca fui. Era sim capaz de passar em frente ao Belas Artes ou ao Arouche só para ver a programação. Cinema era acontecimento. Entre as mesinhas na calçada circulava um dramaturgo Plínio Marcos vendendo libretos de suas peças, proibidas pela ditadura. Mas esta já é outra história. Em minha cidade de mais ou menos 65 mil habitantes, tivemos duas salas de cinema simultâneas: o Cine-Theatro Central, hoje só teatro, e o Cine Mococa, na corda bamba sem rede. Sobrevivendo. Semana passada, recebemos a notícia da morte de seu projecionista Zezé Lippi. O escritor Getúlio Cardozo referiu-se a ele como aquele que “fez a máquina da ilusão continuar funcionando num tempo sem ilusão”, e que em sua faixa de despedida deveríamos ler: “Zezé Lippi, homem simples, do povo”. O maestro Coelho de Moraes - Marco Antônio - maestro e muito mais, mandou e-mail: Ele (Zé) “fez seu trabalho e foi dormir no plano das ideias dos outros que o amaram. Quando um polo de cinema surgir em Mococa que se faça um filme sobre o Zé Lippi. Será um filme do bem, da alegria de viver, do amor ao trabalho, da manutenção da arte sétima e maior; isso nos sugere que o Zé Lippi dormita agora no sétimo céu medieval. Com ou sem Galileu para perturbar a desordem do Universo”. The end. Leio na Folha de São Paulo entrevista de Ziraldo, autor de O menino Maluquinho, entre outros, em que ele fala de suas ideias sobre educação. “O Brasil não tem 10% de analfabetos, tem 90%. É só ver quanto de jornal vende por dia, muito pouco. Quem não lê jornal é analfabeto funcional”. Sobre os analfabetos pais dos analfabetos disse: “Os pais têm que encher a casa de livros. E ficarem atentos para não deixar a criança chegar à internet sem passar pelo livro”. Difícil. Para ele lição de casa passada pela escola seria escrever um diário. A escola deve estimular o aluno a refletir sobre si mesmo, pensar. Revelou que este é um projeto seu que será encampado por escolas de Minas Gerais e Rio de Janeiro. Concordo com uma escola que estimule o pensamento e não a assimilação passiva de conteúdos discutíveis, se não completamente inúteis. Quando estava no segundo ano da faculdade de medicina, José Renan da Cunha Melo, meu professor de fisiologia disse: “Não sei se vocês sairão daqui sabendo fisiologia, mas saberão o que, onde e como procurar”. Em áreas cujo conhecimento evolui muito rápido, não faz sentido decorar conteúdos que estarão obsoletos em pouco tempo. Pensar criticamente é muito mais importante. Repetir como um papagaio o que aprendeu nunca foi, no passado, nem é relevante no mundo atual. Preciso é ser criativo. Ainda acho que o elemento mais importante no sistema de educação formal é o professor. A lembrança dos bons professores que tive só reforça esta opinião. Sem bons professores não temos uma boa relação ensino-aprendizado. Antes que melhorar o aprendizado é preciso melhorar o ensino. Formar o formador. Quem há de? A universidade brasileira melhor colocada numa escala mundial recentemente divulgada foi a USP: 178˚ lugar. E teve gente que comemorou. Pois é.



Escrito por Paulo Palladini às 21h24
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Música e seleção brasileira de futebol

 

Do Rock in Rio só consegui assistir, até agora, Milton Nascimento e Esperanza Spalding. Nada de rock, portanto. O som estava ruim. Não sei se estava também em outros palcos com atrações estrangeiras. Isso aconteceu muito em festivais por aqui. Quando os músicos brasileiros iam tocar o som piorava. Perdurou até que grupos brasileiros se recusaram a participar não fosse em igualdade de condições técnicas. O que é isso companheiros? Esperanza Spalding, para quem não sabe, é uma das revelações recentes no mundo do jazz. Tem apenas 26 anos de idade. Toca baixo: acústico e elétrico. É professora no prestigiado Berklee College of Music. Já ganhou um prêmio Grammy. Ela é animada, risonha e franca. Pequena na estatura, porta enorme cabeleira afro. No Brasil mostrou toda a sua admiração pelo cantor e compositor Milton Nascimento. Cantou em português, sozinha, Ponta de Areia, que já havia gravado anteriormente em disco próprio. Em entrevista declarou seu amor pelos discos de Milton; que sabe as músicas do Clube da Esquina de cor. No Rock in Rio fez duetos com ele, num repertório só de músicas brasileiras daquele Clube. Momentos emocionantes. O público acompanhou e respondeu. Cantou em coro o refrão de Maria Maria, gritava em altíssimo o nome de Milton. A dupla tocou e cantou Caxangá, Cravo e Canela, Idolatrada. Muitas outras. Li que os dois planejam excursão pelo Brasil afora no ano que vem. Tomara que aconteça. Deve ter tido rock também no Rock in Rio. Vibração igual teve na partida de futebol entre Brasil e Argentina na quinta-feira. Há quanto tempo não víamos a seleção brasileira jogar com aquele espírito. Deu gosto assistir. Nada daqueles modorrentos, enervantes recuos de bola. Foi jogo movimentado e altamente disputado. Cada palmo do gramado. A torcida de Belém incentivou e ambos os times estavam muito bem dispostos. Times jovens. Com tudo isso só faltava o Brasil vencer. E venceu com gols de Lucas e Neymar. Este aplicou dribles desconcertantes e deu uma de Mané Garrincha, imitando seus dribles com a bola parada no chão. Houve até um clima de olé em cima dos argentinos. A festa brasileira foi completa. Não poderia ter sido melhor para uma seleção descreditada, que até então só colecionara fracassos. E também diminui a pressão sobre o técnico Mano Menezes, que até agora não convencera ninguém. Mesmo Felipão, cujo Palmeiras não vai lá muito bem das pernas, portou-se como candidato a técnico da seleção. Apostou no insucesso do colega.  Calma Felipão!  Os argentinos assimilaram bem a derrota, o que ficou evidenciado pelo clima de cordialidade depois de encerrada a partida. Os jogadores se abraçaram e foram gentis uns com os outros Como deve ser. Dentro de campo a história foi mais dura, com jogadas firmes, faltas, cartão amarelo, tapas e sangue pelo nariz. Mas é Brasil e Argentina, eternos rivais. Cada partida é sempre final de campeonato. Desta vez levamos a melhor. Digno de nota a atitude da seleção brasileira, que não se acomodou com o placar inicial e continuou em busca do segundo gol. Futebol viril. É isso o que queremos ver. Salve a seleção!



Escrito por Paulo Palladini às 21h32
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Óleo sobre tela de Ana Palladini

                                                                                             Foto Paulo Palladini



Escrito por Paulo Palladini às 19h32
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O crack

 

Ela tem 19 anos de idade. Desde os 16 está envolvida com crack. Sem pai nem mãe, vive pelas ruas. Para sobreviver faz programas sexuais em troca de dinheiro ou droga. Passa temporadas na cracolândia. Da última vez em que lá esteve voltou grávida; não sabe quem é o pai da criança. Pode ser qualquer um daqueles com quem manteve relações sexuais na rua. Os avós, já idosos, que sempre a acolheram nos momentos de dificuldade, agora disseram não. Não suportam mais ver a degradação acentuada da neta: sua decadência física e moral.  Está muito magra, quase desnutrida, seu cabelo é fino, a pele ressecada, os músculos estão perdendo massa. O crack, entre outras coisas destrói as células cerebrais e os músculos do corpo. Por isso os usuários desta substância ficam com aquela aparência esquelética; parecem esqueletos ambulantes. Crack. Nessa altura a vida social do dependente resume-se a usar a droga, enfrentar a abstinência, voltar a usar. O crack tem efeito muito rápido: em segundos atinge o cérebro e sua ação farmacológica não passa de alguns minutos. Como é droga potente com efeitos euforizantes o usuário quer repetir a experiência uma vez mais e outra vez; um ciclo sem fim. O desconforto gerado pelo termino dos efeitos também contribui para que o usuário queira mais. Sob efeito da droga ele tem grande sensação de bem estar e onipotência. Um mundo ilusório em profundo contraste com sua miséria cotidiana. Por tudo isso ele quer voltar rapidamente para a ilusão química. Na vida real não há mais escola, trabalho, família, nada. A saúde é precária, os pulmões ficam comprometidos. Dada a irresponsabilidade nas relações há grande risco de adquirir doenças sexualmente transmissíveis como a AIDS. E muitos adoecem gravemente. Não é o caso da nossa protagonista, que fez o teste para HIV e deu negativo. Mas sua criança desenvolve-se com dificuldade no interior de seu útero. Exame de ultrassom revelou que o feto apresenta retardo no desenvolvimento. Pode ser que apresente sequelas irreparáveis quando do nascimento. A mãe usou crack durante quase todas as 30 semanas de gravidez. Para protege-la e afastá-la das ruas propus uma internação em hospital especializado. Ela concordou, pelo menos até o nascimento da criança. Depois, veremos. O filho poderá ser um poderoso estímulo para uma mudança radical de vida, a regeneração da mãe, sua recuperação face ao crack. Se não, a criança será só mais uma a ser abandonada em alguma instituição ou ir para adoção. Seja como for será um ser humano lesado, que deverá lutar muito para superar os problemas com que irá nascer: consequências da droga e do abandono. Quem sobrevive inteiramente a isso? O dependente químico não causa problemas só para si, o que já seria muito. Ele prejudica a família, os filhos, os amigos, a sociedade como um todo. Nossa protagonista não estuda nem trabalha. Que perspectiva de vida tem?            



Escrito por Paulo Palladini às 18h20
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