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TODOS OS CANTOS
 


Gentileza no trânsito

 
Transitar é parte essencial da vida cidadã. Deslocamo-nos pelas ruas e avenidas para ir ao trabalho, à escola, às compras, ao lazer. E o fazemos, principalmente, por meio de algum veículo sobre rodas. O automóvel é o maioral deles. Todos desejamos ter pelo menos um. O automóvel é sagrado. O sociólogo radical alemão Robert Kurz chama-o de “vaca sagrada do ocidente”,  e acusa-o de transformar-nos em paraplégicos. Desde sua invenção só passamos a andar sentados em cadeiras de rodas motorizadas. Kurz, como vêem, não gosta de automóvel. Tenho um amigo em São Paulo que também não gosta; nunca teve um nem quer ter um Mas a maioria de quase todos nós gosta. E para muitos ele é mesmo uma vaca sagrada: deve ser venerado, não pode ser tocado, só admirado. Para nos aproximarmos é preciso cumprir uns quantos rituais.  O automóvel é que tem prioridade, ele passa na frente das pessoas ou por cima delas. Abram alas que ele quer passar! Sua sensibilidade ao toque é acentuada. Experimente, leitor, tocar fisicamente o automóvel de alguém. Equivale a uma profanação. Pode dar em agressão e morte. Você encostou no meu carro! Tem proprietário de automóvel que não tolera nem cisco ou poeira. Cocô de passarinho, então ... é uma verdadeira tragédia! Um grande empresário nacional, dos maiores, dono de bilhões, guarda um dos seus carrões na sala de sua mansão. Creio que não preciso me alongar mais para demonstrar a importância do automóvel em nossas vidas. Automóvel é fetiche. Raros são os que o encaram como o que ele é de fato: um mero veículo. Mais importante que o veículo é o que ele transporta; é o conteúdo. Melhor dizendo: os autos são feitos para as pessoas, e não o contrário. Essa paixão brasileira pelo automóvel faz com que invertamos tudo. A paisagem das cidades é dominada pelo espaço dedicado a eles. Vias, estacionamentos, garagens. Eles são os privilegiados.  São dirigidos por pessoas, mas não para as pessoas. São perigosos, pois, muito mais fortes e pesados que um individuo humano, podem destruir e matar. E destroem e matam todos os dias. Os maiores destroem os menores. Caminhões contra automóveis, automóveis contra motos e bicicletas, estas contra pessoas. Caminhões, autos e motos contra as pessoas. A parada é desigual. E irracional, pois pilotando qualquer veiculo há um indivíduo, que se torna imediatamente pedestre ao descer à rua. Mas que se transforma ao acelerar sua máquina através das mesmas ruas.  Dois cidadãos se esbarram acidentalmente na calçada: um pede desculpas ao outro. Dois motoristas esbarram seus carros: um acusa o outro. Se a coisa esquenta um quer matar o outro. A situação atingiu patamares nunca vistos, com sua cota de sofrimento, mutilações, sonhos e destinos  interrompidos. Por isso começo aqui, solitário, uma campanha pelo desarmamento no trânsito, pela delicadeza no trânsito. Gentileza. Precisamos cultivar a gentileza, dar prioridade ao pedestre, que é o elo mais fraco. O maior e mais forte deve proteger o menor e mais frágil. Sejamos gentis. Que cada um de nós se torne um agente social da gentileza.



Escrito por Paulo Palladini às 10h59
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Da autobiografia de Keith Richards

 
De férias no litoral; alguns dias para descansar. Começo a leitura de Vida (Editora Globo, 2010), a autobiografia de Keith Richards, ditada pelo próprio e escrita pelo jornalista James Fox. Tomei emprestado do Gustavo para esses dias ensolarados. Keith, como sabem, é o guitarrista e compositor, co-fundador dos Rolling Stones.  Está com 69 anos de idade. É conhecido também pelos excessos cometidos ao longo da vida. Dele, como de outros, também podemos perguntar: como sobreviveu a tudo isso? O livro é interessante, não só para os que gostam de música ou dos Rolling Stones em particular, mas pelo tom sincero que ele imprime à narrativa, enfrentando as questões espinhosas de frente. Não esconde nada, não põe panos quentes, não ameniza nenhum episódio para torna-lo palatável ao gosto médio. Conta tudo de modo cru e direto. É o que parece. A questão das drogas é uma delas. Enfrentou processos, riscos e humilhações por causa do seu envolvimento com elas. Foi dependente de heroína, uma das drogas mais pesadas. Dependente grave. Foi ao fundo do poço, conheceu o inferno. Passou por tentativas e tratamentos para se libertar. O que ele tem a nos dizer é importante por isso: é alguém que esteve lá, sobreviveu, e registrou o que viveu. “Quando você é um junkie (drogado, dependente quimico) o veneno é o seu pão de cada dia (...) Quando havia uma seca de heroína a coisa ficava feia. A pressão realmente era enorme. Você via as pessoas esparramadas pela sala num estado deprimente, vomitando. Você literalmente andava sobre corpos.   E às vezes não havia uma seca de verdade. Eles faziam isso só “ para aumentar o preço (...) Eu acordava de manhã e a primeira coisa era ir ao banheiro tomar um pico (...) Largar o vício havia se tornado progressivamente mais difícil. E o desejo de voltar para os braços da heroína no minuto em que você se livrava dela era cada vez mais forte (...) Além disso, quando você larga a droga, seus amigos continuam sendo junkies.  Quando alguém fica careta, escapa daquele círculo.  E independentemente de eles gostarem de você, amarem ou odiarem você, a primeira coisa que querem fazer é puxar você para dentro de novo. ‘Esse veneno aqui é de primeira’, eles dizem. A pressão no meio dos junkies é enorme.: se a pessoa consegue sair do vício e fica livre de verdade, é como se de algum modo ela tivesse fracassado. Fracassado em que? eu me pergunto. Por quantas síndromes de abstinência você consegue passar? É ridículo, mas você nunca percebe isso quando está usando. (...) Há certas realidades que entram em jogo e que mantém você com os pés na sarjeta, num patamar mais baixo do que deveria estar. Não na calçada, na sarjeta mesmo”. O depoimento confirma muito do que já sabemos a respeito das drogas e seus efeitos. A droga coloca-se no centro da vida do dependente, tudo o mais fica secundário. Mesmo que o sujeito decida livrar-se dela muito conspira contra: a necessidade física e psíquica de repetir a dose, a pressão dos amigos drogados, a sensação de fracasso. Este ultimo aspecto, que Keith aponta, é muito interessante. Para o dependente, muitas vezes, a tentativa de deixar as drogas é encarada como fracasso e não o contrário. São reflexões importantes sobre o tema.



Escrito por Paulo Palladini às 20h47
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Inauguração do Caps i, mais um avanço

 

A área de saúde mental de Mococa, que eu chamo de Projeto Santa Luzia de Saúde Mental, por estar ligada às Obras Sociais da Paroquia Santa Luzia - presididas pelo Padre Celso Abreu de Jesuz - entregou à população mais um serviço no último dia 2 de abril. O prefeito Toni Naufel quis que esta inauguração figurasse dentre as comemorações dos 156 anos de Mococa. Trata-se do Caps i: Centro de Atenção Psicossocial da Infância e Adolescência. Este novo serviço atenderá crianças e adolescentes de Mococa e mais sete cidades da região: São José do Rio Pardo, Itobi, Tapiratiba, Caconde, Divinolândia, Casa Branca, São Sebastião da Grama. E é  especializado em transtornos mentais, comportamentais e dependências químicas. Com essa inauguração damos mais um passo no sentido da auto-suficiência em atenção à saúde mental. Nossa meta é cuidar de todas as questões de saúde-doença mental de nossas comunidades no próprio município. Essa meta é possível porque tem muita gente envolvida, comprometida com o trabalho.  Temos equipes motivadas. Algo que extrapola a ação de uma pessoa ou de um pequeno grupo. Podemos ter certeza de uma coisa: poucos são os municípios que dispõem desses dispositivos de cuidados. Assistimos da criança pequena até o idoso, aquele que precisa de uma atenção intensiva, diária, até quem só necessita de um apoio episódico. Se a situação exige internação, optamos pela nossa Santa Casa, com quem iniciamos conversas para que ela componha a rede de atenção psicossocial. O governo federal está propondo a formação dessas redes de integração, que envolvem serviços sociais, religiosos e comunitários, instâncias governamentais, organizações não governamentais, hospitais, emergências, a rede básica de saúde, enfim, todo serviço que entra em contato com a pessoa em seu sofrimento psíquico.  Fora de Mococa recorremos, com freqüência ao Caps III de Casa Branca, um Caps estadual, que funciona 24 horas-dia, e acolhe pacientes adultos em regime integral, substituindo a internação psiquiátrica especializada. Também recorremos a comunidades terapêuticas para dependentes químicos, principalmente adolescentes. E ainda internamos em hospitais psiquiátricos, mais do que eu gostaria. Temos constatado na prática que as internações acabam por fazer mais mal do que bem. De modo geral elas não preparam o paciente para retornar à comunidade reabilitado, capaz de se adaptar. Um adolescente passou nove meses numa clínica para dependentes químicos; na mesma semana recaiu nas drogas. Outro problema: os hospitais psiquiátricos da região não dispõem de medicamentos modernos, como temos na Farmácia Municipal, que Prefeitura e Governo estadual fornecem. Internados os pacientes recebem medicamentos menos eficazes que os que fornecemos.  Ao contrário do que muitas famílias podem pensar, seus pacientes não recebem o melhor tratamento nos hospitais. Por isso afirmei que nossa meta é a auto-suficiência. Ainda não a atingimos. O Caps i é um passo, o Caps ad III (24 horas) é outro, a Oficina de Geração de Renda também. Se preciso for, Unidade de Acolhimento, Comunidade Terapêutica e outras tantas. Vamos lá.



Escrito por Paulo Palladini às 20h47
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Aldemir Martins: conversa no ateliê

 
Janeiro de 1994. O ateliê ficava numa rua tranqüila do Sumarezinnho, bairro paulistano.  A manhã era de sol, quinta feira, dia dos santos reis.  Aldemir estava lá, debruçado sobre um São Francisco que pintava. No momento em que entramos, Ana e eu, ele trabalhava com o pincel: um pombo branquinho. Cumprimentamo-nos, ele continuou trabalhando, começamos a conversar. Disse a Ana que desde o inicio acostumou-se a pintar com gente à volta conversando. Falou da cor em sua obra e das criticas que enfrentava pelo uso dos tons vibrantes. “Cores selvagens”. Seus gatos são azuis, vermelhos, verdes, os peixes e as aves multicores. “O que resta ao pobre, senão a cor”, indagou, já respondendo. Entre um papo e outro uma gargalhada aberta. Aldemir era assim, imerso em seu oficio e atento à sua volta. Em 1945, então com 23 anos de idade, desembarcou no Rio de Janeiro após uma viagem de 15 dias de navio. Na bagagem 12 telas e 15 desenhos. Naquele ano participaria do Salão Nacional de Belas Artes na cidade maravilhosa, abrindo caminho na arte brasileira, projeto que começara alguns anos antes em seu estado natal, o Ceará. Pois Aldemir era natural de Ingazeiras na região do Cariri, onde nasceu em 8 de novembro de 1922. Desde menino interessou-se pelo desenho, até hoje muito importante na sua pintura. Diariamente ele se exercitava desenhando, o que chamava de “tarefa de casa”. Era quando interrompia suas sessões de pintura e se recolhia. Tinha sempre um bloco de papel à mão. Cada traço seu significava meio século de arte. Arte que hoje corre, literalmente, o mundo. Tudo começou no sertão nordestino com seus cangaceiros, mulheres rendeiras, retirantes da seca; a épica terra do sol em que o diabo tira e Deus põe: as cores. Aldemir tomou o partido de Deus e coloriu o mundo. Um pássaro seu pode ter 19 cores, um vaso de flores, não sei quantas; e os gatos com flores, mulheres com gatos, frutas, paisagens! Tudo cuidadosamente trabalhado com os pincéis, que existiam profusão espalhados pelo ateliê; muitos deles confeccionados pelo próprio Aldemir, artesanalmente, de bambu e pelo de caititu. Pincéis que conviviam mais ou menos harmoniosamente com espátulas de todos os tamanhos e cabaças, sinos de latão, cestos, cerâmicas. Ali, em meio aquela complexidade barroca, passava Aldemir a maior parte de sua vida; dali despachava suas cores para os quatro cantos do mundo. Quando nos despedimos, gentil, presenteou Ana com uma de suas trinchas, que ela guarda ate hoje. Em 2006, como um dos seus gatos-cor, experimentou um longo salto; como um dos seus pássaros-todas-as-cores, voou para sempre desaparecer no céu.   



Escrito por Paulo Palladini às 20h45
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Homenagem

 

Nossa Filarmônica Mocoquense completa 120 anos. É muito ano. Merece todas as homenagens pela tenacidade e pela resistência; pela sobrevivência improvável. Faço minha pequena homenagem elevando um poema ao maestro Paccione. Ele simboliza todos os maestros de origem italiana que a conduziram, e por extensão todos os músicos que a integraram, e todos os seus dirigentes ao longo deste século e um quinto. Saúdo também os vivos e atuantes. O poema,  escrevi-o faz anos, como memória de minha infância do dia de sua morte; tinha eu 11 anos de idade.

 

 

 

Paccione, o maestro

 

 

Paccione, o maestro

 

 

morreu nesta manhã

 

Reqviem aeternam

 

rosto de sulcos profundos!

 

O povo, passo lento, segue cabisbaixo

 

São três horas da tarde

 

Na Avenida da Saudade

 

o sol forte faz brilhar tubas e trompas

 

Da requinta nenhum brilho, som nenhum

 

É silêncio o toque seco do tambor

 

Descansa em paz Paccione

 

Na alameda de ciprestes! 

 

                                                                                                                        

                                                                                                                                            

                                                                                                                                                                                                                       Paulo Palladini



Escrito por Paulo Palladini às 10h34
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Clube Ângelus da esquina

 

Eu, que comecei minha carreira jornalística fazendo crítica de música, frequentemente volto ao tema. Clube da Esquina, o álbum duplo de Milton Nascimento e Lô Borges, que completa 40 anos, é considerado um disco revolucionário sob vários prismas. Uma caixa contendo os dois Clubes, o de 1972 e o de 1978, foi distribuída pela EMI. Milton, que não é de muito falar, deu várias entrevistas reveladoras sobre o lançamento. Uma delas foi feita pela revista Bravo! Quando perguntado se ainda faria um disco que alcançasse Clube da Esquina, ele respondeu:  “Sinceramente não sei, porque nunca faço nada de propósito. As coisas acontecem. Mas creio que as pessoas ainda não entenderam o Ângelus, de 1993. Lá fora há uma compreensão maior, mas aqui, não. Para mim, é outro Clube da Esquina. Só tem gente boa no disco – músicos do Brasil, da América Latina, dos Estados Unidos, da Inglaterra. É um verdadeiro clube”. Nesta entrevista Milton conta muitas coisas interessantes. Sobre sua carreira revelou, por exemplo, que só teria faltado uma coisa: ter gravado com o trompetista Miles Davis. Mas, afinal, que é o Ângelus, álbum de capa alaranjada, imagens de anjos, logotipo da Anistia Internacional e belíssima foto interna, flagrante do autor? O álbum duplo - em vinil, claro - traz dezesseis composições de Márcio e Lô Borges, Flávio Venturini, Ferreira Gullar, Fernando Brant, James Taylor, Lennon e McCartney, do próprio Milton. Da dupla beatle Milton gravou Hello Goodbye e de Taylor Only a dream in Rio, com canja do próprio James. A lista de músicos traz expoentes do jazz como Pat Metheny, Jack De Johnnette, Ron Carter, Herbie Hancock, Wayne Shorter. Só faltou Miles Davis mesmo. Entre os brasileiros comparecem Naná Vasconcelos, Robertinho Silva, Túlio Mourão. De quebra ainda tem Jon Anderson e Peter Gabriel. O disco abre com Seis horas da tarde, composição instrumental de Milton, onde ele toca sanfona e violão, acompanhado do sax de Wayne Shorter.  E fecha com Sofro calado, dele e Regis Faria: “sofro calado pra não lhe dizer, a cada segundo, o que é um segundo sem você”. Talvez precisemos prestar mais atenção nesse álbum mesmo. Sofisticado e rústico. Prolixo e sintético. Milton tem razão. Ele é um grande clube da esquina, da esquina do mundo. Eu sou do tempo em que a minha esquina era o mundo. Por isso gosto tanto da música de Milton e companhia. Beto Guedes, um deles, é compositor que canta a minha infância. Que fala diretamente do meu passado. O primeiro Clube da Esquina foi em 1972, o segundo em 1978, o outro em 1993. À revista Bravo! Milton explicou a gênese de seu trabalho de compositor: “O que me despertou para compor foi o filme Jules et Jim, de François Truffaut, com Jeanne Moreau. O filme era um tratado sobre a amizade. O Márcio Borges me levou para vê-lo, em Belo Horizonte.  Assistimos a três sessões seguidas e, quando saí de lá, compus três músicas: Maria Minha Fé, Novena e Gira girou”. Mais tarde, Milton seria apresentado à atriz que despertou o compositor que habitava nele... um momento culminante em sua vida.

                                                                                                                                                                                                                       Paulo Palladini                        



Escrito por Paulo Palladini às 10h28
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Carlito Maia

 

Carlito Maia morreu num  22 de junho de 2002 em São Paulo. Era publicitário, melhor dizendo, panfletário. Embora ligado à Rede Globo, onde ocupou posições de destaque, era umbilicalmente petista; foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores. São de sua autoria expressões como sem medo de ser feliz. Mineiro da cidade de Lavras,  foi na capital paulista que ele tornou-se publicitário, ainda na década de 50. Considerava-se autodidata, mas orgulhava-se do diploma da Escola de Propaganda do Museu de Arte, um de seus dois únicos canudos.  Chegou a fundar sua própria agência. É a ele atribuída a frase é uma brasa, mora, típica da jovem guarda dos anos 60. Aliás, jovem guarda também seria uma criação sua.  Conheci-o através de Ana, minha mulher, num encontro do PT, que indicaria Eduardo Suplicy candidato do partido à prefeitura de São Paulo. Naquela ocasião Carlito saíra com essa: Suplicy, mais que prefeito. Já não andava bem de saúde, falava e se movimentava com dificuldade. Mas a mente continuava ativíssima. Em dois minutos, em meio aos discursos inflamados da convenção partidária, anotou na agenda de Ana: ver dever de verde. Naquela época ela estava engajada no movimento ecológico, especialmente através do MEL de Mococa.  Durante os anos seguintes Carlito mandou, pelos correios, muito material de sua lavra e de autores que admirava: Fernando Pessoa, Brecht, Cocteau, Chuang Tzu, Henfil. Acompanhava as xerocópias, sempre, o seu já tradicional carimbinho: confio em você. Carlito era assim, distribuía mensagens, slogans, charges, poemas, crônicas àqueles que se interessavam e se preocupavam, como ele, com a situação política do País. Como o poema de Eduardo Alves da Costa, cuja autoria chegou a ser atribuída ao poeta russo Vladimir Maiakóvski, e que vale a pena reproduzir: “Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada”. Seu abecedário  é, simplesmente, saboroso. Traz coisas do tipo: evite acidentes, faça tudo de propósito, ou faço até o que não gosto, mas o que eu não quero eu não faço. Quando me fecham as saídas,  escapulo pelas entradas, escreveu em outra parte; junto com: não me levem a mal, vim ao mundo a passeio, não em viagem de negócios. Opinava sobre tudo, ou quase tudo. Das gravatas escreveu:  deixei de usar porque sentia um nó na garganta. Ou ainda, de suas origens: mineiro não fica doido, piora. Dizia de si mesmo que era um doido piorado. Em Relato de um brasileiro envergonhado de 1991, escreveu: “Amo o hábito da leitura, graças ao qual me situo na vida e no mundo. Porém só respeito a bandeira quando confio em quem a está empunhando. Assim, não leio qualquer um, para não ter de perder tempo separando o que é mentira do que não é verdade”.  Este é Carlito Maia.

      

                                                                                                                                                                                                                    Paulo Palladini



Escrito por Paulo Palladini às 10h26
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Psicanálise e cultura brasileira

 

Ao visitar Freud: conflito & cultura no Masp em São Paulo não pude deixar de compará-la a outra mostra sobre o criador da psicanálise. Em 1994 veio ao Brasil a exposição Antiguidades de Freud, que o Museu Nacional de Belas Artes realizou, também na capital paulista. Naquela ocasião eram estrelas as peças arqueológicas que Freud adquiriu ao longo da vida e que hoje pertencem ao Freud Museum de Londres. Uma belíssima e inquietante coleção de raridades cuja peça mais significativa talvez fosse a imagem de Eros em terracota de origem grega e 2100 anos de idade. Conflito & cultura teve outro caráter: examinar a influência da vida e obra de Freud na história do século XX, influência inegável e marcada por profundos conflitos. A mostra, dividida em três seções, abordou os anos de formação, passou pela instituição da teoria e terapia psicanalíticas e veio dar nas idéias de Freud sobre as origens da sociedade, das artes e das religiões. Destacou também o pensamento freudiano sobre o mal estar contemporâneo. Trouxe objetos pessoais dele como os óculos e a caneta com que escrevia, a cadeira em que se sentava e manuscritos de muitos de seus livros. Filmes mostram-no em ação conversando com familiares e amigos, pegando a netinha no colo, brincando com o cachorro. Outros  filmes mostravam também os primeiros psicanalistas e colaboradores como Sandor Ferenczi, Ernest Jones, AA Brill. Muitas fotos, documentos, cartas. Até a placa indicativa de seu consultório em Viena no famoso prédio da rua Bergasse 19 estava lá. Mas esta exposição, montada originalmente nos Estados Unidos com material do acervo da Biblioteca do Congresso americano, foi enriquecida com a mostra paralela Brasil: psicanálise & modernismo, que mapeou a influência do movimento psicanalítico na cultura brasileira. Nas primeiras décadas do século passado a psicanálise já era conhecida no Brasil. Franco da Rocha havia publicado um livro – O pansexualismo na doutrina de Freud - precisamente em 1920. Mario e Oswald de Andrade citavam Freud com frequência e um diálogo entre arte e psicanálise inaugurava-se como Tarsila do Amaral, Anita Malfatti e também Flávio de Carvalho, Ismael Nery até o contemporâneo Leonilson. Todos estavam lá. Ainda naquela década de 20 o psiquiatra Osório Cesar iniciou a Escola Livre de Artes Plásticas do Juqueri, que manteve por três décadas, como forma de terapia para os pacientes e revelação de talento artísticos. Um desses talentos foi Aurora Cursino dos Santos, interna do Juqueri que construiu uma pintura das mais relevantes. Telas suas puderam ser vistas na Mostra. Osório, que começou no Juqueri em 1923, até recentemente não era reconhecido como o pioneiro que foi. E sua ligação com a psicanálise pode ser atestada pela correspondência que manteve com o próprio Freud. Através de carta este agradece o envio de artigos para a revista Imago, que criou para divulgar as relações entre psicanálise e cultura.  Osório escreveu vários livros sobre arte e loucura.  Em 1950, no Primeiro Congresso Mundial de Psiquiatria em Paris, Osório compareceu levando telas e esculturas dos seus pacientes do Juqueri. A Mostra do Masp fez justiça, portanto, ao seu pioneirismo bem como a Franco da Rocha, que presidiu a reunião fundadora da psicanálise no Brasil. Outra injustiça reparada foi a presença de Anibal Silveira, meu antigo mestre, sobre cujo pensamento publiquei o livro Patogênese. Quase sempre esquecido em ocasiões semelhantes, na mostra ele aparece em fotografia do Congresso de Paris onde brilhou com seus trabalhos e rigor científico. Foi bom vê-lo ali ao lado do psicanalista Isaias Mehlson, próximo de Bion e Melanie Klein.

 

                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Paulo Palladini



Escrito por Paulo Palladini às 10h25
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A Rede de Atenção Psicossocial

 

O Governo Federal fez publicar pelo Ministério da Saúde, em 26 de dezembro de 2011, portaria instituindo a Rede de Atenção Psicossocial para pessoas com sofrimento ou transtorno mental e com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas, no âmbito do Sistema Único de Saúde. O objetivo é criar, ampliar e articular os pontos de atenção à saúde em todo o território brasileiro. O motivo principal é ampliar o suporte aos usuários do crack, mas o Governo teve a sensibilidade de estender o conjunto de medidas a todas as pessoas que apresentam alguma desordem psíquica. O campo da saúde mental tem recebido especial atenção por parte do setor público. Integrarão a Rede a atenção básica, a atenção psicossocial, a urgência-emergência, os serviços residenciais de caráter transitório, os hospitais, além de estratégias de desinstitucionalização e reabilitação psicossocial. Como vemos a Rede é bastante ampla para contemplar as necessidades dos cidadãos.  Alguns desses recursos já existem em muitos municípios, outros são novos. Mococa, cuja municipalidade trabalha em sintonia com os níveis estadual e federal está bem servida, pois vem se preparando há 10 anos. Com as inaugurações em breve (abril desse ano) do Caps i (Centro de Atenção Psicossocial para crianças e adolescentes) e do Caps ad III (Centro de Atenção Psicossocial para usuários de drogas, que funcionará 24 horas/ ininterruptamente) nossa rede estará bastante fortalecida. Há outros projetos na Portaria do Ministério, que podem interessar à cidade, como o Consultório na Rua e a Unidade de Acolhimento, ambas para dependentes químicos; o primeiro para abordar o usuário nos locais em que ele consome drogas, a segunda para tirar esses usuários das ruas e acolhê-los de modo digno por período transitório. Outro serviço residencial previsto na portaria é a comunidade terapêutica para usuários de drogas, regidas por normas específicas e financiamento público. Aliás, para todos esses serviços estão previstas verbas públicas. Outra possibilidade para Mococa e região é a ampliação dos leitos para desintoxicação em hospital geral, como a nossa Santa Casa, que incluirá a internação de pacientes com transtorno mental em geral, não só dependentes químicos, e remuneração diferenciada. As estratégias de desinstitucionalização e reabilitação psicossocial visam garantir a autonomia, o exercício da cidadania e a inclusão social. Correspondem a um conjunto de iniciativas intersetoriais, que incluem as residências terapêuticas, o programa De Volta pra Casa, os centros de convivência, projetos de geração de renda e outros recursos sociais. Ponto importante da Portaria ministerial é a reafirmação do caráter comunitário das iniciativas e do respeito aos direitos das pessoas. O hospital psiquiátrico é citado como opção somente quando a Rede Psicossocial “ainda não se apresente suficiente”.  O processo de substituição dos leitos psiquiátricos por recursos comunitários continuará, conforme previsto na lei 10.216, a lei da Reforma Psiquiátrica.  Nesse sentido foram importantes as reuniões recentes entre representante do Ministério Público, da OAB, da DRS (Direção Regional de Saúde) e dos serviços de saúde mental. Ficou definida estratégia de ação conjunta no sentido de se evitar abuso de internações psiquiátricas, principalmente por via judicial, e valorização dos recursos comunitários de atenção à saúde mental. A nossa região pode se sentir orgulhosa da organização desses serviços em Mococa, que se pautam pela lei da reforma e contam com apoio tanto municipal, como estadual e federal.



Escrito por Paulo Palladini às 10h23
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O grande carnaval revisto


O carnaval é sempre um reflexo e uma resposta às crises. E também é mais que isso. Desta vez não é diferente. Como fenômeno de criação coletiva e popular, o carnaval é sensível às temperaturas do mundo. Seus temas dialogam  com os acontecimentos. Suas cores, seus ritmos respondem às angústias contemporâneas. Nele a alegria é a prova dos nove, mas esta alegria é muitas vezes filtrada por máscaras negras. Quanto riso! Quanta alegria! Mil palhaços espalhados por todos os cantos ... na cadência bonita do samba. E das marchinhas, dos frevos, dos forrós, do maracatu. O carnaval encerra uma duplicidade de sentimentos: a alegria que não cabe em si e a tristeza ensimesmada. Como a alegria e a tristeza são sentimentos universais todos deles compartilham e desfrutam. Mesmo aqueles que não gostam de carnaval, os que não trocam passos numa avenida nem fazem balançar o chão da praça. E até aqueles que tão somente malentoam uma débil mamãe eu quero na clarineta. Esses, a meu ver, são tão carnavalescos como os frenéticos-dos-salões e os corpos-suados dos blocos e os ritmistas mais entusiasmados. A dança é um fenômeno da mente, tanto quanto é do corpo. Portanto, não menosprezemos aqueles que aparentemente estão parados. Há ritmo e alegria dentro neles. Só falta agitar os braços e abrir o peito. Agora, se o carnaval tem um lugar esse lugar é a rua; as praças e avenidas. Todas as praças Castro Alves são do povo. Quando compreendermos isso em todos os seus sentidos, afastaremos o horror e a violência que associamos a esses lugares.  Como se fossem territórios do inimigo. Aumentamos muros, trancamos portas e janelas, instalamos alarmes e cercas eletrificadas. Transformamos nossas casas em jaulas douradas para melhor cultivar o medo. Ponho vendas em meus próprios olhos; não quero ver o que se passa na rua. No máximo observar de longe, através da tele-visão como um espia, confortavelmente instalado em minha poltrona. Já há muito deixamos de ver o outro como um irmão. Se o inferno são os outros, o diabo é um outro. Um não-irmão. É por isso que o diabo está mais forte do que nunca. E mais perto. Isso não tem nada a ver com o carnaval. Carnaval é simplesmente o reinado da folia. E todos precisamos de folia. Fruição: para além das responsabilidades que a nossa vida social encerra ao peito varonil. Pelo que também sei o diabo não tem nenhum humor. Nenhum espírito zombeteiro. O bicho é, mas muito é mal humorado. Não tem nada a ver com carnaval. Sua sisudez cinzenta não combina com o riso, contentamento, os gestos largos, a paixão.  Mas no carnaval ele deixa mostrar o rabo, como a crise mostra a crise. Máscaras de Osama e Obama dividem espaço nas bancas com outras personalidades mais ou menos notórias. Assim misturadas ela mostram mais do que fazem parecer. Assim misturadas elas são as duas faces da mesma moeda. Junto com Emilinha Borba, Jamelão, Getúlio Vargas e Napoleão ferido, entre outros, eles vão descer a avenida do povo unido jamais vendido, e entrar na folia ao som de todos os pandeiros. Saudemos, portanto, a empreitada, como se bandeiras fossem, e os personagens, intrépidos bandeirantes de casaca, remando a favor num Rio Tietê de águas mais que cristalinas. Do alto da minha poltrona eu vos saúdo: blocos, cordões, escolas de samba, passistas, carnavalescos, reis momos, tambores, cuicas, tamborins, trombones e fantasias, que fazem dessa alegria incontida, o grande carnaval.



Escrito por Paulo Palladini às 20h00
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Data de fundação de Mococa: é preciso debater

 
Na semana passada o professor Paladini reafirmou aqui, em seus Rabiscos Históricos, a verdade sobre “os principais acontecimentos históricos que definiram a fundação de Mococa”. Parece não haver divergências quanto aos fatos, exceto quanto à data em que a fundação se deu. Ele defende a correção da data em nome da verdade histórica. Cuidadoso, pesquisou minuciosamente, como é do seu estilo, todos os aspectos relevantes, e concluiu que a data de fundação de Mococa é 25 de fevereiro de 1841. Esta é a data oficial de criação do povoado de São Sebastião da Boa Vista,  reconhecido como Capela Curada pelo Bispo Dom Manoel Joaquim Gonçalves de Andrade. A iniciativa da formação do novo povoado foi de Venerando Ribeiro da Silva, que se estabelecera na região apenas um ano antes. Segundo Paladini ato como o do Bispo Dom Manoel, naquela época, tinha “poder de direito civil”. Na data em que comemoramos o aniversário de Mococa, 5 de abril, a Capela Curada seria elevada à condição de Freguesia. Porém, nesse dia e mês de 1856 o povoado já havia sido fundado. É por isso que o professor Paladini insiste na correção. No dia 5 de abril de 1856 o povoado já contava com 15 anos de existência. Por exemplo, em 1846, 10 anos antes, portanto, o lugar contava com 12 casas e 100 moradores. No Natal desse ano seria celebrada a primeira missa na recém construída capela em louvor de São Sebastião.  No artigo referido o professor põe em ordem cronológica os principais acontecimentos históricos, começando pela chegada , em 1822, às terras da Água Limpa, do desbravador José Cristóvão de Lima. Sua cronologia termina em 8 de abril de 1875, quando é aprovada a lei numero 20, que concede à Vila de São Sebastião da Boa Vista, a condição de cidade, já sob o nome de Mococa. Portanto, 5 de abril de 1856 é data intermediária, estabelecendo apenas mais uma etapa na constituição da cidade.  Tudo começa a tomar forma em 1839, quando Antônio José Gomes, lavrador português aqui estabelecido, devoto de São Sebastião – o santo protetor das lavouras - doou terras para a construção  de uma capela em seu louvor. São Sebastião se tornaria padroeiro da cidade de Mococa. A partir daí as datas relevantes na formação histórica de Mococa seguem-se: 1841 - Capela Curada; 1856 - Freguesia; 1871 - Vila; 1875 - cidade de Mococa.   Todas essas informações encontram-se no livro do professor Paladini:  Assim Nasceu Mococa (Editora Alfa-Omega, 1995). Outro historiador de Mococa, Edgard de Freitas ( Mococa 100 anos de história, 1947), assim se refere aos mesmos fatos: “Os desbravadores davam já os seus primeiros passos no sentido de conseguirem a criação oficial do povoado que, efetivamente, em 25 de fevereiro de 1841, pela lei numero 15 foi, pelo Bispo D Manoel Joaquim Gonçalves de Andrada, erecto Capela Curada com o nome de  São Sebastião da Boa Vista, pertencendo a Casa Branca”... E mais adiante: “O povoado humílimo de 1841chegou a 1875 com fôlego de cidade”... O que me indigna em tudo isso não é se a data indicada pelo historiador Carlos Alberto Paladini é a correta ou não. O que me indigna é a falta de debate sobre o assunto. Se um historiador de seu porte vem a público afirmar e comprovar com documentos que a fundação da cidade ocorreu no dia 25 de fevereiro de 1841 e não em 5 de abril de 1856, o mínimo que devemos fazer é refletir sobre o assunto.  Sugiro, então, desde já a criação de um foro apropriado, de ampla discussão envolvendo toda a comunidade mocoquense. Quem sabe a iniciativa de uma consulta popular em que o povo, amplamente esclarecido da situação histórica, com a história na mão, decida soberanamente, conforme previsto na Lei Orgânica do Município.



Escrito por Paulo Palladini às 21h12
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Ah! As internações psiquiátricas

 

A lei 10.216 “dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental”. Foi promulgada em 2001 em substituição ao decreto governamental de 1934. A nova lei ordena juridicamente as questões atuais do campo da saúde mental, entre elas as internações psiquiátricas. Redirecionar o modelo assistencial em saúde mental significa rever profundamente o papel das internações. O movimento pela reforma psiquiátrica centralizou suas críticas exatamente no problema dos hospitais psiquiátricos brasileiros tradicionais. Ou manicomiais. Primeiro: a assistência publica em saúde mental era localizada nos hospitais psiquiátricos; havia poucas ações diagnósticas e terapêuticas fora deles.  Segundo: nossos hospitais psiquiátricos eram instituições totais; isto é, instituições fechadas, que criavam no seu interior um mundo à parte, um espaço de exclusão com regras próprias e, muitas vezes, subumanas. Terceiro: só tinham porta de entrada. Esses grandes asilos eram praticamente inexpugnáveis. Mas para os pacientes e suas famílias eles eram a única possibilidade de assistência. A reforma veio para mudar esta relação: menos ações hospitalares, mais ações comunitárias. O projeto original do então deputado Paulo Delgado, de 1989, determinava a extinção gradual desses asilos, defendendo uma sociedade sem manicômios. Este é o objetivo do Movimento da Luta Antimanicomial desde 1987. Porem, a lei da reforma aprovada pelo Congresso Nacional depois de longa tramitação preservou os hospitais psiquiátricos dentre os cuidados à saúde mental. Reservou-lhes o papel de último recurso depois de esgotados os recursos comunitários. Primeiro as abordagens simples, depois as complexas. Primeiro os serviços comunitários, abertos, depois os hospitalares, fechados. Primeiro o hospital geral, depois o especializado. Porque a maioria dos pacientes responde bem a abordagens simples, comunitárias e abertas. Ocorre que o senso comum enxerga na internação hospitalar a melhor solução. Muitas pessoas ainda acham que tratamento em saúde mental é sinônimo de internação. Elas desconhecem a realidade: que as internações não resolvem os problemas e podem agrava-los. Os artigos sexto, sétimo, oitavo e nono da lei 10.216 tratam da regulamentação da internação psiquiátrica.  O artigo sexto afirma que uma internação só pode ser feita mediante clara definição dos motivos. Neste artigo são descritos três tipos de internação psiquiátrica: voluntária, involuntária e compulsória. A primeira é aquela feita com o consentimento do indivíduo; a segunda é feita sem o consentimento e a pedido de terceiro. Finalmente a internação compulsória, que é determinada pela Justiça. O paciente internado voluntariamente pode solicitar sua alta hospitalar a qualquer momento; basta assinar uma requisição.  Já a internação involuntária termina através da alta dada pelo especialista ou por solicitação do responsável legal. O término de uma internação compulsória depende de determinação judicial. Esse ultimo tipo de internação ocorre quando o indivíduo, portador de um transtorno mental, infringe algum dispositivo legal. Ou quando seu comportamento é altamente perigoso para si ou para outrem. Não deve responder a demandas de famílias, mesmo que  desesperadas. Deve ser a última das últimas. Em todos os tipos de internação, entretanto, o parecer técnico do psiquiatra ou da equipe de saúde mental é necessário.  Portanto, quando a internação psiquiátrica aparece como a grande solução para o grave problema dos dependentes químicos, acautelemo-nos. Já vivemos essa experiência. E não foi nada boa para ninguém. E lei, ora, existe  a lei.



Escrito por Paulo Palladini às 22h32
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O ano décimo 


O dia 21 de janeiro tem um significado especial para mim. Foi nesse dia em 2002, que fechava a Clínica de Repouso Mococa e iniciávamos a construção do Projeto de Saúde Mental Santa Luzia. Melhor dizendo: Projeto de Saúde Mental das Obras Sociais da Paróquia Santa Luzia em Convênio com a Prefeitura Municipal de Mococa. O marco inaugural foi esse: portão da Clínica fechado, duas residências terapêuticas abertas. Mais simplesmente: Projeto Santa  Luzia. Os primeiros moradores – a maioria continua no Projeto – foram pacientes da Clinica por muitos anos e, convidados a integrar o primeiro grupo que formamos. Tiveram coragem, pois sua vida fora marcada por transferências entre hospitais, como se mercadoria fossem: tiravam de cá, mandavam pra lá. Por isso seria natural que uma proposta dessas - ir para uma RT - sem que fizessem ideia do que seria aquilo, despertasse desconfianças e recusas. Não foi o que aconteceu. Enquanto a equipe da Secretaria da Saúde cuidava de transferir os internados para hospitais da região, esse grupo aceitou o desafio de montarmos juntos uma RT. Portanto nosso Projeto nasceu ali no Jardim Chico Piscina, onde a primeira residência está instalada até hoje. Os primeiros moradores ainda lá estão: Ditinho, Cláudio, Toinzé, Tadeu. Outros partiram e deixaram saudade.  E foram esses primeiros moradores que abriram espaço para as outras residências (hoje são seis). E para os demais serviços que o Projeto construiu ao longo desse tempo. Neste ano de 2012 concluiremos a expansão da área de saúde mental do município com a implantação de mais um Caps (Centro de Atenção Psicossocial), este para crianças e adolescentes. Já aprovado em todas as instâncias depende só de autorização do Ministério da Saúde para começar a funcionar. Ele assistirá pacientes de 8 municípios da região. A mesma abrangência que tem hoje o Caps ad ( para usuários e dependentes de drogas, incluindo álcool e tabaco). Este, aliás, em breve vai funcionar 24 horas por dia ininterruptamente e terá 8 leitos para acolhimento integral. Portanto, estaremos muito perto da meta que propus há anos: tornar Mococa auto-suficiente em saúde mental. Seis residências terapêuticas, um Caps II para transtornos mentais, um Caps ad III para dependentes químicos, um Caps i para crianças e adolescentes, e uma oficina terapêutica para geração renda. Esta acolherá usuários de todos os serviços, que estejam estáveis e tenham habilidades suficientes para trabalhar e produzir dentro de um espírito cooperativo. Será uma alternativa ao trabalho formal, que muitos pacientes não conseguem mais alcançar. Com tudo isso, e tendo o Projeto chegado onde chegou, nossa palavra para o ano é QUALIDADE. Queremos que as pessoas sejam atendidas com o carinho que elas merecem e com a competência técnica que é nosso dever. A Direção Regional de Saúde de São João da Boa Vista, nas pessoas do seu diretor Benedito Westin e Maristela Ubeda, tem acolhido nossas idéias durante esses anos todos. O prefeito Toni Naufel e sua diretora de saúde Eliana Mazzucato têm sido forte apoio pessoal e institucional. Câmara Municipal e Conselho Municipal de Saúde tem demonstrado sensibilidade para as questões da saúde mental. Não posso deixar de registrar a bonita parceria com as Obras Sociais presididas pelo Padre Celso Abreu de Jesuz, estimulada por Cido Espanha, quando prefeito. E registro, por fim a dedicação de nossas equipes, e seu engajamento em algo que é muito maior que todos nós juntos. 



Escrito por Paulo Palladini às 20h33
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Chove chuva


Chuva. Chove chuva. Chove sem parar. Preces não adiantarão. Nem seria. Até porque chuva é algo bom. O compositor Jorge Mautner ama a chuva. Várias de suas composições tem por tema esse amor pela chuva. Eu também gosto, principalmente daquelas chuvas mansas, que encharcam a terra e despertam seus perfumes, acordando as sementes. Porém, como todo fenômeno natural, ela pode fazer estragos. E faz. Nessa virada de ano muita gente ficou desabrigada. É rio transbordando, é encosta deslizando. Sofrem as populações das baixadas e dos morros. Umas porque suas casas inundam, muitas até a altura dos telhados. Perdem tudo que é móvel. Quando não  a própria casa, que não resiste  a tantas águas. Os que tem suas casas nas encostas de morros podem vê-las partidas ao meio ou arrastadas morro abaixo. Aconteceu no Rio de Janeiro e em Minas Gerais também. Os desabrigados contam-se aos milhares. E uma vez mais o poder público (nome genérico) não reagiu à altura dos acontecimentos: prevenindo, cuidando. Embora alertadas por episódios recentes que deixaram marcas profundas, as autoridades só se moveram, quando a tragédias já se consumavam. Tanto as  autoridades  como as vítimas das tragédias anunciadas são  responsáveis pelas consequências. Pelas causas não. A natureza é indiferente à nossa presença no planeta, nossos desejos e nossas necessidades. Uma onda gigante varre tudo à sua frente: hotéis, barcos, automóveis, mulheres grávidas, crianças, idosos.  Uma enchente arrasta tudo o que estiver à sua frente. Se as águas sobem elas invadem tudo, destroem nossos bens mais preciosos. A natureza não é dotada de uma moral. Para ela não existe o certo e o errado. Os fenômenos que desencadeia têm uma dinâmica própria, independentemente das vontades humanas. Certo é que nós interferimos demais. Toda a nossa ciência procura dominar e dirigir os fenômenos físicos, químicos e biológicos para fins humanos. A terra inteira deve se submeter aos caprichos do homem.  Nosso estilo de vida depende da exploração de recursos naturais. Nossa civilização é uma construção coletiva e histórica cujo corolário é a desnaturalização do homem. Tudo o que consideramos humano é resultante desse processo de desnaturalização: máquinas, aparelhos, tecnologias, enfim, que estabelecem uma clivagem entre humanidade e natureza. Uma contraposta a outra; uma competindo com a outra. Pensadores como Piotr Kropotkin já nos alertaram para uma característica: mesmo a natureza não é só competitiva, ela é também cooperativa. As várias formas de vida não só competem entre si como cooperam. Dotados dessa consciência podemos escolher entre atitudes competitivas e cooperativas. Nas filas dos supermercados, no trânsito, nos locais de trabalho, entre empresas, grupos populacionais. Creio que mais cooperação e menos competição é melhor para a humanidade. E chuva, chuva não é coisa má, que precisa ser detida com preces. Ela é boa e necessária. Não é, talvez, para quem constrói suas casas nas encostas. Está escrito na Bíblia para construirmos nossas casas em terreno firme. Tal recomendação vale também para nossas famílias. É firme a base sobre a qual constituímos nossas famílias? Estimulamos tanto a competição como a cooperação? Nossos filhos caminham a favor e contra o vento...



Escrito por Paulo Palladini às 20h32
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Feliz Natal leitores. Até 2012

 

Comecei o ano falando dos terremotos políticos que aconteciam no norte da África. E do meu receio de que derrubados os regimes despóticos outros mais cruéis ainda os substituíssem. Minha esperança era: as ditaduras caídas dariam lugar para regimes respeitadores dos direitos dos cidadãos. Estamos vendo que pode não ser assim. Democracia naquela região é um sonho ainda distante. Entrando em março eu falava de carnaval, da festa da alegria, e indagava: “Que tal um mundo onde as máscaras, acabada a festa, possam ser retiradas porque não estão pregadas na cara? Que tal uma festa em que a consequência maior seja a religação da alegria e não a gravidez indesejada, a contaminação pelo HIV, a overdose, o acidente fatal? Ainda em março, no dia 17, aconteceu o lançamento do meu livro – Patogênese, uma introdução ao pensamento de Anibal Silveira – na Sociedade Rorschach em São Paulo. Senti-me realizado como em poucos outros momentos em minha vida. Lá compareceram amigos de várias gerações, desde contemporâneos do Professor, como integrantes das equipes que trabalham comigo em Mococa. Também revi antigos colegas, alguns eu não via desde os anos de formação psiquiátrica. Trinta anos atrás. Ainda no mês de março escrevi A onda gigante, um texto tropicalista, de um jeito que gosto de escrever. Em maio lembrei a luta anti-manicomial (comemorada no dia 18), que ajudou a aprovar a lei 10.216, a lei da reforma psiquiátrica brasileira. Em dez anos de vigência os avanços foram muitos: milhares de leitos hospitalares psiquiátricos fechados e substituídos por serviços alternativos como os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e as Residências Terapêuticas (RT). Em Mococa, com apoio do poder público municipal e das Obras Sociais da Paróquia Santa Luzia, brevemente  teremos todos os serviços previstos pela reforma: Caps II para pessoas com transtornos mentais, Caps para crianças e adolescentes com transtornos mentais, Caps III para dependentes químicos, que funcionará 24 horas por dia, ininterruptamente, seis residências terapêuticas para ex-moradores de hospitais psiquiátricos, uma oficina de geração de renda para os usuários desses serviços. Poucos municípios do porte de Mococa contam com tudo isso.  Depois falei dos ex-presidentes Fernando Henrique e Lula; ambos fizeram o Brasil avançar. E  fui assistir no Coreto-encanto à apresentação do Berço do Samba de São Mateus. Em agosto noticiei a volta do pintor Fogaça para Mococa, depois de décadas tocando a carreira em outras plagas. Em setembro falei de crack a partir do caso concreto de uma jovem mocoquense. O governo federal, preocupado com o grave problema das drogas, anunciou grande investimento financeiro, político, policial e técnico no próximo ano. Os defensores da liberação da maconha talvez desconheçam que os traficantes iniciam crianças nas drogas oferecendo-lhes maconha misturada com crack. Elas não sabem disso. Depois de estabelecida a dependência, aí só crack. Como veem, a questão é complicada demais. Com tudo ainda tive tempo de prestigiar o lançamento de mais livros: o Carretel de Orfeu, de Getulio Cardozo da Silva em setembro, Marco Misterioso/ Chão e Sonho, de Assis Lima, em novembro, e  O Catador de Palavras, de Antônio Ventura em dezembro. Comemorei com Ana o nascimento dos três filhotes da nossa gata Petit. Aos leitores, que me acompanharam ao longo do ano, desejo um Feliz Natal. Até 2012. 



Escrito por Paulo Palladini às 23h08
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