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Todos os Cantos 287

O grande carnaval. Parte dois


Domingo de carnaval, 22 para 23 de fevereiro. Deu meia noite; cumprimento Ana, ela me cumprimenta. É nosso aniversário. Poucos casais têm esse privilégio de nascerem no mesmo dia. Nós temos. Cumprimentamo-nos há 27 anos. Em pleno carnaval. Desta vez estamos na avenida. Os três blocos da Liga Mocoquense estão passando. O público comparece. Unidos da Santa Cruz, Vira Virô e Fundão desfilam; fazem a festa. Está bonita: cores, brilhos, luzes, sons. Não é competição; os blocos apenas se apresentam. Capricho nas fantasias e coreografias. Vera, Ricardo Figueiredo estão lá. Pai e filho Miyashiro, e também Maciel e Markinhos fotografam tudo. Du Cirielli caprichou na organização. Mococa precisa fazer reviver seus carnavais. Du faz, e recebe homenagem da Santa Cruz, que também homenageia os dois outros blocos. Noite bonita, agradável. Encontro pessoas: Jeferson de Freitas, do jornal A Mococa  e sua mulher Jane, Heloisa, Mariana e a filha Anita, que resistiu aos acordes e ritmos madrugada adentro, Eliana e Robertinho da TV Direta, filhos, Helinho e Alessandra, dona Daminha, que já não teria idade para enfrentar uma avenida (mas enfrenta).  Abraço o prefeito Toni Naufel, o filho André, Broto Pinheiro e Tereza. Paula sai na Ala da Preguiça do Vira Virô. E muita gente vem perguntar se estamos bem, expressar solidariedade . Isso porque nas últimas semanas fomos vítimas de roubos. Duas vezes. Na primeira vez, domingo, dez horas da noite. Saio para visitar meus pais a duas quadras de distância. Cerca de dez minutos depois dois ladrões saltam o muro e abordam minha filha. Um deles portava um foião enferrujado. Dentro do aposento pedem para ela ficar quieta, pegam relógios, celular e o notebook, em que fazia anotações de trabalho naquele mesmo instante. Rapidamente pulam o muro de volta e desaparecem. Pouco depois Ana chega em casa e as duas saem para a rua. Da casa de meus pais aciono a Polícia Militar, que chega em poucos minutos. Passam a mensagem para outros carros, inspecionam o local, mas os larápios já haviam sumido na escuridão. Na delegacia o plantão registra a ocorrência. Voltamos para casa. Quinta-feira, 19, estou no consultório, despeço-me do último paciente do dia. São sete e quinze da noite. De repente ouço um grito desesperado. Entra na sala Cleusa, minha secretária, acompanhada de um homem. Ele aponta um revólver para a cabeça dela, e anuncia o assalto. Indica com a arma os lugares para nos sentarmos. Quer dinheiro e celulares. Entregamos o que temos. Observo que ele demonstra firmeza e controle da situação. Não faz questão de cobrir o rosto. Fala olhando nos olhos; deixa que eu faça o mesmo. Negociamos algumas coisas, percebi que era possível. Antes de sair arranca os fios dos telefones e alerta-nos de que precisa tempo para fugir, se não teria que fazer reféns. Asseguramo-lhe, que aguardaríamos quietos. Deixa-nos amarrados com fita adesiva e fios, mas acede num ponto: porta da sala aberta.  Pega a chave do meu carro, que estava estacionado em frente, mas ao fim abandona-a na mesa de entrada.  Desfazemo-nos das amarrações, ligamos para a Polícia Militar, que atende de pronto, e preenche outro formulário de ocorrência. Mais uma vez estou eu na Delegacia, relatando o novo episódio. Nos dois casos os ladrões portavam armas, e invadiram dois dos lugares mais sagrados para um cidadão: sua casa (domicílio inviolável) e seu trabalho. Lamentável. Porém, quantos casos como esses não são registrados todos os dias? E se nas ruas reina a insegurança, onde é que eu, cidadão mocoquense, posso me sentir seguro? Se alguém tiver a resposta, que responda.

                                                                             

Paulo Palladini



Escrito por Paulo Palladini às 17h54
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Todos os Cantos 286

O grande carnaval


O carnaval é sempre um reflexo e uma resposta às crises. E também é mais que isso. Desta vez não é diferente. Como fenômeno de criação coletiva e popular, o carnaval é sensível às temperaturas do mundo. Seus temas dialogam  com os acontecimentos. Suas cores, seus ritmos respondem às angústias contemporâneas. Nele a alegria é a prova dos nove, mas esta alegria é muitas vezes filtrada por máscaras negras. Quanto riso! Quanta alegria! Mil palhaços espalhados por todos os cantos ... na cadência bonita do samba. E das marchinhas, dos frevos, dos forrós, do maracatu. O carnaval encerra uma duplicidade de sentimentos: a alegria que não cabe em si e a tristeza ensimesmada. Como a alegria e a tristeza são sentimentos universais todos deles compartilham e desfrutam. Mesmo aqueles que não gostam de carnaval, os que não trocam passos numa avenida nem fazem balançar o chão da praça. E até aqueles que tão somente malentoam uma débil mamãe eu quero na clarineta. Esses, ao meu ver, são tão carnavalescos como os frenéticos-dos-salões e os corpos-suados dos blocos e os ritmistas mais entusiasmados. A dança é um fenômeno da mente, tanto quanto é do corpo. Portanto, não menosprezemos aqueles que aparentemente estão parados. Há ritmo e alegria dentro neles. Só falta agitar os braços e abrir o peito. Agora, se o carnaval tem um lugar esse lugar é a rua; as praças e avenidas. Todas as praças Castro Alves são do povo. Quando compreendermos isso em todos os seus sentidos, afastaremos o horror e a violência que associamos a esses lugares.  Como se fossem territórios do inimigo. Aumentamos muros, trancamos portas e janelas, instalamos alarmes e cercas eletrificadas. Transformamos nossas casas em jaulas douradas para melhor cultivar o medo. Ponho vendas em meus próprios olhos; não quero ver o que se passa na rua. No máximo observar de longe, através da tele-visão como um espia, confortavelmente instalado em minha poltrona. Já há muito deixamos de ver o outro como um irmão. Se o inferno são os outros, o diabo é um outro. Um não-irmão. É por isso que o diabo está mais forte do que nunca. E mais perto. Isso não tem nada a ver com o carnaval. Carnaval é simplesmente o reinado da folia. E todos precisamos de folia. Fruição: para além das responsabilidades que a nossa vida social encerra ao peito varonil. Pelo que também sei o diabo não tem nenhum humor. Nenhum espírito zombeteiro. O bicho é, mas muito é mal humorado. Não tem nada a ver com carnaval. Sua sisudez cinzenta não combina com o riso, contentamento, os gestos largos, a paixão.  Mas no carnaval ele deixa mostrar o rabo, como a crise mostra a crise. Máscaras de Osama e Obama dividem espaço nas bancas com outras personalidades mais ou menos notórias. Assim misturadas ela mostram mais do que fazem parecer. Assim misturadas elas são as duas faces da mesma moeda. Junto com Emilinha Borba, Jamelão, Getúlio Vargas e Napoleão ferido, entre outros, eles vão descer a avenida do povo unido jamais vendido, e entrar na folia ao som de todos os pandeiros. Saudemos, portanto, a empreitada, como se bandeiras fossem, e os personagens, intrépidos bandeirantes de casaca, remando a favor num Rio Tietê de águas mais que cristalinas. Do alto da minha poltrona eu vos saúdo: blocos, cordões, escolas de samba, passistas, carnavalescos, reis momos, tambores, cuicas, tamborins, trombones e fantasias, que fazem dessa alegria incontida, o grande carnaval.

 

Paulo Palladini



Escrito por Paulo Palladini às 00h47
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