Todos os Cantos 289
Tornar-se personagem de Maurício de Souza não é para qualquer um. O famoso criador da Turma da Mônica, sabemos, inspira-se em gente de carne e osso para suas criações. A própria Mônica é exemplo disso, filha de Maurício. Pois não é que um médico, amigo nosso, ganhou sua estampa nos famosos quadrinhos? Ele, conceituado cirurgião plástico de São Paulo, Paulo Toyosi Nishimura, virou o Doutor Meximuda no traço de Maurício de Souza; um médico que orienta as crianças como evitar uma série de perigos presentes no lar. Dr Meximuda é apresentado pela Turma da Mônica no mesmo formato das revistas vendidas em bancas, e contracena com Cebolinha, Magali, Cascão, Anjinho. Pratica uma forma eficaz de medicina preventiva, lançando mão de um veículo de grande penetração e poder. Num dos episódios publicados - Perigo na cozinha - Mônica e Magali vão à casa da tia Nena. Lá quase que Magali se queima com uma panela quente. É salva pelo Anjinho. Noutro Franjinha constrói um robô para azucrinar a Mônica, mas Cebolinha, imprudente, faz tudo voar pelos ares, quando pega nos fios desencapados. Em outro, ainda, o próprio Dr Meximuda vai à sala de aulas falar com as crianças sobre os riscos de queimaduras. O Doutor Nishimura é um dos grandes cirurgiões plásticos brasileiros, aperfeiçoou técnicas e foi pioneiro em muitos procedimentos. Sua clínica, em área nobre da Alameda Lorena, é concorridíssima. Estivemos (eu e Ana) com ele em janeiro. Há muito que não nos víamos. Fomos maravilhosamente recebidos pela sua mulher, Neide, também médica e sua colaboradora, e tivemos oportunidade de rever seus filhos. Um deles, seguindo os passos do pai, iniciou nesse ano especialização em cirurgia plástica na clínica do Doutor Pitanguy no Rio. A sala de espera da clínica guarda uma autêntica vestimenta de samurai. Várias espadas estão espalhadas pelos vários cômodos. A escrivaninha é repleta de papéis, prontuários de pacientes e fotos da família. Uma estante contém livros e anais de congressos médicos. Maurício foi muito feliz em nomeá-lo Doutor Meximuda. Quando ele mexe, muda mesmo. Deixa as pessoas mais bonitas. Que bela profissão essa que deixa as pessoas mais bonitas. Eu comparo a cirurgia plástica com a psicoterapia. Ninguém precisa estar doente para procurar uma ou outra; o que ambas se propõem é melhorar as pessoas: a primeira fisicamente, a segunda psiquicamente. Mas quem disse que uma melhora física não melhora a psique e vice-versa? Quando falamos hoje em dia em procedimentos como dermatologia e odontologia estéticas, reeducação alimentar e postural, condicionamento físico, meditação, yoga, e uma infinidade de outras práticas, o objetivo é prevenir doenças, preparar melhor para as dificuldades, envelhecer com saúde e vontade de mais vida. Prevenir é sempre melhor que remediar, não é? Pois hoje há conhecimento científico abundante e disponível para qualquer pessoa crescer e envelhecer bem. E também melhorar, isto é, ir além do que a natureza dá, tornando mais bonito o que já é bonito. É isso que faz o Doutor Nishimura. Mas também é preciso prevenir os acidentes. Sabemos que a quase totalidade dos acidentes com crianças são domésticos - queimaduras, cortes, fraturas, intoxicações - e podem ser evitados com cuidados simples. É isso que vem nos alertar o fantástico Doutor Meximuda, o amigo das crianças, que Maurício de Souza tão bem soube caracterizar. Reparar uma cicatriz ou uma deformação física adquirida na infância é muito mais difícil, que evitá-las. Contudo, sempre pode melhorar. E o Doutor Nishimura está aí para provar. Paulo Palladini
Escrito por Paulo Palladini às 21h43
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Todos os Cantos 288
Desde os dois roubos, de que fui vítima no mês passado, tenho refletido um pouco mais profundamente sobre a insegurança em que vivemos. É natural. Mesmo porque, esse é um caso, em que o raio pode cair mais de uma vez no mesmo lugar. Conversando com as pessoas a gente vai se inteirando melhor do grau de insegurança que atingiu a cidade. É difícil não pensar que a classe média foi entregue à sua própria sorte. Embora os policiais sejam gentis e prestativos, guardo a impressão de que estão sempre correndo atrás dos fatos. Na verdade ninguém com quem conversei se sente seguro seja dentro ou fora de casa, no trabalho ou no lazer. Durante muitos anos atendi no consultório até as 21h00; depois ainda fazia uma caminhada noturna. Alguns colegas chegaram a me alertar para os riscos; não é prudente trabalhar até tarde, não é prudente caminhar à noite. Agora, depois das ocorrências, reduzi o tempo de consultório, saio mais cedo, atendo menos pacientes. Não quero me expor nem expor funcionária e clientes à violência. Mas também não sei se isso adianta. Os conselhos que mais ouvi nestes dias podem ser condensados num só: aumente sua segurança pessoal. Isto é: instale alarmes e câmaras, portas eletrônicas, grades nas aberturas, cercas eletrificadas. Contrate segurança particular. Ninguém me aconselhou a procurar o poder público. Afinal, um dos direitos básicos dos cidadãos é a segurança. Se não posso andar tranquilamente pelas ruas da minha cidade, nem me sentir seguro dentro da minha própria casa... Que fazer? Vejamos o absurdo: é o bandido que determina como devo trabalhar, em que horários ou condições. Esta é uma inversão completa da lógica e do bom senso. Bom senso hoje é ficar quieto e ir embora mais cedo. Isso é inaceitável. Mudo meus hábitos para não ficar exposto à violência. Ninguém pode me oferecer uma palavra tranquilizadora sobre isso. A sensação térmica é de criminalidade crescente, uma verdadeira escalada do crime. Roubo à mão armada passou a ser coisa corriqueira. Para me defender devo em armar também? Não creio, a polícia é o braço armado da sociedade em defesa do cidadão. Quero acreditar nisso, quero confiar nessa assertiva. Cabe aos governantes proteger os cidadãos. E o fazem. Mas se as ações dos poderes públicos não se tornam visíveis os criminosos ficam cada vez mais ousados. E indiferentes à dor do outro. No belo filme de Tim Robbins, Os últimos passos de um homem, interpretado por Sean Penn e Susan Sarandon, o criminoso nega até o derradeiro instante ter cometido os assassinatos. Minutos antes de ser executado por injeção letal, ele admite sua culpa. O sofrimento que causou àquelas famílias foi imensurável, tanto pelo crime horrível com pela indiferença demonstrada. A indiferença para com o sofrimento do outro é um dos traços dessa criminalidade, que se torna psicopática. É a marca da maldade. Anteontem vi pela TV o caso de um casal, que fora assaltado no Rio. Por alguma razão, se é que tinha alguma, os bandidos empurraram o casal por uma ribanceira. Ambos se salvaram, mas que ponto atingimos! Vamos afundar mais ainda? O músico Marcelo Yuca, que ficou paraplégico durante um assalto anos atrás, foi novamente surpreendido por ladrões, quando manobrava seu carro. Eles não acreditaram que ele é deficiente físico e o espancaram e arrastaram para fora do veículo. Deixaram-no estendido no chão. E ele sem poder se mexer, metade do corpo paralisada... O que é isso companheiros? Só nos resta reclamar, ou nem mais isso?. Paulo Palladini
Escrito por Paulo Palladini às 21h42
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