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Todos os Cantos
 


Todos os Cantos 291

Indignação  e  cara-de-pau

 

A semana foi das mais movimentadas, muitas coisas acontecendo e sendo noticiadas ao mesmo tempo. No mundo, no Brasil, na minha cidade, no meu bairro. A banda Filarmônica Mocoquense apresentou-se na Praça Ferdinando Giorgi, Jardim Morro Azul, onde moro: uma agradável manhã de domingo, os vizinhos todos ali, passeando com seus cachorros, num clima bem descontraído. Encontro pessoas que não vejo há muito tempo: uma se recupera de delicada cirurgia, outra conta que o filho terminou a faculdade (medicina), outra perdeu o cachorro em movimentada rua de São Paulo (no dia seguinte, felizmente, reencontrou-o). Enquanto conversamos a Filarmônica executa alguns números do seu repertório (centenário). Carlos Spina é o quinto maestro da banda fundada por Pedro Ângelo Camin em 1892, todos eles de origem italiana. Acho isso uma bela tradição. Mas a banda está ali por enfrentar dificuldades financeiras. Falta dinheiro na sua caixa. Encontro Antônio Ventura, diretor de Cultura do município, que confirma a falta de dinheiro. Pergunto da Casa da Cultura, cuja reforma está em fase final. Ele diz que o maior problema vai ser  mobiliá-la e equipá-la. Difícil está o início da administração do prefeito Toni Naufel. Político e administrador experiente, penso que ele logo encontrará o jeito. Tenhamos um pouco de paciência. O Brasil sofreu um pequeno abalo com as notícias de Brasília e de algumas outras cidades. Refiro-me ao caso do Congresso Nacional e aos casos de pedofilia, que, parece, multiplicam-se em série. Não que um tenha a ver com o outro.  O Senado descobre que tem pencas de cargos de direção, todos ocupados por indicação política dos nobres senadores. Incrível!  Nenhum  deles declarou saber algo a respeito. Todos, todos indistintamente   se   mostraram  indignados,   portando aquela mesma cara-de-pau que nunca nos cansamos de eleger. Aí aparece o deputado Clodovil Hernades, em entrevista póstuma, e diz que o Congresso é a cara do Brasil; que não gostamos é mesmo de trabalhar, e por isso elegemos esse tipo de gente. Será? Gostaria de ouvir outras opiniões. Uma coisa é certa: a democracia permite eliminar os muito canalhas dos poderes executivos e legislativos. Porém, não impede que elejamos outros iguais ou piores. Do outro lado da linha do Equador o presidente norte-americano Barack Obama decide fechar a prisão de Guantânamo, assombra-se com os executivos da seguradora AIG, que não querem largar o osso, e dirige-se de modo aberto e respeitoso ao governo e  povo iranianos. Bom começo. Vamos aguardar os próximos movimentos desse presidente diferente: ele não tem cão nem gato para levar para a Casa Branca. Notícias sobre casos de pedofilia, incestuosos ou não, ocupam grande espaço nos jornais. Aumentaram as ocorrências ou as denúncias? Parece que ambas. Porque a pedofilia é o exemplo acabado do afrouxamento moral. Romperam-se as barreiras do respeito. Jovens não respeitam os mais velhos, estes abusam dos mais jovens. Traficantes recrutam adolescentes de ambos os sexos, quase crianças, para trabalhar. Lugar de criança é na escola, mas a escola que lhes é oferecida é a do crime. Dentro dos lares não tem mais pai nem mãe. E a responsabilidade pela educação dos filhos é transferida para a escola, cuja tarefa é nobre, mas com certeza não é substituir uma autoridade paterna inexistente.

 

Paulo Palladini



Escrito por Paulo Palladini às 21h42
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Todos os Cantos 290

A lei 10.216. Reforma contra a morte social

 

O movimento que culminou com a lei da Reforma Psiquiátrica aprovada pelo Congresso Nacional em 6 de abril de 2001, foi um dos mais importantes movimentos sociais dos últimos tempos no Brasil. Congregou vários segmentos da sociedade brasileira em torno da questão. Em nenhum outro momento histórico o tema foi mais discutido que nos 12 anos em que o projeto do deputado federal Paulo Delgado, de Minas, tramitou no parlamento. Em nenhum outro momento o modelo de assistência psiquiátrica centrado no hospital especializado foi tão duramente questionado. E em nenhum outro momento alternativas viáveis à hospitalização foram apresentadas. Todos os interessados tiveram oportunidade de participar. Regiões compostas por um grupo de municípios fizeram conferências regionais de saúde mental; os delegados indicados nessas conferências reuniram-se nos estados. Os delegados estaduais representavam cada Estado da Federação nas conferências nacionais. Desse modo, uma organização social ou profissional de saúde mental que possuísse uma experiência peculiar, ou tivesse desenvolvido uma forma especial de atenção ou de abordagem dos problemas psíquicos, tinha chance de ver sua idéia reconhecida e incorporada à reforma psiquiátrica, que se construía. A reforma psiquiátrica brasileira foi uma construção coletiva. Logo depois de apresentar o projeto ao Congresso Paulo Delgado percorreu o País em busca de alternativas ao internamento psiquiátrico. Pois, em princípio, ele propunha a proibição da construção de novos hospitais, a desativação dos existentes e sua substituição por uma rede alternativa de serviços. Mas, que serviços seriam esses? Percorrendo o Brasil ele foi descobrindo inúmeras experiências, algumas ligadas à universidade, outras a organizações não governamentais, outras ainda ao poder público, que correspondiam ao que procurava: atenção humanizada aos que sofrem com transtornos psíquicos, sem segregar, discriminar ou isolar. Pelo contrário, inúmeras iniciativas davam tratamento digno e respeitoso, reintegrando os pacientes psiquiátricos à vida social, ou evitando sua desintegração.  Reabilitação psicossocial passou a ser uma expressão forte e significativa. Resumia grande parte do que se fazia, e ainda se faz, no campo da saúde mental. Os locais são múltiplos: uma comunidade terapêutica, um centro de convivência, um  ambulatório, uma oficina ou residência terapêutica, um lar abrigado, um centro de atenção psicossocial. As intensas sessões das conferências deram forma ao esboço que era o projeto de lei original. Os grandes interesses  econômicos, que sempre cercaram a questão da doença mental, finalmente cederam, para que se pudesse olhar para essas pessoas, e ver o que elas são: seres humanos, cujo sofrimento se intensifica, e muito, através do abandono, da segregação, do isolamento, da exclusão. Seres cuja morte física apenas encerrava um longo e doloroso processo de morte social.                                          

Paulo Palladini



Escrito por Paulo Palladini às 21h40
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