Todos os Cantos 308
Legislação ambiental avança
Na semana passada afirmei aqui, minha vontade de uma lei que fizesse manter de pé a bicentenária figueira do Jardim Morro Azul. Por ela luta a Associação dos Moradores desse bairro, entre os quais me incluo. Hoje leio em A Mococa que a cidade busca certificação como Município Verde pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente. Muito bem! Isto significa que seus cidadãos querem viver num lugar limpo e despoluído, e que se preocupam com a qualidade do ar que respiram, da terra onde pisam, do alimento que comem, da água que tomam. Pronto – pensei – era o que faltava; nossa figueira está quase salva. O prefeito Toni Naufel, sensível à questão ambiental e ciente dos instrumentos legais necessários para evitar a devastação de preciosos recursos naturais, enviou à Câmara de vereadores vários projetos de lei. Os edis, mocoquenses que respiram do mesmo ar e tomam da mesma água que todos nosotros, transformaram os projetos em leis. Assim foi criado o Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente, o Comdema pela lei n° 3927 de 3 de setembro de 2009. Cumprimento-os por isso. O Conselho vai zelar pela divulgação e cumprimento de todas as normas relativas à proteção do nosso patrimônio natural e cultural. É ele que vai deliberar sobre os licenciamentos ambientais no município. É isso aí. Em outro ato o prefeito mudou o nome do Departamento de Agricultura e Abastecimento para Departamento de Agricultura, Abastecimento e Meio Ambiente, sinalizando que o poder público municipal vai centralizar o cuidado ambiental em um de seus órgãos. E para provar que a semana foi mesmo do meio ambiente, outras leis foram aprovadas pela Câmara e sancionadas pelo prefeito. Uma institui a política municipal de proteção aos mananciais de água, destinados ao abastecimento público. Temos o privilégio de habitar uma região provida de água de boa qualidade e quantidade suficiente. Aqui não falta água. Mas se estragarmos nossos rios vai faltar sim. Um dos pontos chave da lei é a proibição de lançar efluentes urbanos e industriais em qualquer corpo de água sem tratamento. Essa é a questão: água servida não pode ser despejada diretamente nos rios, sem que passe por um processo de depuração. Como o lixo não deve ser jogado em qualquer lugar, principalmente nas portas dos outros. Mococa já dispõe de estação de tratamento de água e a lei, agora, garante devolução de água limpa para nossos rios. Falta cuidar melhor do lixo. Por obra de outra lei, também aprovada em 3 de setembro - n° 3924 – toda construção no município só será autorizada se utilizar madeira legalizada. Mais um avanço. Os alvarás que a Prefeitura emite condicionarão a concessão do “habite-se” à comprovação da origem da madeira. A partir de agora construir em Mococa só com madeira de origem legal. Só madeira de lei. Tem mais. Os loteamentos serão obrigados a apresentar projeto de arborização contendo número de espécies de árvores a plantar, tamanho das plantas e responsabilidade por sua manutenção. O loteamento só será aprovado depois de apreciado pelo Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente. Para ser certificada como Município Verde a cidade precisará intensificar sua arborização urbana. Com esse sol africano sobre nossas cabeças, como costuma falar Ana, parece absurdo obrigar o povo a plantar árvore. Esse deveria ser um ato espontâneo por parte da população. Mas não é. Alguém é capaz de derrubar uma árvore porque as raízes danificam a calçada ou porque folhas caem de seus galhos. Tal atitude corresponde, para mim, à do sujeito que abaixa o vidro do carro, e atira uma lata vazia de cerveja. Ora! Leis são expressões de desejos coletivos: árvores em todas as ruas e praças, todos os espaços. Esse é um projeto que o novo Conselho já pode apreciar. Paulo Palladini
Escrito por Paulo Palladini às 18h21
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Todos os Cantos 307
Voltei. Depois de quase três meses afastado dessas páginas. Os leitores, obviamente, estranharam minha ausência. Alguns me perguntavam nas ruas, outros por correio digital. Desapareci sem deixar vestígio. Nenhum problema. Apenas a dificuldade de conciliar várias atividades ao mesmo tempo. Quando isso acontece, muitas vezes acabamos por sacrificar o que mais gostamos. Esse é o caso. Gosto de escrever, gosto do contato semanal com os leitores, gosto de suas indagações e confirmações. Então, há dias, senti forte desejo de voltar, retomar tudo isso. Mesmo com dificuldade. Na semana passada encontrei Carlinhos Munhoz. Ele me disse: Você é o titular da ponta esquerda, quando quiser voltar é só avisar. Voltei, não na ponta esquerda, mais para meiocampista, discretamente inclinado para a esquerda. Marina. E aqui, digitando esse texto, deparei-me com a entrevista da senadora Marina Silva na revista Veja. Fui tocado pelas suas palavras, principalmente quando delineou seu projeto político, expressando o desejo de ser uma “mantenedora de utopias”. Alinhou os mantenedores de utopias que foram referência para ela: Chico Mendes, Florestan Fernandes, Paulo Freire, Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso. Ponderada que é ela não rejeita a política atual pelo ângulo da moralidade, mas pelo modelo de progresso que destrói a natureza. Quer para o país e para o mundo um “desenvolvimento sustentável”. A senadora Marina reafirmou-se como mulher de fé, mas que aceita os resultados das pesquisas científicas: “Não é preciso contrapor a ciência à religião”. Grandes são aqueles que alçam o olhar e enxergam longe. Marina enxerga longe. Coelho de Moraes. Outra entrevista que li na semana foi a de Coelho de Moraes para A Mococa. Ativista cultural multimeios ele está lançando o livro Marcus, o imortal, um presente para os leitores em PDF. Já está disponível na internet. Segundo o autor, também estudante de filosofia, o livro é uma obra de ficção ambientada na Idade Média, e serve de introdução “no universo da reflexão filosófica”. Coelho de Moraes chama nossa atenção para esses novos meios e compara: um livro digital pode conter até 200 livros impressos em papel. Toda a sua biblioteca pessoal de 2000 livros caberia em apenas 10 desses e-book. Menos papel, menos árvores abatidas. Ele acredita que o “livro-fetiche” - de papel – esteja com os dias contados. Na Fatec, onde desenvolve seu trabalho, Coelho fez duas coletâneas de livros falados, com fundo musical de sua autoria ( Ele também é músico, compositor, maestro). Marco Antônio, o imortal. Prometo lê-lo. Construir um bandoneon. Los hermanos criaram o tango, os alemães o bandoneon. Dezenas de milhares desses instrumentos foram importados pela Argentina, e deram fôlego ao desenvolvimento do tango. Um ficou indissociável do outro. Os mais conhecidos músicos de tango são bandoneonistas. Acontece que os vizinhos não fabricam os instrumentos e, com o tempo, estes começaram a escassear, vendidos para turistas e colecionadores europeus e japoneses. Por isso los hermanos querem transformar o bandoneon em patrimônio cultural. Estão discutindo uma lei para proteger o instrumento. Oscar Fisher, presidente da Casa do Bandoneon, foi além: resolveu produzir um, só para provar que isso é possível: “enquanto muitos argentinos apostam em ganhar dinheiro com o dólar, eu aposto em construir um bandoneon”. Figueira. Ante meus olhos passaram muitas figueiras. Todas foram derrubadas, em nome de alguma lei. Há leis de amparo para todos os derrubamentos. A majestosa árvore do Jardim Morro Azul tem mais de 200 anos. Quero uma lei que a faça parar de pé. Paulo Palladini
Escrito por Paulo Palladini às 18h20
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Todos os Cantos 306
Vamos falar de novela. E de cultura. Uma coisa não tem, necessariamente, a ver com a outra. Mas pode ter. Raramente assisto novela pela TV. Por chamamento de Ana e sugestão de algumas outras pessoas, comecei por ver Caminho das Índias, na Globo, dirigida por Glória Perez. A trama já corria solta com suas doses de malandragens e perversidades. Tudo muito exagerado; enfim, é novela. Parece-me que não há uma trama central. São múltiplas as tramas; tentam compor um painel do mundo contemporâneo. Globalização, questões étnicas e culturais, as várias formas de famílias, sua coesão e dissolução, questões relativas à mulher, às minorias, discriminação, classe média e criminalidade, pais rígidos, pais tolerantes, pais complacentes, pais perdidos. Tem mais: casamentos multiculturais e multirraciais, o medo do estrangeiro, do que é estranho. Têm também os tradicionais golpes, as falcatruas, as sacanagens (tudo por causa de dinheiro, claro). Algumas formas de loucura também são tratadas na novela. O jovem Tarso é o personagem da mais evidente delas. De modo geral a novela situa-se nos marcos da reforma psiquiátrica. Isso é bom. Valoriza os ateliês e as oficinas terapêuticas, os aspectos positivos e criativos dos pacientes, suas iniciativas, inclusive na busca de ajuda terapêutica. Nise da Silveira, das mais importantes psiquiatras brasileiras, corajosa e premonitória na abordagem das desordens mentais, é bem citada. Portadores de transtornos viram atores, outros dão depoimentos. Em maio aconteceram as Olimpíadas de Saúde Mental, em Casa Branca, em comemoração ao 18 de maio: Dia Nacional da Luta Antimanicomial. Mais de 40 equipes, milhares de atletas. Mococa participou de todos os torneios até hoje, desde o primeiro. Em 2009 fomos com duas equipes: uma do Caps-ad, outra da Oficina Terapêutica. Durante o evento, eu estava fotografando, quando uma jovem se aproximou, disse chamar-se Shirlei e ser usuária de um serviço de saúde mental de São Paulo; iria participar da sessão de videoquê. Pediu que a fotografasse enquanto cantava e remetesse o retrato para ela. Assim fiz. A foto ilustra este artigo. E foi justo ela quem apareceu durante a semana, num dos capítulos da novela Caminho das Índias, dando seu depoimento. Na trama Tarso representa o paciente psicótico típico; sofre com sua loucura, ouve vozes que o atormentam e o induzem a fazer coisas contra sua própria vontade. Desenvolve delírios que ninguém compreende. Incompreensão maior vive dentro de casa: um pai distante imerso no trabalho, uma mãe cega para os problemas do filho. A doença dela é não ver o que se passa com ele, é não permitir que ele cresça, é justificar sempre sua conduta, é não aprofundar, viver na superficialidade e frivolidade. Os profissionais, encarnados no psiquiatra Dr Castanho, não são figuras super-humanas. Ao contrário, apresentam-se humanas até demais, tanto em como vivem suas vidas, como por seus dilemas, falhas, perplexidades. Dr Castanho, quando fala da psiquiatria, fala em tom didático, instruindo o telespectador. Como quando explicou as características de um psicopata, a personagem Ivone, que para muitos passaria, simplesmente, por uma pessoa maldosa. É muito mais que isso. Aliás, essa é a forma de loucura mais perigosa, muito mais que a psicose do Tarso, que chegou a atirar em Murilo. Os psicopatas são perversos e dissimulados. Escondem suas intenções, fazem-se passar por pessoas boas e amigas, quando na verdade estão escondendo suas garras. Só vão mostrá-las quando a vítima, cuidadosamente escolhida, já não poderá mais se defender. Assim agem os psicopatas. Como são inteligentes e controlados, conseguem disfarçar seus atos. Há muitos deles soltos por aí, não é, Dr Castanho? Paulo Palladini
Escrito por Paulo Palladini às 18h19
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Todos os Cantos 305
Falar da violência
Como um pedaço de bolo de nozes. É uma daquelas noites frias. A calma do meu escritório contrasta com a inquietação que me toma o interior. Que falar da violência? Que palavras, que idéias são apropriadas a este momento? Todos parecem ter fórmulas contra a violência, mas o fato é que a perplexidade tornou-se geral. Ninguém sabe o que fazer. E em situação assim, a que o psiquiatra e filósofo alemão Karl Jaspers denominou situação-limite, que o ser humano pode revelar, arrancando de seu âmago, a forca criadora. Quando todo o conhecimento se esgota, quando todos os meios se mostram inadequados, surge aquela última liberdade, que é a única resposta possível. Só posso acreditar na criatividade para fazer frente às manifestações do lado mais perverso da condição humana. Já não cabem mais respostas prontas, lemas desgastados, chavões, frases feitas. Não basta evocar os direitos de cidadania e as liberdades democráticas. Tudo isso é insuficiente. A austeridade à moda antiga também já não funciona mais. Estamos desorganizados. E o crime organizado prospera especialmente em sociedade que se desorganiza. Durkheim usava a palavra anomia para caracterizar a ausência de regulamentação da vida social em períodos de crise, quando faltam regras pactuadas e os cidadãos ficam ao sabor do individualismo e da confusão. Mais ou menos uma situação do tipo: cada um por si ou salve-se quem puder. Somos pacíficos demais para suportar tanta violência. Ou não haveria tanta violência real? Ou tudo não passaria de pura ilusão, maquiavelismo midiático para manter a classe média assustada? O binômio segurança/insegurança precisa entrar na pauta pra valer; se-ri-a-men-te. De nada adianta, afirmam-nos, blindagem, colete, alarme ou cerca eletrificada. O banditismo esta aí para vencer em todas as camadas sociais, em todas as classes operárias e burguesas. Acintoso desafio às autoridades, justo aquelas autoridades que foram investidas do poder pelo voto popular. Nada mais perverso para a afirmação democrática do que o assassinato político, que é a negação do diálogo, do livre fluir das idéias. Há os que querem fazer calar e os que se aproveitam disso. O momento é delicado e recomenda cuidado, principalmente quanto a falsas soluções. Não penso que haja uma solução fácil. Mas criatividade e bom senso só podem fazer bem. É preciso entender que a violência, como a AIDS e as drogas, não acontece só com o vizinho. Ninguém está vacinado contra nenhuma delas. Por isso não é um problema só do governo ou da polícia. O governo precisa dar respostas rápidas e inspirar a confiança dos cidadãos; estes precisam cooperar e indicar que não mais toleram tais níveis de violência na sociedade. Paz não pode ser apenas uma bela palavra num cartaz. Precisa impregnar o cotidiano do cidadão comum nas relações de todos com todos. Paulo Palladini
Escrito por Paulo Palladini às 18h17
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Todos os Cantos 304
Fui ao Forum no CRCB (Centro de Reabilitação de Casa Branca), no último dia 19. O tema era saúde mental e direito. Duas falas: Regina Bichaff e Haroldo Caetano da Silva. Ela é a coordenadora da área de saúde mental da Secretaria de Saúde de São Paulo; é quem coordena todas as ações de saúde mental da rede pública no Estado. Ele é promotor do Ministério Público de Goiás; ordena seus atos pela lei 10.216, a lei da reforma psiquiátrica. Ambas as falas foram muito claras. Posturas bem definidas a respeito de quem sofre de transtorno mental: são pessoas antes que doentes, cidadãos antes que delirantes. O trabalho do promotor Haroldo é admirável. Criou em Goiânia, em 2006, depois estendido a todo o Estado de Goiás, um programa chamado PAILI (Programa de Atenção Integral ao Louco Infrator). Uma equipe formada por psiquiatra, psicólogos, assistentes sociais, advogados, representantes do Ministério Público, faz a articulação entre órgãos da Justiça, da Saúde e sociedade em geral, para aplicar as medidas de segurança a quem comete delitos na vigência de algum transtorno mental. Tudo de acordo com a lei 10.216. Assim, se a lei diz que o tratamento de um paciente psiquiátrico deve ser realizado em serviço comunitário e não em hospital psiquiátrico, é para um serviço comunitário que o paciente é encaminhado. Se a lei diz que é proibido internar qualquer pessoa em instituição com características asilares, os chamados manicômios, o PAILI encaminha os pacientes que cometem crimes para um hospital psiquiátrico comum, onde recebem tratamento, não castigo. O que o grupo do promotor Haroldo faz é aplicar os dispositivos do Código Penal à luz da lei da reforma psiquiátrica, que é de 2001. O PAILI encaminha e acompanha o paciente durante todo o tratamento até o término da medida de segurança. Se esta foi fixada em 12 meses, vencido o período, a pessoa é liberada. A equipe do PAILI não trabalha com prognóstico, tentando adivinhar o grau de periculosidade e como determinada pessoa irá se conduzir no futuro. Mesmo porque esta é uma missão impossível na área da saúde mental. A fala de Regina Bichaff também foi focada na reforma psiquiátrica, mas a partir da posição da secretaria estadual da saúde. Um dos pontos destacados por ela foi o censo psicossocial de moradores em hospitais psiquiátricos de São Paulo realizado no ano passado, e que identificou 6.349 pacientes internados há mais de um ano. O Estado assumiu o compromisso de desinterná-los e restituí-los às comunidades de origem. Aqueles que perderam os vínculos familiais serão acolhidos em residências terapêuticas. A coordenadora Regina virá a Mococa discutir os projetos de saúde mental do município, principalmente a construção de novas residências terapêuticas. Pelo Censo existem ainda 26 mocoquenses moradores em hospitais psiquiátricos. A ordem é que cada comunidade cuide de seus membros. Mesmo que esse membro seja um paciente psiquiátrico abandonado pela família num hospício. Ele pertence a uma comunidade; nossa tarefa é resgatá-lo, e oferecer-lhe uma oportunidade. Paulo Palladini
Escrito por Paulo Palladini às 18h16
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Todos os Cantos 303
Tudo se relaciona. A tese é discutida no livro de Leonardo Boff, O Despertar da Águia (Editora Vozes); retomada e aprofundamento de A Águia e a Galinha. O fato de figurar na lista dos livros mais vendidos é indicativo da forte demanda por esse tipo de reflexão. Em suas páginas Leonardo vislumbra o surgimento de uma nova civilização “mais sintonizada com a lei fundamental do universo que é a panrelacionalidade, a sinergia e a complementaridade. Será a civilização da re-ligação de tudo com tudo e de todos com todos”. O pensamento não é original, mas é retomado aqui com muita clareza e como uma saída ( a saída) possível para nossa civilização sem horizontes, dominada por tanatos, o instinto de destruição. Quando fala em globalização, por exemplo, Boff acentua a tônica competitiva, que envolve esta sociedade mundial na atualidade e assevera que ela dará lugar a uma globalização cooperativa, “estruturada ao redor da produção do suficiente para todos”. Segundo sua análise, as bases sobre as quais se assenta a globalização competitiva de hoje são poderosas, mas caóticas, excludentes e destrutivas. Deverão dar lugar a outro processo, mais integrativo, inclusivo e construtivo. Porque homem e universo constituem-se dialeticamente e esta dialética implica no reconhecimento das pessoas, em qualquer parte do mundo e sob qualquer condição social, como “sujeitos de direitos incondicionais” e sob o signo da “compaixão universal”. Para Boff esse processo deve instaurar novas relações entre os homens, “não mais na forma de dominação/exploração sobre as pessoas e a natureza, mas na forma da mutualidade e da colaboração entre todos os povos”. Miragem? O próprio autor faz o alerta: “ou criamos nova luz ou vamos ao encontro das trevas”. O planeta sofre terrivelmente o esgotamento irresponsável dos recursos naturais. Várias espécies animais e vegetais estão em extinção, áreas gigantescas de florestas são dizimadas e desertificadas. O lixo, cada vez mais perigoso, pois mais tóxico, acumula-se em amontoados sem fim. As grandes cidades já não têm onde colocar suas milhares de toneladas de lixo produzidas diariamente e a água envenenada constitui um dos grandes desafios futuros. Há esperança? Boff responde: sim. E completa: nos insatisfeitos com a situação atual, nos portadores dos sonhos e utopias, naqueles que “irradiam uma nova vitalidade em tudo o que pensam, projetam, fazem e celebram”. Nos que ousam organizar suas vidas em torno de certos valores e práticas, em certa “veneração do Mistério”. Essas pessoas existem e estão espalhadas por toda a superfície da terra, trabalhando na edificação da nova civilização planetária, sob o signo da solidariedade, do respeito e da valorização de cada ser. São águias, e começam a preparar o vôo. Paulo Palladini
Escrito por Paulo Palladini às 18h15
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Todos os Cantos 302
O dilema costumeiro diante de uma folha de papel em branco. É o mesmo dilema do pintor diante da tela ou do escultor diante de um bloco de granito. Ou do arquiteto e sua prancheta. Escrever não é fácil. O processo criativo é trabalhoso por si só. Eu, que escrevo sobre acontecimentos, meus e do mundo, ainda sinto algum conforto. Mas tem gente que escreve para exorcizar seus demônios. Há quem escreve para se reconciliar com o passado, reconhecer alguma falta. E há também quem o faz para se defender, acusar alguém, denunciar, ou enaltecer e louvar. E tem os porta-vozes, os médiuns, que só dão forma aos personagens que trazem dentro de, dão volume às vozes do seu interior. Conheci pelo menos um escritor assim. Enfim tem muitos motivos para alguém sentar-se diante de uma folha de papel em branco e registrar seu pensamento. Pois a expressão gráfica passa antes pelo pensamento, comunica algo que, imediatamente antes, é idéia. Penso, logo escrevo. Ou, melhor: escrevo, logo penso. Existe uma escrita quase automática, que vem direto das entranhas, mas essa não é a mais comum. Entre uma emoção e a mão que tecla há um lapso de tempo. Mesmo quando a escrita flui de modo mais ou menos livre uma corrente de imagens subjetivas é o guia. O pensamento é a imagem simplificada das coisas, é imagem simplificada do mundo, do universo. Mesmo o mais abstrato deles ainda é imagem, mais distanciada do fotograma, é verdade, menos óbvia. Agora, todo pensamento vem carregado de significado. Não tem pensamento neutro, sem pelo menos um afeto que nele se encerra. Toda idéia traz junto suas ressonâncias afetivas. Por isso a linguagem é simbólica. Dois paus cruzados formam uma cruz. E uma cruz, em nosso universo simbólico, nunca é neutra, ao contrário, é carregada de significado. Não sabemos ao certo, mas milhares de pessoas foram crucificadas ao longo da história. Mas só a experiência de Jesus transformou a cruz na CRUZ. Outra cruz, a suástica, foi apropriada pelos nazistas, e só a partir desta experiência ela se tornou no que é para nós hoje. A experiência de sofrimento de milhões de pessoas cunhou o significado dessa imagem. É a experiência afetiva, portanto, que confere sentido a determinada imagem-pensamento. Quando falamos, escrevemos, fotografamos, revelamos imagens. Mas nenhuma delas é neutra, desprovida de sentido. Perder o sentido é perder a vida. Uma pessoa deprimida sente que, para ela, tudo perdeu o sentido. Uma sensação de inutilidade invade todos os meandros do seu ser. É uma quase morte. Por isso muitos deprimidos alimentam a idéia da morte; temem e, ao mesmo tempo, querem morrer. Se os sentidos de sua existência não forem resgatados, reapropriados por ela, nada há a fazer. Expressar e comunicar é dar forma concreta ao pensamento. Um livro é apenas um livro. Mas é um mundo. Estamos abdicando da nossa capacidade de conferir sentido ao mundo. Estamos funcionando somente no princípio do prazer. E prazer é só momento; precisa ser repetido e repetido e repetido. E se esgota. O sentido, pelo contrário, justifica uma vida. Paulo Palladini
Escrito por Paulo Palladini às 18h14
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Todos os Cantos 301
O processo civilizatório é, em grande medida, o processo de coerção dos instintos agressivos e a canalização da energia dos móveis afetivos primários para finalidades socialmente mais elevadas. A tendência à destruição, que se manifesta sob a forma de agressão e violência, é inerente à natureza humana e representa um desses instintos que as sociedades precisam regular para que a civilização progrida. Melhor dizendo e radicalizando: se tais forças não são controladas o que entendemos por civilização não tem nenhuma chance de sobreviver. Ocorre que a coerção sobre os instintos, por inibir sua expressão, provoca um profundo e difuso mal estar; é o preço a pagar pela evolução social. Ou isso ou a barbárie. Mas ocorre também que as tendências instintivas possuem muita força e continuamente exercem pressão sobre as instâncias reguladoras. Querem ser satisfeitas. É do equilíbrio entre satisfação instintiva, por um lado, e segurança social, por outro, que depende, em grande medida, nossa saúde mental individual e coletiva. Rompido o equilíbrio fica aberta a porta para a agressividade patológica. Importa dizer que a regulação referida acima é exercida por instâncias sociais variadas: família, religião, escola, trabalho, poderes constituídos, grupo cultural, classe social e outras. Tudo é muito complexo. Assim, há valores compartilhados por todos os membros de uma coletividade enquanto que outros são compartilhados somente por certos grupos minoritários. Existem idéias que são comuns à humanidade como um todo e outras reconhecidas apenas por pequenas tribos e até por indivíduos isolados. Se alguém se identifica como judeu ou muçulmano isso faz grande diferença para ele e para os outros. Sua visão de mundo fica afetada necessariamente por essa identificação e os julgamentos que faz tendem a se estender a todos os membros do lado de cá e a todos os do lado de lá. Aí está a raiz do preconceito e dos genocídios: os do lado de lá são maus, terroristas, inimigos, traidores. Devem, portanto, ser eliminados em nome do bem comum ( isto é, do lado de cá). Durante a semana a sensatez de vários líderes políticos e religiosos israelenses e palestinos manifestou-se contra os riscos inerentes a esse modo de colocar as coisas. Quando alguém fala: os judeus são assim ou os muçulmanos fazem aquilo, está simplesmente ignorando a multiplicidade e a riqueza humanas presentes em todas as sociedades e culturas. Está negando a individualidade, a singularidade de cada ser. Como fizeram os nazistas há 70 anos julga as pessoas por uma única característica: seu pertencimento a determinada coletividade. Toda generalização desse tipo é injusta e perigosa, põe em risco a integridade física e moral de pessoas inocentes. Não pode, portanto, receber apoio nem estímulo e as ações de seus promotores devem ser veementemente repudiadas. Paulo Palladini
Escrito por Paulo Palladini às 18h12
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