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Todos os Cantos
 


Todos os Cantos 310

Morte aos inimigos!


Em entrevista à revista Bravo! o escritor israelense David Grossman, veterano do exército e cujo filho Uri morreu na guerra do Líbano, fez a seguinte afirmação: “Para travar uma guerra você tem de, metaforicamente e literalmente, obliterar a face do seu inimigo. Se você quer matar alguém, você tem de esquecer que ele é humano. Isso é a coisa básica. Há muitas coisas que você tem de por de lado em relação a seu inimigo para mantê-lo como seu inimigo e lutar contra”. Em outras palavras e invertendo os termos: se eu olho para o outro e vejo um semelhante a mim, já não posso feri-lo. Idéia interessante. Quanto mais iguais forem os contendores, menor a chance de um desentendimento profundo. Para destruir alguém é preciso desumanizá-lo, transformá-lo em algo muito diferente de mim. Coisificá-lo. Assaltantes não gostam de olhar nem ser olhados nos olhos. Um ser humano só pode maltratar outro ser humano, se este não for mais considerado humano. Se, considero que um nativo não possui uma alma como eu, estou autorizado a torná-lo escravo. Para um delinquente da periferia de uma grande cidade os burgueses não são como ele; logo podem ser sequestrados, roubados e até mortos. O mesmo vale para os fascistas e os comunistas. E ateus, umbandistas, fumantes. No futebol, cuja linguagem é bélica por si só, nosso desejo, sempre, é eliminar os argentinos. Afinal eles não são como nós; eles próprios acham isso. Maradona não é e jamais será um Pelé. Então, morte aos inimigos! O mundo está mesmo cheio deles. Que hacer? Obliterar a face é a resposta. E tudo será permitido. Quando ladrões roubaram o convento de Francisco de Assis, este chamou-os de volta, ofereceu-lhes a própria comida e pedido de desculpas. Para ele aqueles não eram malfeitores, mas irmãos quem deviam acolher. Um leproso não lhe inspirava horror ou repulsa, mas vontade de abraçar. Perante o grande Pai todos são iguais. Se todos são iguais todos merecem respeito. Não é esta a base da convivência social? Para uma civilização possível é preciso que consideremos o que temos em comum, não nossas diferenças. Importa nossa humanidade comum. Local de nascimento, cor da pele, estrato social, grau de instrução, posse de bens materiais, nada disso justifica o desrespeito de uns para com outros. Por inveja Caim matou Abel. Aquele já não via mais este como o irmão, mas como o inimigo, que achava, tomava seu lugar junto ao Senhor. Por isso tinha de ser eliminado. E foi. Dissimulou, obliterou sua face. Quando o Senhor perguntou - Caim, onde está teu irmão? – só então ele caiu em si. Seus ressentimentos contra Abel afastaram-no. São os sentimentos que nos unem e desunem, não nossos argumentos lógicos. Nós nos aproximamos de quem sente como nós, não de quem pensa como nós, escreveu Lúcia Coelho, minha professora de psicologia. Para matar alguém preciso é cobrir sua face. Um ser humano não pode, simplesmente, matar outro ser humano; é preciso, antes, desumanizá-lo. Façamos, com Grossman, o exato oposto.
Paulo Palladini                       


Escrito por Paulo Palladini às 18h46
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Todos os Cantos 309

 

Perto e longe


Parece mais fácil resolver os grandes problemas do mundo, que aqueles bem mais próximos, os de nossa cidade, nossa rua, sem falar nos de dentro de casa. Consertar uma valeta na esquina parece mais difícil do que solucionar o conflito entre israelenses e palestinos. Escalamos com facilidade uma seleção brasileira de futebol campeã. Já não conseguimos o mesmo com o time de futebol de salão do bairro. Nem falemos no genuinamente mocoquense Radium Futebol Clube. Problemas de família? Resolvemos todos, menos os nossos. Sabemos perfeitamente bem o que os governantes precisam fazer para governar. Já quanto a administrar a própria casa... É que, quanto mais conhecimentos temos dos problemas, mais próximos deles estamos, mais complexos eles se nos apresentam. Quando a coisa acontece longe de nós, tudo se nos assemelha fácil. Basta entrarmos em contato direto com uma situação para sentirmos o quanto é difícil abordá-la. Assim, nós humanos, nos primórdios de nossa mente investigativa, começamos pelos aspectos mais complexos do universo, explicando sua origem e seu fim, sem ter qualquer meio científico de comprovação das assertivas. Nossos ancestrais, muitas vezes, simplesmente faziam afirmações sobre as coisas. O fundamento das afirmações, o que lhes conferia o caráter de verdade, era com freqüência, a autoridade de quem afirmava. Fosse uma autoridade religiosa ou política. Hoje não é mais assim. Ou quase. A ciência avançou muito. Muitos mitos foram derrubados. Para a ciência não importa quem está falando, mas o que; e como se chegou a determinada conclusão, sempre provisória. Mas na vida cotidiana tudo continua como dantes. Quanto mais complexo o campo mais palpiteiros atrai. Na medicina, por exemplo: é inegável que um cérebro é mais complexo que um estômago. No entanto, ninguém dá palpite sobre como deve ser uma cirurgia gástrica; já sobre o funcionamento da mente humana ou a causa de determinada desordem psíquica.... Nessas ocasiões somos tomados por uma espécie de onipotência infantil, que nos faz ignorar, exatamente, a realidade. No artigo anterior argumentei a favor de uma construção coletiva da realidade, sem, contudo, negar nem afirmar a existência de realidades independentes de nossos sentidos. Movo-me no território que delimitei, isto é, da realidade socialmente determinada, elaborada pelo consenso perceptivo. Ainda aí, quanto mais ignoramos algo, tendemos a achar que sabemos tudo sobre ele. Colocamos a imaginação no lugar da observação, o contrário do que preconizava o mestre Silveira. Pois basta alguém tentar estudar um pequeno grão de areia, para verificar logo que as coisas não são bem assim.  A normalidade psíquica, se é que podemos falar nesses termos, consiste na subordinação de nossa subjetividade à situação objetiva; esta histórica, cultural e socialmente delimitada. Alguém que coloque sua subjetividade à frente, e atropele a realidade, ou é um gênio ou um louco. Ou ... pode estar apenas errado.
Paulo Palladini                       


Escrito por Paulo Palladini às 18h45
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