Todos os Cantos 313
“Minha querida: que Deus nos ajude para continuarmos enchendo o mundo de música e poesia, que são nossa imagem. Eu te amo muito e sou muito feliz por ter trabalhado contigo. Na maioria das vezes em que estivemos juntos, coisas mágicas aconteceram”. Foi com essas palavras que Milton Nascimento se manifestou sobre a morte da cantora argentina Mercedes Sosa, dia 4, em Buenos Aires. Milton tem razão. Quando quase perdemos nossas vozes ela foi a nossa voz. Quando precisou de abrigo fomos seu abrigo. Em 1976, Milton gravou Geraes; Mercedes participou fazendo dueto com ele numa canção da compositora chilena Violeta Parra: Volver a los 17. Por esta gravação Mercedes Sosa ficou conhecida no Brasil; a grande intérprete da voz sudamericana. Ela colocou seu som no lugar do silencio daqueles que não podiam falar. De Violeta Parra gravou também La carta e Me gustan los estudiantes. Do grande Victor Jara, chileno como Violeta, preso e morto pela ditadura de Pinochet, deixou-nos o registro de Plegaria a un labrador. Tão bela quanto Te recuerdo Amanda. Todas canções engajadas. Como os punjentes poemas de Tejada Gomez: Hay un nino en la calle e Cancion con todos. Muitos outros compositores ela interpretou, sempre com voz potente e forte presença. Muitas vezes batendo num rústico tambor. Yo tengo tantos hermanos/ que nos los puedo contar. Gente de mano caliente. Cada qual con sus trabajos/ con sus suenos cada qual... la esperanza adelante... y una hermana muy hermosa/ que se llama libertad. Esta canção de Atahualpa Yupanqui é uma espécie de canção-símbolo da temática que Mercedes Sosa elegeu para sua vida: a união de todos na luta contra a opressão. Mesmo numa doce canção de ninar, Duerme Negrito, música tradicional de domínio público, estão presentes esse elementos de denúncia da opressão social; como chamou, certa vez, minha atenção Jefferson Zanchi. Logo após a morte da cantora o filho Fabián, que era também seu empresário, declarou: “Ela viveu plenamente seus 74 anos. Fez quase tudo o que quis. Não teve nenhum medo ou barreira que a limitasse. Mercedes sempre foi um símbolo de liberdade”. E isso é grande valor, principalmente num continente que até há pouco só conhecia solavancos políticos e instabilidades, pátrias não nascidas. Talvez seja difícil de avaliar quem não viveu os anos de chumbo. Talvez seja incompreensível, para os jovens de hoje, o papel de Mercedes naqueles cenários sombrios das ditaduras latino-americanas. Mas graças a ela todos podemos entoar os versos da violetiana Gracias a la vida, seu maior sucesso: Gracias a la vida que me ha dado tanto/ me ha dado la risa y me dado el llanto/ asi yo distingo dicha de quebranto/ los dos materiales que forman mi canto/ y el canto de ustedes que es el mismo canto/ y el canto de todos que es mi proprio canto/ Gracias a la vida. Descanse em paz hermana. Paulo Palladini
Escrito por Paulo Palladini às 21h11
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Todos os Cantos 312
Escrevo ouvindo Pixinguinha. Não o Pixinguinha de Carinhoso ou de Urubatan das parcerias com João de Barro e Benedito Lacerda. Mas daquele músico e compositor dos fundamentos, enroscado nas origens da musica popular brasileira, nas raizes do samba e do choro. Penso nas parcerias com João da Bahiana e Clementina de Jesus, onde o elemento africano, notadamente a cultura do candomblé, fica mais evidente. Na gravação de Yaô, por exemplo, composição de Pixinguinha e Gastão Vianna, por sobre os vários couros em ritmo frenético, ouvimos a voz rouca de João da Bahiana: Iô Iôô/ No terreiro de preto véio iaiá / vamo saravá / vamo saravá. Enquanto outras vozes perguntam: Pra quem meu Pai? Ao que ele responde: Xangô ô. E modulando melodicamente as vozes de João e Clementina a presença marcante do instrumento do mestre Pixinguinha. Até a década de 40 ele tocava preferencialmente a flauta, mas depois, por dificuldades de embocadura, optou pelo saxofone. Foi do mais agudo ao mais grave. O sax tenor que usava ganhou-o de presente durante uma temporada em Paris com seus Oito Batutas. Foi quando conheceu o jazz. Era 1922. Teve por parceiros e amigos de vida inteira Donga (autor de Pelo Telefone, considerado o primeiro samba gravado) e João da Bahiana. Com este e Clementina de Jesus gravou, por exemplo, Batuque na Cozinha, composição de João. Batuque na cozinha sinhá não qué / por causa do batuque eu queimei meu pé. Nessa gravação Pixinguinha passeia livremente por entre os versos. Àquela altura já detinha a plenitude e o domínio esplêndido do instrumento, que aprendeu a tocar ainda um menino. Músico, compositor, maestro, arranjador. Pixinguinha deu forma ao choro e à musica popular brasileira. A maioria de suas composições é de música instrumental. Se hoje nós podemos falar numa música instrumental brasileira, ele foi o seu pioneiro Ele é o nosso Louis Armstrong, ou Louis é que é o nosso Pixinguinha? Um saiu da África e foi dar no norte, o outro foi dar no sul. Negros e descendentes de escravos. Ambos se encontraram no território livre da música. Em vida chegaram a ter um encontro, se sei, em 1957, promovido pelo presidente Juscelino, quando o músico americano esteve no Rio. Ambos tiraram do chão que pisaram, do ar que respiraram, das visões que tiveram, os elementos de sua arte. Mas tanto o sopro de um como o sopro do outro nasceram daquela profundeza, onde tudo é amálgama: a mãe África (não nos esqueçamos, sopro é espírito). Ambos foram criadores maravilhosos, que deixaram suas marcas inapagáveis nos dormentes de pedra da existência (Salve Nelson Moreyra Barboza!). E então, enquanto ouvia a música de Pixinguinha, começou chover e a chuva despertou o cheiro da terra molhada. Passarinhos cruzaram, rápidos; duas siriemas esticaram os seus pescoços. As árvores balançaram com o vento, fazendo uma dança bonita: era agradecimento. Tudo ficou bem assim. O ar fresco, a luz suave da tarde, os sons das folhas. Paulo Palladini
Escrito por Paulo Palladini às 21h09
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