Todos os Cantos 315
Pinço da Folha de domingo, 25 de outubro, imagens e palavras. Ilustram meu método de leitura, que consiste em destacar o que me atrai a atenção, e depois ligar uma coisa e outra, um assunto a uma imagem, e assim por diante. Como o pré-socrático Heráclito penso que tudo está em movimento, e tudo se relaciona com tudo. Em semana de violência midiática leio a entrevista de David Weisburd, professor da Universidade de Jerusalém, sobre criminalidade, da qual é grande estudioso: “Por muitos anos a pesquisa na área de criminologia teve como foco entender por que as pessoas cometem crimes. Em meu trabalho comecei a fazer perguntas diferentes: onde o crime ocorre?” Descobriu ele que os crimes se concentram em pequenas áreas das cidades, e propôs ações mais racionais de prevenção e controle. Um de seus estudos, feito em Seattle, mostrou que 50% dos crimes ocorrem em apenas 4% das ruas da cidade. Interessante. Mapear as regiões onde os fatos acontecem permitem ações mais eficazes. Na mesma página Moacyr Scliar, médico e escritor brasileiro, lembra o centenário de morte de Cesare Lombroso, fundador da antropologia criminal, ciência que estuda o crime através de métodos científicos: “Compreender a mente, inclusive a mente do criminoso, é um objetivo que permanece como um desafio para o nosso mundo, no qual a violência é um fenômeno habitual”, escreveu Scliar. E mais adiante, em outro trecho do artigo: Pinel, no século XVIII, determinou que nos hospícios “os pacientes não podiam mais ser acorrentados”... Aí vou para outro caderno do jornal, e vejo a foto: investigador de polícia e transexual, em fase maníaca, após cometer um roubo, foi algemado à cama do hospital – enfermaria psiquiátrica do Hospital das Clínicas da Unicamp. O chefe do Departamento de Psiquiatria da Universidade, Paulo Dalgalarrondo, declarou: “Em situações assim, indica-se a contenção – amarração e imobilização do paciente com o uso de lençóis. Serve para proteger paciente e a equipe”. E as algemas? Isto já é Brasil, século XXI, com reforma psiquiátrica e tudo. Ainda na linha da violência vejo reportagem de Eduardo Ohata sobre filme biográfico do boxeador Mike Tyson, o grande lutador, o mais jovem campeão mundial da história. Entre as várias tragédias de sua vida, está a morte do filho de 4 anos de idade, num acidente doméstico. Logo depois de sua última luta em 2005, quando abandonou o boxe, já decadente, declarou: “Não sou mais um animal feroz”. E se acabou. Jane Birkin, hoje com 62 anos, ficou mundialmente conhecida pela canção Je t’aime...mois non plus, que interpretou com Serge Gainsbourg, compositor e marido. Na entrevista que concedeu a Célia Walden sobre o filme Boxes, que ela dirigiu, disse: “era sobre o desejo de uma mãe de que suas filhas sejam levadas a sério, que não se tornem conhecidas apenas por sua beleza, como aconteceu comigo. Ser bonita é ótimo, mas de repente se torna a única coisa que importa sobre você”. Ela falava de si e de Chartotte Gainsbourg, a filha, que acabara de ganhar a Palma de Ouro no festival de cinema de Cannnes por Anticristo ( de Lars von Trier). Outra imagem no mesmo jornal: a tirinha do cartunista Laerte - Piratas do Tietê. Primeiro quadro: “Já fui um heterossexual convicto”. Segundo quadro: “Depois um comunista convicto”. Terceiro quadro: “Depois um ateu convicto”. Quarto: “Que dia é hoje?”. Pois é. Mais palavras: José Arthur Giannotti, abordando o esvaziamento do discurso político atual, cita Pierre Clastres: “em seu estudo sobre os guaranis, nos conta que, no fim da tarde, o chefe se levantava e começava a discursar ao léu, sem eira nem beira”. É, também vemos acontecer. Giannotti relata que, como os guaranis retratados, nossos líderes são “profetas do vazio”, e o máximo que podem nos oferecer é “o ritual do falar purgante”. Purgante. Paulo Palladini
Escrito por Paulo Palladini às 23h29
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