Arquivos

Votação
 Dê uma nota para meu blog

Outros links
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis




Todos os Cantos
 


Todos os Cantos 318

A visita de Mandela

 

Quando presidente Nelson Mandela, da África do Sul, esteve em visita ao Brasil. Veio em viagem oficial, mas também em lua-de-mel, recém-casado que estava com a moçambicana Graça Machel. Mandela tinha então 80 anos, um terço dos quais vividos na prisão. Ele já era uma personalidade mundial, que ajudara a escrever um dos mais belos capítulos dos direitos humanos,  lutando  intransigentemente contra a injustiça social e a intolerância racial. Como líder do CNA ( Congresso Nacional Africano) dedicou sua vida à luta contra o regime racista branco da África do Sul, primeiro através das armas, depois escolhendo a via pacífica. Por isso foi agraciado com o prêmio Nobel da Paz. Na década de 60 foi preso e condenado à prisão perpétua, mas  libertado em 1990 em meio às mudanças políticas em seu país e no resto do mundo. Houve muita pressão internacional pela revisão de sua pena. Como o homem que encarnava a oposição a um sistema racista desumano podia ser condenado? À aquela altura ele já se tornara o símbolo da resistência à opressão sobrevivendo a 28 anos de cativeiro. Reconsiderou também suas posições mais radicais e passou a acreditar numa solução política para o problema do apatheid. Queria uma África do Sul para todos. Ganhou a simpatia de outras lideranças mundiais, que viam no regime segregacionista a degradação da condição humana. Entidades de defesa dos direitos humanos como a Anistia Internacional fizeram campanhas no mundo todo pela libertação de Mandela. Aqui em Mococa um pequeno comitê foi organizado por Ana Palladini, membro da Anistia e, na época, integrante do movimento negro local, a recém-fundada Acarhanm. Em 89, logo após as comemorações dos 100 anos de abolição da escravatura no Brasil, os movimentos negros fortaleceram-se em várias cidades. Em Mococa houve um impulso inicial, mas o movimento se extinguiu devido ao esvaziamento de seu caráter político. O fato é que Nelson Mandela foi libertado e deixou o cárcere para se tornar o primeiro presidente pós-apartheid da África do Sul. Na viagem ao Brasil ele foi recebido como chefe de estado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, mas também teve encontro com o líder da oposição ao governo Luís Inácio Lula da Silva. Tanto um como outro apoiaram sua luta pelo fim do apartheid. Terminada a visita  Mandela partiu para a Argentina onde assistiu, como observador, a uma reunião do Mercosul; de olho numa provável integração África-América Latina. Levou consigo, além do carinho dos brasileiros, projetos bem sucedidos na área educacional.

 

Paulo Palladini                       



Escrito por Paulo Palladini às 21h25
[] [envie esta mensagem
] []





Todos os Cantos 317

Lula é um gênio?

Do que parece Lula é um gênio. Ou não? Se o mundo contemporâneo é o mundo das aparências a genialidade de Lula encontrou sua hora e seu lugar. Nos sete anos corridos de seu governo tudo parece dar certo, mesmo o erro. Tudo conspira a seu favor, converge para ele como um poderoso imã. Ele faz chover quando precisa, faz parar a chuva quando está demais. Costuma falar de improviso e consegue, no mais das vezes, convencer seus interlocutores. Quando se prenunciava a grande crise econômica global ele disse que no Brasil não chegaria crise nenhuma, mas apenas uma marolinha. Nada de ondas gigantes. Marolinha. Pois o Brasil não foi dos poucos países que atravessaram bem a fase mais complicada da crise? E não saiu ainda fortalecido? Ninguém viu crise passando aqui por perto. Quando ele propôs aos brasileiros aumentar o consumo para combater a crise, pensei: isso não vai dar certo. E não é que deu? Tudo dá certo para ele. Tudo o que toca vira ouro. Cava um buraco no chão e jorra petróleo. Lula perdoou as dividas externas de vários países mais pobres, e pagou a nossa. Zerou nosso déficit eterno para com o FMI. Nós que aprendemos com Delfim Netto que divida não se paga, se administra. Lula pagou. Ele é o cara, disse o presidente Obama dos EUA. E o Brasil está bombando. Nossos históricos índices de desemprego estão baixando e baixando; a economia está movimentada como nunca. O País tem dinheiro. Milhões de brasileiros saíram da pobreza. A fome, tema de campanha no inicio de sua gestão, deu lugar para a preocupação com a obesidade. Diminuíram as desigualdades sociais. Sim. Mais crianças na escola, mais jovens na universidade. Lula só fala português e isso basta. Conversa com qualquer um em qualquer língua. Sua fala flui, ele é verborrágico por natureza. Para ele não tem tempo ruim, Na sua cabeça cabe qualquer chapéu, qualquer boné; no seu peito, qualquer camisa. É capaz de se entender tanto com judeus como com muçulmanos. Eles é que não se entendem entre si. Entra a rainha da Inglaterra; não tem problema. Sua popularidade é enorme: nada a abala. Tornou-se ele maior que seu partido PT e ambos sabem disso. É maior que toda a esquerda brasileira junta e mais qualquer direita. Ele tirou o Brasil da periferia do mundo, lugar ao qual parecia condenado, e colocou-o no centro. Duas coisas aprisionavam o Brasil: a periferia e o futuro. Ele mostrou-nos que o futuro é agora. E o lugar é o centro. Todas as atenções, todas, todos os refletores sobre nós. Ops! Ele põe o quipá na cabeça, inclina-se para Meca, tira os sapatos e bate o pênalti. Aconteceu num estádio de futebol. Instado a tocar na bola, ele não fez só um gesto simbólico com o pé. Não! Descalçou-se, arregaçou as calças, tomou distancia, e ... gol! Para ele sempre é final de campeonato. Numa tarde de sol caminhou, solitário no leito seco do São Francisco, à espera de um desvio. Lula chapéu de couro. Lula cartola de lorde na câmara dos mais comuns. Fala grosso nos sovietes, gola engomada na sede do banco. Marca um churrasco e uma olimpíada. Marca um encontro de gês na esplanada dos mistérios; sete, oito ou vinte no vórtice do planalto central. Lula é um gênio, tudo o que toca vira ouro. Suas diferenças com Fernando Henrique Cardoso talvez nunca sejam superadas. Fernando Henrique é tudo aquilo que ele, Lula, sempre quis ser. A cabeça de Fernando Henrique é responsável pelo sucesso de Lula. Mas Lula é Lula, Fernando Henrique é Fernando Henrique. Um vem do chão batido, o outro, da academia. É norte e é sul. Ambos são relevantes para o Brasil ser o que é. Lula é um gênio como Glauber Rocha é, como Nelson Rodrigues é, como Mané Garrincha é, como Villa Lobos e Vilas Boas.  

Paulo Palladini         



Escrito por Paulo Palladini às 21h32
[] [envie esta mensagem
] []





Todos os Cantos 316

Teatro da resistência de Jefferson Zanchi

Depois de muitos anos reencontro meu amigo Jefferson Zanchi. Ele veio à cidade apresentar a brechtiana O mendigo ou o cão morto, que representará Mococa no Mapa Cultural Paulista. Foi bom vê-lo no palco de novo, Imperador encarnado, empunhando uma espada e cortando cabeças; um riso sarcástico sem igual. Há três décadas ele dirige o Grupo de Teatro Experimental Qorpo Santo, teatro amador muito do profissional; da melhor qualidade. Como diretor teatral Jeffinho é um daqueles resistentes e resilientes, duro e flexível, que enfrenta chuvas de canivetes e trovoadas ensurdecedoras. Puro teatro da resistência. Ele e seu Qorpo Santo se apresentaram na reinauguração do Teatro Municipal “Pedro Ângelo Camin” de Mococa, para exercitar nossa musculatura dramática e  desentupir nossas veias semicômicas. Foi mais uma aula de fala e expressão através da tessitura sutil e bem delineada do dramaturgo alemão. Tais escolhas confirmam a permanência de Jeffinho no campo ideológico, embora não seja esta a peça mais à esquerda do espectro brechtiano. Ali está em andrajos o Mendigo à porta da cidade, quando se aproxima o Imperador no seu trono de rodas, orgulhoso dos triunfos militares que acabara de encetar. Para o Mendigo pouco lhe  importa a glória do outro, despreza-a e ridiculariza-a. A morte do seu cão importa mais que todas as vitórias e conquistas do Imperador. Ele debocha daquilo que todos veneram: o poder e a gloria. Desdenha. O cão amoroso não, este merece todas as honras e todos os prantos. Afeto, negação da sociedade do espetáculo, de quinze minutos de fama, de celebridades vazias de conteúdo, invólucros sem substancia, casca sem semente, pele sobre ossos. Pele e osso. Morreu em Paris, durante a semana, aos 100 anos de idade, Claude Lévi-Strauss, importante pensador, dos mais importantes cientistas sociais, antropólogo, autor de Tristes Trópicos e outros tantos textos seminais. Foi o principal expoente de uma corrente de pensamento: o estruturalismo. Professor reconhecido mundialmente, autor de idéias, pesquisas e obras originais, o grande antropólogo, por opção sua e de sua família, foi enterrado sem nenhuma pompa, longe das luzes e da curiosidade alheia. Longe da imprensa. Hoje a imagem é tudo; o que não pode ser transformado em imagem, simplesmente não existe. Comparemos, então, o velório de Levi-Strauss com outro recente, celebridade pop, encaixotado em ouro, estádio lotado, grandioso espetáculo midiático. Nem sabemos se no fundo da urna dourada dormia mesmo o pequeno imperador.  É para salvar-nos desta pasmaceira que existe um Claude Lévi-Strauss centenário andando por aí. Uma resposta à mediocridade. Todos os sinais estão trocados. Enaltecidas são as figuras coloridas e brilhantes, de um brilho artificial e conteúdo zero. Pelo menos na peça de Brecht o Imperador tem o que mostrar, mesmo que cabeças cortadas e sarcasmo. Fez suas conquistas. Na sociedade vazia as pessoas querem antes receber sem nada oferecer, buscam o reconhecimento sem nada terem realizado: Eis-me aqui, um nada, o zero das esquerdas. Louvem-me, mostrem minha cara para o mundo!

 

PS: Acompanharam Jeffinho nesta veloz jornada noite adentro o mendigo Fábio Vieira, o bobo Ricardo Salles e o Público. Nas duas noites anteriores o Grupo de Dança e Expressão do Teatro Municipal dançou Se você soubesse... e o Grupo Folclórico Raízes apresentou O Brasileirinho.

 

Paulo Palladini                       



Escrito por Paulo Palladini às 21h29
[] [envie esta mensagem
] []





Todos os Cantos 315

Imagens e palavras.

 

Pinço da Folha de domingo, 25 de outubro, imagens e palavras. Ilustram meu método de leitura, que consiste em destacar o que me atrai a atenção, e depois ligar uma coisa e outra, um assunto a uma imagem, e assim por diante. Como o pré-socrático Heráclito penso que tudo está em movimento, e tudo se relaciona com tudo. Em semana de violência midiática leio a entrevista de David Weisburd, professor da Universidade de Jerusalém, sobre criminalidade, da qual é grande estudioso: “Por muitos anos a pesquisa na área de criminologia teve como foco entender por que as pessoas cometem crimes. Em meu trabalho comecei a fazer perguntas diferentes: onde o crime ocorre?” Descobriu ele que os crimes se concentram em pequenas áreas das cidades, e propôs ações mais racionais de prevenção e controle. Um de seus estudos, feito em Seattle, mostrou que 50% dos crimes ocorrem em apenas 4% das ruas da cidade. Interessante. Mapear as regiões onde os fatos acontecem permitem ações mais eficazes. Na mesma página Moacyr Scliar, médico e escritor brasileiro, lembra o centenário de morte de Cesare Lombroso, fundador da antropologia criminal, ciência que estuda o crime através de métodos científicos: “Compreender a mente, inclusive a mente do criminoso, é um objetivo que permanece como um desafio para o nosso mundo, no qual a violência é um fenômeno habitual”, escreveu Scliar. E mais adiante, em outro trecho do artigo: Pinel, no século XVIII, determinou que nos hospícios “os pacientes não podiam mais ser acorrentados”... Aí vou para outro caderno do jornal, e vejo a foto: investigador de polícia e transexual, em fase maníaca, após cometer um roubo, foi algemado à cama do hospital – enfermaria psiquiátrica do Hospital das Clínicas da Unicamp. O chefe do Departamento de Psiquiatria da Universidade, Paulo Dalgalarrondo, declarou: “Em situações assim, indica-se a contenção – amarração e imobilização do paciente com o uso de lençóis. Serve para proteger paciente e a equipe”. E as algemas? Isto já é Brasil, século XXI, com reforma psiquiátrica e tudo. Ainda na linha da violência  vejo reportagem de Eduardo Ohata sobre filme biográfico do boxeador Mike Tyson, o grande lutador, o mais jovem campeão mundial da história. Entre as várias tragédias de sua vida, está a morte do filho de 4 anos de idade, num acidente doméstico. Logo depois de sua última luta em 2005, quando abandonou o boxe, já decadente, declarou: “Não sou mais um animal feroz”. E se acabou. Jane Birkin, hoje com 62 anos, ficou mundialmente conhecida pela canção Je t’aime...mois non plus, que interpretou com Serge Gainsbourg, compositor e marido. Na entrevista que concedeu a Célia Walden sobre o filme Boxes, que ela dirigiu, disse: “era sobre o desejo de uma mãe de que suas filhas sejam levadas a sério, que não se tornem conhecidas apenas por sua beleza, como aconteceu comigo. Ser bonita  é ótimo, mas de repente se torna a única coisa que importa sobre você”. Ela falava de si e de Chartotte Gainsbourg, a filha, que acabara de ganhar a Palma de Ouro no festival de cinema de Cannnes por Anticristo ( de Lars von Trier). Outra imagem no mesmo jornal: a tirinha do cartunista Laerte - Piratas do Tietê. Primeiro quadro: “Já fui um heterossexual convicto”. Segundo quadro: “Depois um comunista convicto”. Terceiro quadro: “Depois um ateu convicto”. Quarto: “Que dia é hoje?”. Pois é. Mais palavras: José Arthur Giannotti, abordando o esvaziamento do discurso político atual, cita Pierre Clastres: “em seu estudo sobre os guaranis, nos conta que, no fim da tarde, o chefe se levantava e começava a discursar ao léu, sem eira nem beira”. É, também vemos acontecer. Giannotti relata que, como os guaranis retratados, nossos líderes são “profetas do vazio”, e o máximo que podem nos oferecer é “o ritual do falar purgante”. Purgante.

 

Paulo Palladini         



Escrito por Paulo Palladini às 23h29
[] [envie esta mensagem
] []





Todos os Cantos 314

Uma nova Política Nacional Antidrogas

 

Quando se fala em droga as pessoas demonstram, em geral, posições extremadas. Quase todos têm opiniões fechadas sobre o assunto, coisa que não é consenso nem entre especialistas. A experiência prática aliada a um melhor conhecimento científico, mudanças legais e decisões governamentais vêm aperfeiçoando a abordagem do problema. Desde 2005 o Brasil conta com uma Política Nacional Antidrogas realinhada, fruto de deliberação do Conselho Nacional Antidrogas – Conad, que se reuniu em Brasília em maio daquele ano, para traçar as diretrizes. A resolução abrange a prevenção, o tratamento, a recuperação, a reinserção social e os direitos dos usuários, além da defesa de medidas para a redução da oferta de drogas e de intervenções para redução dos danos sociais. Diferenciar claramente uso, uso indevido, dependência e tráfico é ponto fundamental para o cuidado adequado. Não é possível desenvolver abordagens mais eficazes misturando dependente e traficante. Ambos infringem a lei, mas de modo muito diferente. O documento enfatisa a ligação entre tráfico e violência, e dedica um dos capítulos à redução da oferta de drogas ilícitas, e também de algumas lícitas. Existem muitas substâncias que agem no cérebro, usadas com fins terapêuticos, mas que oferecem risco de abuso. Exemplos comuns disso são os chamados calmantes, medicamentos para ansiedade, de uso controlado, que podem provocar dependência, problemas de concentração e memória, dificuldades de coordenação motora. Ou as anfetaminas, substâncias moderadoras do apetite, também de uso restrito e controlado, que estimulam o sistema nervoso e produzem sensação de bem estar, grande disposição e insônia. Profissionais que precisam manter a vigília por períodos prolongados como motoristas e vigilantes podem lançar mão desses remédios, embora seu uso não seja aprovado para esta finalidade. Provocam aceleração dos processos cerebrais, aumento da pressão arterial e dos batimentos cardíacos, constituindo risco para derrames e infartos. Em muitos países tais substâncias são proibidas, mas no Brasil podem ser adquiridas com certa facilidade através de prescrições médicas para emagrecimento e no mercado informal. Então, não são apenas as drogas ilícitas, que causam problemas. Tudo somado, dá para imaginar o tamanho do desafio que a Política Nacional Antidrogas assumiu enfrentar. O enfrentamento não cabe só ao Conad, é obvio, envolve inúmeras instâncias de governo, da justiça, da polícia, da saúde, mídias diversas, empresas. Enfim, abarca toda a sociedade. Todo cidadão deve ser chamado a opinar. Pois um dos pontos polêmicos da nova postura é a adoção de ações de redução de danos como estratégia. Ainda mal compreendido esse modo de encarar o problema das drogas vem sendo utilizado na Europa desde a década de 1980. No Brasil tudo começou em Santos através da distribuição e troca de seringas para usuários de drogas injetáveis. O objetivo era diminuiu o risco de contaminação de doenças transmissíveis como Aids e hepatites, comum por causa do compartilhamento de seringas e falta de esterilização. Reduzir danos significa diminuir as consequências negativas de determinados comportamentos. Orientar um usuário sobre os efeitos das drogas, dar a ele cachimbos para fumar crack ou propor trocar o crack pela maconha, podem parecer coisas estranhas para se fazer, mas já existem evidências científicas em apoio a tais iniciativas. Os dispositivos legais também começam a se adaptar e nova lei sobre drogas - Lei Federal n° 11.343 de 23 de agosto de 2006 - reconhece expressamente, como válidas, as ações de redução de danos. 

 

Paulo Palladini               



Escrito por Paulo Palladini às 20h57
[] [envie esta mensagem
] []





Todos os Cantos 313

La hermana. Nenhum medo

 

 

“Minha querida: que Deus nos ajude para continuarmos enchendo o mundo de música e poesia, que são nossa imagem. Eu te amo muito e sou muito feliz por ter trabalhado contigo. Na maioria das vezes em que estivemos juntos, coisas mágicas aconteceram”. Foi com essas palavras que Milton Nascimento se manifestou sobre a morte da cantora argentina Mercedes Sosa, dia 4, em Buenos Aires. Milton tem razão. Quando quase perdemos nossas vozes ela foi a nossa voz. Quando precisou de abrigo fomos seu abrigo. Em 1976, Milton gravou Geraes; Mercedes participou fazendo dueto com ele numa canção da compositora chilena Violeta Parra: Volver a los 17. Por esta gravação Mercedes Sosa ficou conhecida no Brasil; a grande intérprete da voz sudamericana. Ela colocou seu som no lugar do silencio daqueles que não podiam falar. De Violeta Parra gravou também La carta e Me gustan los estudiantes. Do grande Victor Jara, chileno como Violeta, preso e morto pela ditadura de Pinochet, deixou-nos o registro de Plegaria a un labrador. Tão bela quanto Te recuerdo Amanda. Todas canções engajadas. Como os punjentes poemas de Tejada Gomez: Hay un nino en la calle e Cancion con todos. Muitos outros compositores ela interpretou, sempre com voz potente e forte presença. Muitas vezes batendo num rústico tambor. Yo tengo tantos hermanos/ que nos los puedo contar. Gente de mano caliente. Cada qual  con sus trabajos/ con sus suenos cada qual... la esperanza adelante... y una hermana muy hermosa/ que se llama libertad. Esta canção de Atahualpa Yupanqui é uma espécie de canção-símbolo da temática que Mercedes Sosa elegeu para sua vida: a união de todos na luta contra a opressão. Mesmo numa doce canção de ninar, Duerme Negrito, música tradicional de domínio público, estão presentes esse elementos de denúncia da opressão social; como chamou, certa vez, minha atenção Jefferson Zanchi. Logo após a morte da cantora o filho Fabián, que era também seu empresário, declarou: “Ela viveu plenamente seus 74 anos. Fez quase tudo o que quis. Não teve nenhum medo ou barreira que a limitasse. Mercedes sempre foi um símbolo de liberdade”. E isso é grande valor, principalmente num continente que até há pouco só conhecia solavancos políticos e instabilidades, pátrias não nascidas. Talvez seja difícil de avaliar quem não viveu os anos de chumbo. Talvez seja incompreensível, para os jovens de hoje, o papel de Mercedes naqueles cenários sombrios das ditaduras latino-americanas. Mas graças a ela todos podemos entoar os versos da violetiana Gracias a la vida, seu maior sucesso: Gracias a la vida que me ha dado tanto/ me ha dado la risa y me dado el llanto/ asi yo distingo dicha de quebranto/ los dos materiales que forman mi canto/ y el canto de ustedes que es el mismo canto/ y el canto de todos que es mi proprio canto/ Gracias a la vida. Descanse em paz hermana.

 

Paulo Palladini   



Escrito por Paulo Palladini às 21h11
[] [envie esta mensagem
] []





Todos os Cantos 312

Pixinguinha

 

Escrevo ouvindo Pixinguinha. Não o Pixinguinha de Carinhoso ou de Urubatan das parcerias com João de Barro e Benedito Lacerda. Mas daquele músico e compositor dos fundamentos, enroscado nas origens da musica popular brasileira, nas raizes do samba e do choro. Penso nas parcerias com João da Bahiana e Clementina de Jesus, onde o elemento africano, notadamente a cultura do candomblé, fica mais evidente. Na gravação de Yaô, por exemplo, composição de Pixinguinha e Gastão Vianna, por sobre os vários couros em ritmo frenético, ouvimos a voz rouca de João da Bahiana: Iô Iôô/ No terreiro de preto véio iaiá / vamo saravá / vamo saravá. Enquanto outras vozes perguntam: Pra quem meu Pai? Ao que ele responde: Xangô ô.  E modulando melodicamente as vozes de João e Clementina a presença marcante do instrumento do mestre Pixinguinha. Até a década de 40 ele tocava preferencialmente a flauta, mas depois, por dificuldades de embocadura, optou pelo saxofone. Foi do mais agudo ao mais grave. O sax tenor que usava ganhou-o de presente durante uma temporada em Paris com seus Oito Batutas. Foi quando conheceu o jazz. Era 1922. Teve por parceiros e amigos de vida inteira Donga (autor de Pelo Telefone, considerado o primeiro samba gravado) e João da Bahiana. Com este e Clementina de Jesus gravou, por exemplo, Batuque na Cozinha, composição de João. Batuque na cozinha sinhá não qué / por causa do batuque eu queimei meu pé. Nessa gravação Pixinguinha passeia livremente por entre os versos. Àquela altura já detinha a plenitude e o domínio esplêndido do instrumento, que aprendeu a tocar ainda um menino. Músico, compositor, maestro, arranjador. Pixinguinha deu forma ao choro e à musica popular brasileira. A maioria de suas composições é de música instrumental. Se hoje nós podemos falar numa música instrumental brasileira, ele foi o seu pioneiro  Ele é o nosso Louis Armstrong, ou Louis é que é o nosso Pixinguinha? Um saiu da África e foi dar no norte, o outro foi dar no sul. Negros e descendentes de escravos. Ambos se encontraram no território livre da música. Em vida chegaram a ter um encontro, se sei, em 1957, promovido pelo presidente Juscelino, quando o músico americano esteve no Rio. Ambos tiraram do chão que pisaram, do ar que respiraram, das visões que tiveram, os elementos de sua arte. Mas tanto o sopro de um como o sopro do outro nasceram daquela profundeza, onde tudo é amálgama: a mãe África (não nos esqueçamos, sopro é espírito). Ambos foram criadores maravilhosos, que deixaram suas marcas inapagáveis nos dormentes de pedra da existência (Salve Nelson Moreyra Barboza!). E então, enquanto ouvia a música de Pixinguinha, começou chover e a chuva despertou o cheiro da terra molhada. Passarinhos cruzaram, rápidos; duas siriemas esticaram os seus pescoços. As árvores balançaram com o vento, fazendo uma dança bonita: era agradecimento. Tudo ficou bem assim. O ar fresco, a luz suave da tarde, os sons das folhas.

                                                                      

Paulo Palladini                       



Escrito por Paulo Palladini às 21h09
[] [envie esta mensagem
] []





Todos os Cantos 311

Vi a vila


Como o rato roeu a roupa eu vi a vila. A vila é The Village, filme de 2004 do diretor indiano Night Shyamalan. Nos fins do século XIX um grupo de 60 pessoas habita uma vila isolada no interior dos Estados Unidos: Covington.  Tentam criar ali uma sociedade harmônica, não violenta, em tudo diferente das cidades. Todos trazem histórias de violência em suas vidas nos tempos em que moravam nas cidades. Querem limpar suas memórias e viver um presente renovado. Isso tem um custo: o confinamento dentro de certo espaço geográfico, cujos limites não podem ser ultrapassados. O lugar fica no meio de uma floresta que, segundo a lenda, é habitada por seres tão misteriosos como perigosos. Por isso uma das regras é não entrar na floresta. Lucius  Hunt é o único que não tem medo e desafia a proibição. É o que será ferido de morte.  Apaixonada por ele Ivy Walker, jovem, bonita e cega, é filha do líder Edward Walker. Um dia, quando ela decide atravessar a floresta para buscar o remédio que salvaria Lucius, o pai mostra-lhe que não há nada a temer. Para manter a paz na vila os anciãos criaram o mito da floresta e seus seres. O medo do desconhecido lá de fora permitia manter a harmonia interna.  A aldeia isolada é a portadora da vida boa e tranqüila, pura e inocente. O horror existe lá fora; para os habitantes lá fora significa outro tempo e outro lugar. Mesmo quando a violência surge no meio deles, quando um dos habitantes, o desequilibrado Noah,Percy, por ciúme de Ivy, esfaqueia Lucius, os anciãos negam a realidade. Atribuem a agressão aos seres da floresta, “aqueles de quem não podemos falar”. Assim o mito é mantido para a garantia da ordem interna e do propósito isolacionista dos habitantes da vila. A floresta, na verdade, é uma reserva natural dos tempos atuais; a vila é apenas uma utopia edificada sobre um mito, o qual funciona como uma espécie de religião. O medo tem aí papel fundamental; é a liga de tudo com tudo. Refugiaram-se ali por medo. Para não caírem na tentação da fuga alimentam o medo pelos seres imaginários da floresta. Só existe segurança no seu interior. Os anciãos, aqueles que detêm o conhecimento e não são tocados pelo medo, sabem que tais seres não existem. São meras criaturas imaginárias, cuja presença na floresta mantém o equilíbrio e a segurança entre os habitantes. Quando a violência irrompe e a floresta deve ser enfrentada, os líderes não vacilam na consolidação da farsa e usam as situações deflagradas para reforçar o mito. Quem conhece o segredo usa-o para preservar o pacto originário: jamais voltar nem permitir a volta às cidades de nenhum dos habitantes da vila. Sem atravessar a floresta ninguém conseguirá retornar. Há mitos fora desse de Covington, que nos impedem atravessar fronteiras. Acreditamos ser o nosso mundinho o melhor dos mundos, o esplêndido isolamento, que tudo pacifica, tudo harmoniza. Ilusão. Farsa consentida. Como os habitantes de Covington, refugiamo-nos em nossas vilas por medo; por outros medos refutamos deixá-las. Nada esperemos, isso deve ser mesmo o melhor que o mundo pode oferecer.
Paulo Palladini                       


Escrito por Paulo Palladini às 21h28
[] [envie esta mensagem
] []





Todos os Cantos 310

Morte aos inimigos!


Em entrevista à revista Bravo! o escritor israelense David Grossman, veterano do exército e cujo filho Uri morreu na guerra do Líbano, fez a seguinte afirmação: “Para travar uma guerra você tem de, metaforicamente e literalmente, obliterar a face do seu inimigo. Se você quer matar alguém, você tem de esquecer que ele é humano. Isso é a coisa básica. Há muitas coisas que você tem de por de lado em relação a seu inimigo para mantê-lo como seu inimigo e lutar contra”. Em outras palavras e invertendo os termos: se eu olho para o outro e vejo um semelhante a mim, já não posso feri-lo. Idéia interessante. Quanto mais iguais forem os contendores, menor a chance de um desentendimento profundo. Para destruir alguém é preciso desumanizá-lo, transformá-lo em algo muito diferente de mim. Coisificá-lo. Assaltantes não gostam de olhar nem ser olhados nos olhos. Um ser humano só pode maltratar outro ser humano, se este não for mais considerado humano. Se, considero que um nativo não possui uma alma como eu, estou autorizado a torná-lo escravo. Para um delinquente da periferia de uma grande cidade os burgueses não são como ele; logo podem ser sequestrados, roubados e até mortos. O mesmo vale para os fascistas e os comunistas. E ateus, umbandistas, fumantes. No futebol, cuja linguagem é bélica por si só, nosso desejo, sempre, é eliminar os argentinos. Afinal eles não são como nós; eles próprios acham isso. Maradona não é e jamais será um Pelé. Então, morte aos inimigos! O mundo está mesmo cheio deles. Que hacer? Obliterar a face é a resposta. E tudo será permitido. Quando ladrões roubaram o convento de Francisco de Assis, este chamou-os de volta, ofereceu-lhes a própria comida e pedido de desculpas. Para ele aqueles não eram malfeitores, mas irmãos quem deviam acolher. Um leproso não lhe inspirava horror ou repulsa, mas vontade de abraçar. Perante o grande Pai todos são iguais. Se todos são iguais todos merecem respeito. Não é esta a base da convivência social? Para uma civilização possível é preciso que consideremos o que temos em comum, não nossas diferenças. Importa nossa humanidade comum. Local de nascimento, cor da pele, estrato social, grau de instrução, posse de bens materiais, nada disso justifica o desrespeito de uns para com outros. Por inveja Caim matou Abel. Aquele já não via mais este como o irmão, mas como o inimigo, que achava, tomava seu lugar junto ao Senhor. Por isso tinha de ser eliminado. E foi. Dissimulou, obliterou sua face. Quando o Senhor perguntou - Caim, onde está teu irmão? – só então ele caiu em si. Seus ressentimentos contra Abel afastaram-no. São os sentimentos que nos unem e desunem, não nossos argumentos lógicos. Nós nos aproximamos de quem sente como nós, não de quem pensa como nós, escreveu Lúcia Coelho, minha professora de psicologia. Para matar alguém preciso é cobrir sua face. Um ser humano não pode, simplesmente, matar outro ser humano; é preciso, antes, desumanizá-lo. Façamos, com Grossman, o exato oposto.
Paulo Palladini                       


Escrito por Paulo Palladini às 18h46
[] [envie esta mensagem
] []





Todos os Cantos 309

 

Perto e longe


Parece mais fácil resolver os grandes problemas do mundo, que aqueles bem mais próximos, os de nossa cidade, nossa rua, sem falar nos de dentro de casa. Consertar uma valeta na esquina parece mais difícil do que solucionar o conflito entre israelenses e palestinos. Escalamos com facilidade uma seleção brasileira de futebol campeã. Já não conseguimos o mesmo com o time de futebol de salão do bairro. Nem falemos no genuinamente mocoquense Radium Futebol Clube. Problemas de família? Resolvemos todos, menos os nossos. Sabemos perfeitamente bem o que os governantes precisam fazer para governar. Já quanto a administrar a própria casa... É que, quanto mais conhecimentos temos dos problemas, mais próximos deles estamos, mais complexos eles se nos apresentam. Quando a coisa acontece longe de nós, tudo se nos assemelha fácil. Basta entrarmos em contato direto com uma situação para sentirmos o quanto é difícil abordá-la. Assim, nós humanos, nos primórdios de nossa mente investigativa, começamos pelos aspectos mais complexos do universo, explicando sua origem e seu fim, sem ter qualquer meio científico de comprovação das assertivas. Nossos ancestrais, muitas vezes, simplesmente faziam afirmações sobre as coisas. O fundamento das afirmações, o que lhes conferia o caráter de verdade, era com freqüência, a autoridade de quem afirmava. Fosse uma autoridade religiosa ou política. Hoje não é mais assim. Ou quase. A ciência avançou muito. Muitos mitos foram derrubados. Para a ciência não importa quem está falando, mas o que; e como se chegou a determinada conclusão, sempre provisória. Mas na vida cotidiana tudo continua como dantes. Quanto mais complexo o campo mais palpiteiros atrai. Na medicina, por exemplo: é inegável que um cérebro é mais complexo que um estômago. No entanto, ninguém dá palpite sobre como deve ser uma cirurgia gástrica; já sobre o funcionamento da mente humana ou a causa de determinada desordem psíquica.... Nessas ocasiões somos tomados por uma espécie de onipotência infantil, que nos faz ignorar, exatamente, a realidade. No artigo anterior argumentei a favor de uma construção coletiva da realidade, sem, contudo, negar nem afirmar a existência de realidades independentes de nossos sentidos. Movo-me no território que delimitei, isto é, da realidade socialmente determinada, elaborada pelo consenso perceptivo. Ainda aí, quanto mais ignoramos algo, tendemos a achar que sabemos tudo sobre ele. Colocamos a imaginação no lugar da observação, o contrário do que preconizava o mestre Silveira. Pois basta alguém tentar estudar um pequeno grão de areia, para verificar logo que as coisas não são bem assim.  A normalidade psíquica, se é que podemos falar nesses termos, consiste na subordinação de nossa subjetividade à situação objetiva; esta histórica, cultural e socialmente delimitada. Alguém que coloque sua subjetividade à frente, e atropele a realidade, ou é um gênio ou um louco. Ou ... pode estar apenas errado.
Paulo Palladini                       


Escrito por Paulo Palladini às 18h45
[] [envie esta mensagem
] []





Todos os Cantos 308

Legislação ambiental avança

 

Na semana passada afirmei aqui, minha vontade de uma lei que fizesse manter de pé a bicentenária figueira do Jardim Morro Azul. Por ela luta a Associação dos Moradores desse bairro, entre os quais me incluo. Hoje leio em A Mococa que a cidade busca certificação como Município Verde pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente. Muito bem! Isto significa que seus cidadãos querem viver num lugar limpo e despoluído, e que se preocupam com a qualidade do ar que respiram, da terra onde pisam, do alimento que comem, da água que tomam. Pronto – pensei – era o que faltava; nossa figueira está quase salva. O prefeito Toni Naufel, sensível à questão ambiental e ciente dos instrumentos legais necessários para evitar a devastação de preciosos recursos naturais, enviou à Câmara de vereadores vários projetos de lei. Os edis, mocoquenses que respiram do mesmo ar e tomam da mesma água que todos nosotros, transformaram os projetos em leis. Assim foi criado o Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente, o Comdema pela lei n° 3927 de 3 de setembro de 2009. Cumprimento-os por isso. O Conselho vai zelar pela divulgação e cumprimento de todas as normas relativas à proteção do nosso patrimônio natural e cultural. É ele que vai deliberar sobre os licenciamentos ambientais no município. É isso aí. Em outro ato o prefeito mudou o nome do Departamento de Agricultura e Abastecimento para Departamento de Agricultura, Abastecimento e Meio Ambiente, sinalizando que o poder público municipal vai centralizar o cuidado ambiental em um de seus órgãos. E para provar que a semana foi mesmo do meio ambiente, outras leis foram aprovadas pela Câmara e sancionadas pelo prefeito. Uma institui a política municipal de proteção aos mananciais de água, destinados ao abastecimento público. Temos o privilégio de habitar uma região provida de água de boa qualidade e quantidade suficiente. Aqui não falta água. Mas se estragarmos nossos rios vai faltar sim. Um dos pontos chave da lei é a proibição de lançar efluentes urbanos e industriais em qualquer corpo de água sem tratamento. Essa é a questão: água servida não pode ser despejada diretamente nos rios, sem que passe por um processo de depuração. Como o lixo não deve ser jogado em qualquer lugar, principalmente nas portas dos outros. Mococa já dispõe de estação de tratamento de água e a lei, agora, garante devolução de água limpa para nossos rios. Falta cuidar melhor do lixo. Por obra de outra lei, também aprovada em 3 de setembro - n° 3924 – toda construção no município só será autorizada se utilizar madeira legalizada. Mais um avanço. Os alvarás que a Prefeitura emite condicionarão a concessão do “habite-se” à comprovação da origem da madeira. A partir de agora construir em Mococa só com madeira de origem legal. Só madeira de lei. Tem mais. Os loteamentos serão obrigados a apresentar projeto de arborização contendo número de espécies de árvores a plantar, tamanho das plantas e responsabilidade por sua manutenção. O loteamento só será aprovado depois de apreciado pelo Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente. Para ser certificada como Município Verde a cidade precisará intensificar sua arborização urbana. Com esse sol africano sobre nossas cabeças, como costuma falar Ana, parece absurdo obrigar o povo a plantar árvore. Esse deveria ser um ato espontâneo por parte da população. Mas não é. Alguém é capaz de derrubar uma árvore porque as raízes danificam a calçada ou porque folhas caem de seus galhos. Tal atitude corresponde, para mim, à do sujeito que abaixa o vidro do carro, e atira uma lata vazia de cerveja. Ora! Leis são expressões de desejos coletivos: árvores em todas as ruas e praças, todos os espaços. Esse é um projeto que o novo Conselho  já pode apreciar.

                             

 Paulo Palladini                       



Escrito por Paulo Palladini às 18h21
[] [envie esta mensagem
] []





Todos os Cantos 307

Voltei!

 

Voltei. Depois de quase três meses afastado dessas páginas. Os leitores, obviamente, estranharam minha ausência. Alguns me perguntavam nas ruas, outros por correio digital. Desapareci sem deixar vestígio. Nenhum problema. Apenas a dificuldade de conciliar várias atividades ao mesmo tempo. Quando isso acontece, muitas vezes acabamos por sacrificar o que mais gostamos. Esse é o caso. Gosto de escrever, gosto do contato semanal com os leitores, gosto de suas indagações e confirmações. Então, há dias, senti forte desejo de voltar, retomar tudo isso. Mesmo com dificuldade. Na semana passada encontrei Carlinhos Munhoz. Ele me disse: Você é o titular da ponta esquerda, quando quiser voltar é só avisar. Voltei, não na ponta esquerda, mais para meiocampista, discretamente inclinado para a esquerda.

Marina. E aqui, digitando esse texto, deparei-me com a entrevista da senadora Marina Silva na revista Veja. Fui tocado pelas suas palavras, principalmente quando delineou seu projeto político, expressando o desejo de ser uma “mantenedora de utopias”. Alinhou os mantenedores de utopias que foram referência para ela: Chico Mendes, Florestan Fernandes, Paulo Freire, Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso. Ponderada que é ela não rejeita a política atual pelo ângulo da moralidade, mas pelo modelo de progresso que destrói a natureza. Quer para o país e para o mundo um “desenvolvimento sustentável”. A senadora Marina reafirmou-se como mulher de fé, mas que aceita os resultados das pesquisas científicas: “Não é preciso contrapor a ciência à religião”. Grandes são aqueles que alçam o olhar e enxergam longe. Marina enxerga longe.

Coelho de Moraes. Outra entrevista que li na semana foi a de Coelho de Moraes para A Mococa. Ativista cultural multimeios ele está lançando o livro Marcus, o imortal, um presente para os leitores em PDF. Já está disponível na internet. Segundo o autor, também estudante de filosofia, o livro é uma obra de ficção ambientada na Idade Média, e serve de introdução “no universo da reflexão filosófica”. Coelho de Moraes chama nossa atenção para esses novos meios e compara: um livro digital pode conter até 200 livros impressos em papel. Toda a sua biblioteca pessoal de 2000 livros caberia em apenas 10 desses e-book. Menos papel, menos árvores abatidas. Ele acredita que o “livro-fetiche” - de papel – esteja com os dias contados. Na Fatec, onde desenvolve seu trabalho, Coelho fez duas coletâneas de livros falados, com fundo musical de sua autoria ( Ele também é músico, compositor, maestro). Marco Antônio, o imortal. Prometo lê-lo.

Construir um bandoneon. Los hermanos criaram o tango, os alemães o bandoneon. Dezenas de milhares desses instrumentos foram importados pela Argentina, e deram fôlego ao desenvolvimento do tango. Um ficou indissociável do outro. Os mais conhecidos músicos de tango são bandoneonistas.  Acontece que os vizinhos não fabricam os instrumentos e, com o tempo, estes começaram a escassear, vendidos para turistas e colecionadores europeus e japoneses. Por isso los hermanos querem transformar o bandoneon em patrimônio cultural. Estão discutindo uma lei para proteger o instrumento. Oscar Fisher, presidente da Casa do Bandoneon, foi além: resolveu produzir um, só para provar que isso é possível: “enquanto muitos argentinos apostam em ganhar dinheiro com o dólar, eu aposto em construir um bandoneon”. 

Figueira. Ante meus olhos passaram muitas figueiras. Todas foram derrubadas, em nome de alguma lei. Há  leis de amparo para todos os derrubamentos. A majestosa árvore  do Jardim Morro Azul tem mais de 200 anos. Quero uma lei que a faça parar de pé.

 

Paulo Palladini                       



Escrito por Paulo Palladini às 18h20
[] [envie esta mensagem
] []





Todos os Cantos 306

Novela das Índias

 

Vamos falar de novela. E de cultura. Uma coisa não tem, necessariamente, a ver com a outra. Mas pode ter. Raramente assisto novela pela TV. Por chamamento de Ana e sugestão de algumas outras pessoas, comecei por ver Caminho das Índias, na Globo, dirigida por Glória Perez. A trama já corria solta com suas doses de malandragens e perversidades. Tudo muito exagerado; enfim, é novela. Parece-me que não há uma trama central. São múltiplas as tramas; tentam compor um painel do mundo contemporâneo. Globalização, questões étnicas e culturais, as várias formas de famílias, sua coesão e dissolução, questões relativas à mulher, às minorias, discriminação, classe média e criminalidade, pais rígidos, pais tolerantes, pais complacentes, pais perdidos. Tem mais: casamentos multiculturais e multirraciais, o medo do estrangeiro, do que é estranho. Têm também os tradicionais golpes, as falcatruas, as sacanagens (tudo por causa de dinheiro, claro). Algumas formas de loucura também são tratadas na novela. O jovem Tarso é o personagem da mais evidente delas. De modo geral a novela situa-se nos marcos da reforma psiquiátrica. Isso é bom.  Valoriza os ateliês e as oficinas terapêuticas, os aspectos positivos e criativos dos pacientes, suas iniciativas, inclusive na busca de ajuda terapêutica. Nise da Silveira, das mais importantes psiquiatras brasileiras, corajosa e premonitória na abordagem das desordens mentais, é bem citada. Portadores de transtornos viram atores, outros dão depoimentos. Em maio aconteceram as Olimpíadas de Saúde Mental, em Casa Branca, em comemoração  ao 18 de maio: Dia Nacional da Luta Antimanicomial. Mais de 40 equipes, milhares de atletas. Mococa participou de todos os torneios até hoje, desde o primeiro. Em 2009 fomos com duas equipes: uma do Caps-ad, outra da Oficina Terapêutica. Durante o evento, eu estava fotografando, quando uma jovem se aproximou, disse chamar-se Shirlei e ser usuária de um serviço de saúde mental de São Paulo; iria participar da sessão de videoquê. Pediu que a fotografasse enquanto cantava e remetesse o retrato para ela. Assim fiz. A foto ilustra este artigo. E foi justo ela quem apareceu durante a semana, num dos capítulos da novela Caminho das Índias, dando seu depoimento. Na trama Tarso representa o paciente psicótico típico; sofre com sua loucura, ouve vozes que o atormentam e o induzem a fazer coisas contra sua própria vontade. Desenvolve delírios que ninguém compreende. Incompreensão maior vive dentro de casa: um pai distante imerso no trabalho, uma mãe cega para os problemas do filho. A doença dela é não ver o que se passa com ele, é não permitir que ele cresça, é justificar sempre sua conduta, é não aprofundar, viver na superficialidade e frivolidade. Os profissionais, encarnados no psiquiatra Dr Castanho, não são figuras super-humanas.  Ao contrário, apresentam-se humanas até demais, tanto em como vivem suas vidas, como por seus dilemas, falhas, perplexidades. Dr Castanho, quando fala da psiquiatria, fala em tom didático, instruindo o telespectador. Como quando explicou as características de um psicopata, a personagem Ivone, que para muitos passaria, simplesmente, por uma pessoa maldosa. É muito mais que isso. Aliás, essa é a forma de loucura mais perigosa, muito mais que a psicose do Tarso, que chegou a atirar em Murilo. Os psicopatas são perversos e dissimulados. Escondem suas intenções, fazem-se passar por pessoas boas e amigas, quando na verdade estão escondendo suas garras. Só vão mostrá-las quando a vítima, cuidadosamente escolhida, já não poderá mais se defender. Assim agem os psicopatas. Como são inteligentes e controlados, conseguem disfarçar seus atos. Há muitos deles soltos por aí, não é, Dr Castanho?

 

 Paulo Palladini     



Escrito por Paulo Palladini às 18h19
[] [envie esta mensagem
] []





Todos os Cantos 305

Falar da violência


Como um pedaço de bolo de nozes. É uma daquelas noites frias. A calma do meu escritório contrasta com a inquietação que me toma o interior. Que falar da violência? Que palavras, que idéias são apropriadas a este momento?  Todos parecem ter fórmulas contra a violência, mas o fato é que a perplexidade tornou-se geral. Ninguém sabe o que fazer. E em situação assim, a que o psiquiatra e filósofo alemão Karl Jaspers denominou situação-limite, que o ser humano pode revelar, arrancando de  seu âmago, a forca criadora. Quando todo o conhecimento se esgota, quando todos os meios se mostram inadequados, surge aquela última liberdade, que é a única resposta possível. Só posso acreditar na criatividade para fazer frente às manifestações do lado mais perverso da condição humana. Já não cabem mais respostas prontas, lemas desgastados, chavões, frases feitas. Não basta evocar os direitos de cidadania e as liberdades democráticas. Tudo isso é insuficiente.  A austeridade à moda antiga também já não funciona mais. Estamos desorganizados. E o crime organizado prospera especialmente em sociedade que se desorganiza. Durkheim usava a palavra anomia para caracterizar a ausência de regulamentação da vida social em períodos de crise, quando faltam regras pactuadas e os cidadãos ficam ao sabor do individualismo e  da confusão. Mais ou menos uma situação do tipo: cada um por si ou salve-se quem puder. Somos pacíficos demais para suportar tanta violência. Ou não haveria tanta violência real? Ou tudo não passaria de pura ilusão, maquiavelismo midiático para manter a classe média assustada?  O binômio segurança/insegurança precisa entrar na pauta pra valer; se-ri-a-men-te. De nada adianta, afirmam-nos,  blindagem, colete, alarme ou cerca eletrificada. O banditismo esta aí para vencer em todas as camadas sociais, em todas as classes operárias e burguesas. Acintoso desafio às autoridades, justo aquelas autoridades que foram investidas do poder pelo voto popular. Nada mais perverso para a afirmação democrática do que o assassinato político, que é a negação do diálogo, do livre fluir das idéias. Há os que querem fazer calar e os que se aproveitam disso. O momento é delicado e recomenda cuidado, principalmente quanto a falsas soluções. Não penso que haja uma solução fácil. Mas criatividade e bom senso só podem fazer bem. É preciso entender que a violência, como a AIDS e as drogas, não acontece só com o vizinho. Ninguém está vacinado contra nenhuma delas. Por isso não é um problema só do governo ou da polícia. O governo precisa dar respostas rápidas e inspirar a confiança dos cidadãos; estes precisam cooperar e indicar que não mais toleram tais níveis de violência na sociedade.  Paz não pode ser apenas uma bela palavra num cartaz. Precisa impregnar o cotidiano do cidadão comum nas relações de todos com todos.

 

Paulo Palladini                        



Escrito por Paulo Palladini às 18h17
[] [envie esta mensagem
] []





Todos os Cantos 304

Saúde Mental e Direito

 

Fui ao Forum no CRCB (Centro de Reabilitação de Casa Branca), no último dia 19. O tema era saúde mental e direito. Duas falas: Regina Bichaff e Haroldo Caetano da Silva. Ela é a coordenadora da área de saúde mental da Secretaria de Saúde de São Paulo; é quem coordena todas as ações de saúde mental da rede pública no Estado. Ele é promotor do Ministério Público de Goiás; ordena seus atos pela lei 10.216, a lei da reforma psiquiátrica. Ambas as falas foram muito claras. Posturas bem definidas a respeito de quem sofre de transtorno mental: são pessoas antes que doentes, cidadãos antes que delirantes. O trabalho do promotor Haroldo é admirável. Criou em Goiânia, em 2006, depois estendido a todo o Estado de Goiás, um programa chamado PAILI (Programa de Atenção Integral ao Louco Infrator). Uma equipe formada por psiquiatra, psicólogos, assistentes sociais, advogados, representantes do Ministério Público, faz a articulação entre órgãos da Justiça, da Saúde e sociedade em geral, para aplicar as medidas de segurança a quem comete delitos na vigência de algum transtorno mental. Tudo de acordo com a lei 10.216. Assim, se a lei diz que o tratamento de um paciente psiquiátrico deve ser realizado em serviço comunitário e não em hospital psiquiátrico, é para um serviço comunitário que o paciente é encaminhado. Se a lei diz que é proibido internar qualquer pessoa em instituição com características asilares, os chamados manicômios, o PAILI encaminha os pacientes que cometem crimes para um hospital psiquiátrico comum, onde recebem tratamento, não castigo. O que o grupo do promotor Haroldo faz é aplicar os dispositivos do Código Penal à luz da lei da reforma psiquiátrica, que é de 2001. O PAILI encaminha e acompanha o paciente durante todo o tratamento até o término da medida de segurança. Se esta foi fixada em 12 meses, vencido o período, a pessoa é liberada. A equipe do PAILI não trabalha com prognóstico, tentando adivinhar o grau de periculosidade e como determinada pessoa irá se conduzir no futuro. Mesmo porque esta é uma missão impossível na área da saúde mental. A fala de Regina Bichaff também foi focada na reforma psiquiátrica, mas a partir da posição da secretaria estadual da saúde. Um dos pontos destacados por ela foi o censo psicossocial de moradores em hospitais psiquiátricos de São Paulo realizado no ano  passado, e que identificou 6.349 pacientes internados há mais de um ano. O Estado assumiu o compromisso de desinterná-los e restituí-los às comunidades de origem. Aqueles que perderam os vínculos familiais serão acolhidos em residências terapêuticas. A coordenadora Regina virá a Mococa discutir os projetos de saúde mental do município, principalmente a construção de novas residências terapêuticas. Pelo Censo existem ainda 26 mocoquenses moradores em hospitais psiquiátricos. A ordem é que cada comunidade cuide de seus membros.  Mesmo que esse membro seja um paciente psiquiátrico abandonado pela família num hospício. Ele pertence a uma comunidade; nossa tarefa é resgatá-lo, e oferecer-lhe uma oportunidade.

 

Paulo Palladini          



Escrito por Paulo Palladini às 18h16
[] [envie esta mensagem
] []



 
  [ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]